O cão que calculava
O cão Sarampo fazia contas e levava objetos em endereços de Araxá, seguindo as ordens de Adolphinho. Assis Chateaubriand e Malba Tahan se encantaram com ele
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Desde menino, ouço histórias de Sarampo, cachorro que pertencia a um parente distante de Araxá (MG), Adolpho José de Aguiar. Conhecia as quatro operações matemáticas e só faltava falar. "Sarampo, quanto é 4+5+2?", perguntava Adolphinho e o cachorro latia onze vezes. A gente costumava contar essas histórias e, diante dos primeiros risos de descrença, logo emendava para dar sustentação à narrativa: "Ele esteve até na televisão". E ficávamos por aí, com a sacola de argumentos vazia e cara de quem conta lorota.
Pois lavei a alma quando recebi de presente do saudoso amigo Paulinho Aguiar o livro "Sarampo, a Verdade", de Mizael Adolfo de Aguiar, filho caçula de Adolphinho, os quais não conheci. Sarampo viveu de 1952 a 1966 e não só sabia somar, diminuir, dividir e multiplicar, como conhecia também frações. O famoso matemático Malba Tahan, heterônimo do carioca Júlio César de Mello e Souza e autor do livro “O Homem que Calculava”, o conheceu e descreveu seu espanto em texto: "... o cachorro calculista mostra que a metade de nove é quatro e meio...". Era capaz de obedecer a várias ordens nos dias determinados para que fossem executadas, conhecia as cores e era, digamos, muito polido. Perguntado certa vez quantas mulheres feias havia na sala, ficou mudo. Indagado em seguida quantas eram bonitas, latiu o número exato de todas que ali se encontravam.
Sabia "dizer" o número de pessoas que estavam trajando determinada cor e, pasmem, atendia Adolphinho ao telefone. Alguém segurava o fone em seu ouvido ou o punha no chão e o cachorro se deitava para acomodar a orelha junto ao aparelho. O dono pedia que ele levasse um objeto esquecido em casa, dava o endereço de onde se encontrava, indicava o trajeto a ser feito e Sarampo cumpria o comando com exatidão.
O cão era um dog alemão, tinha grande estatura e olhos azuis. Adolphinho tinha olhos verdes, mancava, vítima de paralisia infantil, era alegre, brincalhão e generoso. Costumava dizer, para fazer graça, que mandara cortar as orelhas e o rabo de Sarampo para que ele não demonstrasse alegria quando a sogra ia visitá-los. O cachorro e seu dono formavam uma dupla inseparável. Ao vê-los juntos, as pessoas se impressionavam com os feitos do animal e se emocionavam com a amizade entre os dois.
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Adolphinho nunca precisou ensinar nada a Sarampo. A primeira vez em que se deu conta da inteligência do animal foi quando, depois de ter pedido sem sucesso a um filho que lhe trouxesse os chinelos, o cão realizou a tarefa espontaneamente. Depois disso, bastava pensar em alguma coisa que Sarampo executava. O então governador Israel Pinheiro, ao vê-lo em ação, concluiu se tratar de "um fenômeno de telepatia".
O jornalista Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, encantou-se de tal forma que dispôs uma Rural Willys para levar a dupla em apresentações Brasil afora. E escreveu, com seu conhecido estilo: "Vendo Sarampo em atividade, me ponho a pensar o que não seria do Brasil se nós o tivéssemos eleito presidente em lugar de Jânio Quadros". O cão apresentou-se em emissoras de TV e em shows, foi notícia dos jornais da época e ficou famoso. Adolphinho cobrava cachê e, com o dinheiro, construiu a maior creche de Araxá, a Casa Nazaré.
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Quem ainda duvidar pode pedir mais informações sobre Sarampo no Google. Não é lorota!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
