Carlos Starling
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É como me disse uma paciente no auge dos 104 anos ao comentar a destruição em Gaza: "Não sei que mundo esse povo vai deixar para mim!"

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Já passei dos 60 e ainda não descobri o que vou ser quando crescer. Isso, que em qualquer pessoa sensata seria motivo de constrangimento, em mim virou método. Mineiro, desconfio de tudo que se resolve cedo demais — inclusive de mim mesmo. É como me disse certa vez uma paciente no auge dos seus 104 anos ao comentar a destruição em Gaza: “Não sei que mundo esse povo vai deixar para mim!”.

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Fiz as contas outro dia, numa dessas insônias que a idade nos presenteia: quatro filhas, três casamentos, mais de 40 anos de medicina, três hospitais, um consultório, pesquisas clínicas, uma coluna semanal neste jornal, um grupo de ciclismo, uma bicicleta que está sempre contra o vento e o Sushi, um cãozinho do tipo salsicha que invadiu minha vida. Somando tudo, dá uma vida. Ou duas. Ou uma vida mal dividida por várias, que é como geralmente se vive.

Comecemos pelas filhas, que é por onde tudo deveria começar. Quatro. Espalhadas por três casamentos, como capítulos de um romance que o autor reescreveu teimosamente, convencido de que ainda não tinha acertado o tom. As filhas, essas, acertei todas. Os casamentos é que tinham defeito de fabricação — certamente no marido, mas isso é assunto para outra crônica, ou para nenhuma. O mineiro lava roupa suja em casa e, na dúvida, nem lava: dobra como se enrola um queijo e guarda para curar.

Há quem diga que casar três vezes é insistência. Prefiro pensar que é otimismo com método científico: hipótese, experimento, resultado, nova hipótese. Meu amigo, Robertão, casou oito vezes e está firme na oitava. A medicina nos ensina que o fracasso de um protocolo não invalida a pesquisa — apenas refina a pergunta. E a pergunta, no amor como na ciência, é sempre a mesma: será que dessa vez vai?

Da medicina, o que dizer depois de mais de 40 anos? Que ela é a minha mais longa relação estável, a única que sobreviveu a todas as outras. Escolhi a infectologia, especialidade discreta, de quem trabalha com inimigos que ninguém vê. Lido com pessoas invadidas por seres invisíveis, microscópicos, com frequência anônimos — e absolutamente determinados a fazer a faxina do planeta e devolver nossas moléculas ao universo.

Labuto em três hospitais. Num deles, as paredes ainda guardam a lembrança do meu primeiro suspiro nesse mundo. Três, repare o leitor, o mesmo número dos casamentos — coincidência? Não. Método: tese, antítese e síntese. Na minha rotina kafkiana, discuto pacientes complexos em terapia intensiva, aqueles em que a vida e a morte negociam de madrugada, e o intensivista entra na conversa como mediador sem procuração de nenhuma das partes. Atuo no controle das Infecções Relacionadas à Assistência (IRAS), que é uma forma elegante de dizer que passei a vida implorando às pessoas para lavarem as mãos. Pilatos lavou as suas uma vez e ficou mal na história; eu recomendo o gesto milhares de vezes por ano para obter o efeito inverso.

E há a pesquisa clínica, que é o meu jeito de continuar fazendo perguntas quando já me esperam dando respostas. Nessas alturas do campeonato, espera-se de um médico que pontifique, que sentencie, que cite a própria experiência como quem cita as Escrituras. Eu prefiro continuar perguntando. A dúvida é a única coisa que envelhece bem em mim — fora o vinho, que envelhece bem em quase todos nós.

Aí entra a bicicleta. Participo da União Ciclística de Minas Gerais há cerca de 25 anos, um grupo de malucos com os quais pedalo, dizem, em alta performance. Médico tem fama de cuidar mal de si mesmo, de receitar o que não toma e proibir o que pratica. Resolvi contrariar a estatística no pedal: subo serra, desço serra e, no meio do caminho, converso com o corpo, esse paciente que carrego e que, devo admitir, exceto pelas pedras que deixo pelo caminho, tem sido de uma fidelidade comovente. Nunca pediu segunda opinião.

O ciclismo, aliás, é a única atividade em que aceito andar em grupo sem coordenar nada além do entusiasmo. Mentira: coordeno o grupo também. Há diagnósticos dos quais não se escapa, e o meu é este — a incapacidade crônica, sem cura descrita na literatura, de ficar quieto num canto. Resolvi contrariar a sabedoria do seu Lozico, meu avô: “Cuidado meu filho, o que mata velho são três Qs - queda, quoice e quaganeira”.

E as crônicas, que há seis anos escrevo toda semana neste jornal. Esse foi o vício mais tardio e talvez o mais grave, porque é o único sem antídoto e que cronifica fácil. O médico escreve receitas a vida inteira, letra ruim, frases curtas, posologia quase indecifrável. Um dia descobre que a página em branco também é um paciente: chega calada, cheia de sintomas vagos, e cabe a você descobrir o que ela tem a dizer. Toda semana faço essa anamnese. Às vezes, a crônica sara. Às vezes, vai a óbito na terceira linha, e eu assino o atestado com a dignidade possível.

Olho para trás e vejo que nunca soube escolher — então escolhi tudo. A clínica e a pesquisa. O hospital e a estrada. A palavra e o silêncio. Quatro filhas que me provaram que o amor não se divide: multiplica-se, como certas bactérias, exponencialmente e sem pedir licença. Três casamentos que me ensinaram que recomeçar não é pecado e muito menos fraqueza — é a única terapia intensiva que existe para o coração.

Dizem que mineiro come quieto. Pois eu vivi quieto e em movimento contínuo: sem alarde, fui acumulando vidas como quem acumula quilômetros no velocímetro da bicicleta — um a um, sem perceber; até que um dia você olha e o número assusta. Já dei mais de seis voltas ao mundo apenas girando em torno da Lagoa da Pampulha. Até São Francisco e os peixes de Portinari já enjoaram de me ver passar. Há quem se aposente com menos. Há quem desista com muito menos. Eu sigo de plantão: no hospital, no consultório, na coluna do jornal, na União Ciclística, com a Joana que me acolhe e tolera há quase duas décadas. Agora, tem também o Sushi que faz festa quando me vê, abana o rabo e só me pede que lhe coce a barriga.

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Se me perguntarem qual o segredo, direi a verdade, que é sempre o mais desconcertante dos diagnósticos: não há segredo. Há apenas um ser que nunca aprendeu a parar, e que, por preguiça de aprender, continuou. Mais ou menos como disse um velho jogador do Galo: “Fui fono, fui fono, fui fono, o goleiro saiu, 'dliblei' ele e só empurrei pra dentro”. A vida, no fim das contas, é uma infecção latente — pega-se no nascimento, não tem cura conhecida, e o melhor tratamento ainda é o mais antigo de todos: o uso contínuo, em dose plena, sem interrupção. Até que a alta venha. E que demore. Que demore.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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