Celina Aquino
Celina Aquino
Formada em jornalismo pela PUC Minas. Começou como estagiária nos Diários Associados e teve passagens por editorias como Polícia, Saúde, Imóveis, Negócios e Emprego. Hoje é especializada em gastronomia e também escreve sobre moda
Aceito um doce

Seriam os deuses doceiros?

Entre nós, pobres mortais, a receita com ovos, leite e açúcar está associada à doçaria conventual portuguesa, que deixou sua herança Brasil afora

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Tenho que fazer uma confissão que hoje me envergonha: de pequena, cismava que não gostava de alguma coisa sem nunca ter experimentado. O mais absurdo é que isso já aconteceu com pudim. Quando comi pela primeira vez, me bateu um grande arrependimento. Como fiquei tanto tempo sem aquela cremosidade e aquele sabor caramelizado?

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Pois bem, ambrosia é um doce que sempre falei que não gostava. Minha avó fazia e eu me recusava a provar – até porque tinha uma opção muito melhor, o inesquecível doce de leite com nata. Costumava almoçar em um restaurante que tinha uma ambrosia famosa e sempre olhava torto para ela. Sou do time que come com os olhos e, cá entre nós, essa não é das sobremesas mais bonitas. Não me apetecia nem um pouco comer ovos mexidos açucarados.

Resisti por muito tempo, até um jantar no restaurante Trintaeum, em Belo Horizonte. Ana Gabi Costa recebeu Roberta Sudbrack e serviu o seu maravilhoso gelado de queijo de cabra com ambrosia. Era uma referência à história da chef convidada, que tem duas casas no Rio de Janeiro. Na pandemia, enquanto vendia a ambrosia da avó Iracema no delivery, Roberta escrevia cartas para ela, que foram publicadas no livro “Um tal cheiro de ambrosia”.

O doce chegou à mesa numa panelinha de ferro, pegando fogo. Era justamente para abrir a tampa e sentir o tal “cheiro de ambrosia”. Coloquei na boca a primeira colherada e senti um sabor caramelizado dos deuses. Comi, repeti e entendi: encontrei a ambrosia que me fez mudar de lado (com frequência, quebro a cara com as minhas convicções fajutas, ainda bem).

Soube que a ambrosia era da Rapa do Tacho, que fica no Mercado Novo, Centro da cidade. Não era a primeira vez que me falavam dela, mas nunca dei ouvidos. Tinha chegado a hora de corrigir esse erro e ir lá conhecer quem faz o doce que me conquistou.


Segundo a mitologia grega, a ambrosia era o alimento que garantia imortalidade e felicidade irrestrita aos deuses do Monte Olimpo. Por isso, na Grécia, seu nome significa “comida dos deuses” – o que, provavelmente, originou o elogio que fazemos até hoje a um prato muito delicioso. Entre nós, pobres mortais, a receita com ovos, leite e açúcar está associada à doçaria conventual portuguesa, que deixou sua herança Brasil afora.

Em Martinho Campos, na Região Centro-Oeste de Minas, Laura da Costa aprendeu a fazer ambrosia com a mãe e nunca deixou faltar o doce em casa. Sempre foi o preferido do filho mais novo, Augusto César, que nasceu aquecido pelo calor da ambrosia no fogão. Na noite anterior ao parto, lá estava a grávida mexendo o tacho para garantir uma dose de felicidade ao filho mais velho. Augusto virou um devorador de ambrosia e, depois de 13 anos trabalhando como cozinheiro, teve a ideia de abrir uma loja de doces.

Dizer que a Rapa do Tacho é uma loja chega a ser injusto. Lá você faz uma viagem no tempo e no espaço – eu mesma fui parar na cozinha do quintal da minha avó. A decoração remete à infância do dono na roça e os fogões ficam acesos o tempo todo, com enormes tachos e colheres de pau em constante movimento. Aquele é o lugar onde se preserva o ofício de doceiros e doceiras. Augusto diz que não se preocupou em aprender com a mãe as receitas, o mais importante era entender o modo de fazer.

Lá também é um lugar que mexe com as emoções. Ouvi que muitas pessoas chegam a chorar e testemunhei uma turista de São Paulo que se revelou emocionada com aquela cena, levando a mão ao coração.

O nome Rapa do Tacho vem do apelido que Augusto ganhou do pai por ser o caçula da família, sete anos mais novo que o irmão mais velho. Não foi planejado, mas também virou o nome do seu doce mais falado. Além da versão tradicional (com mais leite e menos açúcar), ele teve a ideia de fazer tudo o que não se deve fazer na cozinha: deixar a mistura queimar e grudar no fundo do tacho, criando a rapa do tacho de ambrosia. Era o jeito de levar o prazer de raspar o fundo da panela da mãe para o pote e oferecer aos clientes. O resultado é aquele sabor caramelizado que me fez, enfim, gostar de ambrosia.

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Entendi ali porque a ambrosia é uma comida dos deuses, ela alimenta a alma.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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