Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE em evidência

Que saudade dos meus ‘pernas de pau’

A Copa termina e leva embora os deuses. Ficamos nós, os mortais, com nossos campeonatos malucos e nossos esgotos a céu aberto

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Confesso: passei quase dois meses em adultério futebolístico. Traí o meu time — esse amor antigo, regado a cerveja com Rivotril, cheio de defeitos, que me faz sofrer todo domingo — com craques que matam uma bola a sangue frio e dão passes que parecem escritos por Deus em dia inspirado de criação. A Copa do Mundo é isso: uma amante luxuosa que aparece de quatro em quatro anos, perfumada, poliglota que fala línguas que não entendo, e me faz esquecer, por algumas semanas, a mulher da minha vida.

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Mas a Copa está quase acabando. E eu, em vez de tristeza, sinto um alívio estranho, quase uma alegria envergonhada. Porque vou voltar para casa. Vou voltar para o meu time, para a minha arena meio vazia, para o Caixa, meu narrador ilusionista, para os meus queridos, insubstituíveis, eternos pernas de pau.

Que saudade deles, meu Deus.

Saudade do zagueiro que chuta a bola para o alto como quem manda uma carta sem endereço, confiando que o destino resolva. Saudade do atacante que corre quarenta metros em disparada gloriosa e, na hora do gol, tropeça na própria sombra. Saudade do meia que tenta um lançamento genial e acerta, em cheio, o vendedor de pipoca da arquibancada. Há uma poesia nisso que os craques da Copa desconhecem. O craque acerta, e o acerto é bonito, mas previsível. O ‘perna de pau’ erra, e o erro é sempre uma surpresa, uma invenção, um haicai involuntário.

Aprendi como médico, que o corpo humano é uma máquina de falhar com elegância. O coração falha, o joelho falha, a memória falha e a hemorroida nos aleija. Os pernas de pau apenas antecipam, no gramado, aquilo que a vida fará com todos nós. Por isso os amo: eles são humanos demais. O Mbappé e Messis da vida são anjos, e anjo não é gente. Já o ponta-esquerda do meu time, aquele que perde gol feito com a dedicação de quem cumpre uma missão, esse sim é meu irmão, minha carne, meu espelho.

Durante dois meses, a televisão nos serviu caviar. Gente do mundo inteiro desfilando talento: dribles que desafiam a física, gols que mereciam moldura e parede de museu. Bonito, bonito demais. Mas vitrine é vitrine — a gente encosta o nariz no vidro, suspira, e depois volta para casa, onde o jantar é arroz com ovo. E vou lhes dizer: arroz com ovo, quando é nosso e bem feito, tem um gosto que caviar nenhum alcança.

Porque a nossa realidade é outra, e ela nos espera na esquina com um sorriso torto, torresmo de ontem e diarreia na certa. Nosso futebol vai como vai nosso saneamento básico: a promessa corre solta, mas o esgoto continua a céu aberto. Investe-se pouco na base — na base do time e na base do bairro. O menino que poderia ser craque divide a rua com a água pútrida, e a bola quica torto porque até o chão, aqui, é perna de pau. Depois nos perguntamos, coçando a cabeça diante da televisão, por que os gênios agora moram todos do outro lado do oceano. Por que ficamos pelo caminho abatidos pelo gigante viking, nutrido até na unha do dedão, que numa cabeçada e uma bicuda certeira nos devolveu a realidade.

E há ainda a outra Copa, essa que não termina nunca: a política. Estamos em ano de eleição, e os candidatos já fazem aquecimento no gramado, alongando a língua, treinando a cara e a canela de pau, ensaiando o velho repertório de chutes no bom senso do eleitor. Ruim com eles, pior sem eles. Votar exige treino e paciência. Nesse quesito estamos perdoados. Ficamos 21 anos no estaleiro. Enferrujamos o bom seno.

Mas é preciso reconhecer: nem o pior ‘perna de pau’ do meu time conseguiu a proeza de certos políticos brasileiros. Esses fizeram gol contra. E não foi gol contra do zagueiro atrapalhado, desses em que a bola bate na canela e entra, coitado — foi gol contra ensaiado, treinado no exterior, comemorado com a mão no peito. Um filho da pátria atravessou o oceano para pedir ao dono do outro time que taxasse o nosso café, a nossa carne, o nosso aço, o suor de quem planta e produz neste país. E por quê? Pela pátria? Não: pelo pai. Pelo sobrenome. Pela pele do patriarca, amante da cloroquina, enrolado na Justiça por atentar contra a própria meta. Trocaram o Brasil por um álbum de família. Vestiram a camisa verde-amarela por fora e jogaram contra ela por dentro — e ainda chamaram a traição de patriotismo, que é como chamar o gol contra de jogada ensaiada. Perna de pau erra por incompetência, e incompetência se perdoa; esses erraram por projeto, com a fatura enviada para a mesa do brasileiro.

No consultório, um paciente me perguntou se saudade de futebol ruim é doença. Respondi que é saúde: sinal de que o coração ainda bate no peito e pertence a algum lugar. Doente é quem só ama o que é perfeito — esse não ama, cobra.

Ah, mas prefiro mil vezes os meus ‘pernas de pau’ do estádio. Esses erram com inocência. Perdem o gol e abaixam a cabeça, envergonhados, pedindo desculpas à torcida. Já viram político abaixar a cabeça? Político perde o gol e culpa o gramado, o vento, o governo anterior e a conjuntura internacional.

Saudade é o mais brasileiro dos sentimentos, tanto que a palavra nem tem tradução. E eis que descubro em mim uma saudade nova: saudade da imperfeição. Cansei do sublime. Quero de volta o domingo mal jogado, o zero a zero de vinte e três chutes errados, o cruzamento que vai para a lateral, o grito de "vergonha!" do senhor magrinho da geral, que reclama há quarenta anos e há quarenta anos volta no domingo seguinte — porque reclamar do time, no fundo, é uma forma de rezar.

A Copa termina e leva embora os deuses. Ficamos nós, os mortais, com nossos campeonatos malucos, nossos esgotos a céu aberto, nossos candidatos de chuteira com prego afiado na sola. Mas ficamos também com o que é nosso. E o que é nosso, mesmo torto, tem uma vantagem sobre toda perfeição alheia: cabe no lado esquerdo do peito.

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Em breve estarei lá, na minha arena, junto ao alambrado. O meu ponta vai receber a bola, vai olhar o gol como quem contempla o infinito, vai chutar — e a bola vai subir, subir, subir, passando por cima do gol, do estádio, do razoável. E eu vou aplaudir. Porque ‘perna de pau’ também aponta para o céu. Só erra o alvo, coitado. Como eu. Como você. Como, às vezes, o nosso Brasil.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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