Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE EM EVIDÊNCIA

O plantão infinito

Aprendi a palavra "plantão" antes de aprender a andar de bicicleta. Plantão era onde o pai estava quando não estava

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Há poucos dias um paciente me mandou, num sábado, algumas dezenas de mensagens. Não exagero: dezenas, com a pontualidade de quem dispara metralhadora. Como tive a ousadia de não responder a todas antes do almoço de domingo — eu, criatura de hábitos antigos, ainda almoço aos domingos —, recebi a sentença: "Já não se fazem médicos como antigamente". Ri sozinho, daquele riso mineiro que é meio tosse, meio confissão. Porque o homem tinha toda a razão. Não fazem mesmo. E, cá entre nós, ainda bem.

Nasci, se não dentro de um consultório, ali pertinho — no corredor de espera de uma vida que já vinha decidida. Meu pai era médico em Ibiá, no Triângulo Mineiro, e em Minas ser filho de médico não é profissão, é parentesco com o destino. A gente não escolhe a medicina: herda, como se herda o relógio do avô, a teimosia da mãe e a mania de chegar cedo a lugar nenhum. 

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Meu pai não construiu só uma carreira; construiu uma Santa Casa de Misericórdia, de tijolo e teimosia, e foi por aqueles corredores que aprendi a andar — entre macas, éter e santos de gesso que pareciam, todos eles, estarem sempre de plantão. Eu achava aquilo heroico. Hoje desconfio que era, também, um pouco de medo do nada.

Aprendi a palavra "plantão" antes de aprender a andar de bicicleta. Plantão era onde o pai estava quando não estava. Era o nome bonito que se dava à ausência. E eu, menino, jurei que um dia teria os meus — e tive, como tive. Vinte e quatro horas, trinta e seis, a conta a gente perde de propósito, porque somar dói. Dobrávamos jornada como quem dobra a aposta, certos de que a sorte do cansaço uma hora premia. Premiava: com olheira, café requentado e a vaga glória de ser o último a apagar a luz. Em Minas, a gente chama isso de dedicação. O resto do mundo, mais tarde, aprendeu a chamar de burnout. Demos o nome em inglês porque em português ficava pessoal demais.

Havia uma narrativa, e fui personagem dela com gosto: a do herói incansável. O médico que não dorme, não adoece, não chora — apenas atende. Competíamos, numa esgrima silenciosa de olheiras, para ver quem aguentava mais, e o troféu era a própria exaustão. Que ironia: passei anos provando dedicação justamente pelo caminho mais curto para o adoecimento. A culpa, essa companheira fiel, me visitava sempre que eu ousava descansar. Culpa de parar, culpa de não dar conta, culpa de querer menos. Fui formado, percebo agora, numa escola emocionalmente violenta que ensinava sutura, farmacologia e o pecado capital de cuidar de si mesmo. Meus velhos mestres da Federal de Minas eram homens admiráveis e implacáveis, que nos legaram a ciência e, de brinde, a convicção de que descansar era falta de caráter e ética. Aprendi com eles tudo — inclusive o que hoje tento, com esforço, desaprender.

O tal paciente das dezenas de mensagens, no fundo, é só o porta-voz atualizado de uma cobrança antiga. Antes era o telefone de baquelite tocando às três da manhã; agora é o aplicativo piscando no sábado de sol. Mudou o aparelho, não mudou a expectativa: a de que o médico seja onipresente como Deus, só que com CRM e sem domingo. "Médico de antigamente" atendia a qualquer hora, é verdade. Também morria mais cedo, mas esse detalhe ninguém põe na saudade.

Houve, claro, o capítulo do dinheiro — assunto que médico evita como evita falar da própria morte. Saí da faculdade com anos de estudo e quase nenhum tostão, atrasado na formação de patrimônio, analfabeto em economia como sou em bula em latim. Ninguém me ensinou juro, ninguém me ensinou a parar. Aprendi a ressuscitar paciente, não a sustentar a mim mesmo sem o jaleco. E aí mora a armadilha mais silenciosa: não é que eu sempre quisesse trabalhar até os setenta — é que eu gosto e preciso. Há uma diferença abissal entre a vocação e a coleira, e por anos confundi as duas porque tinham o mesmo cheiro de antisséptico de hospital.

Confesso o medo, agora que confessar não custa plantão. Medo do vazio. Medo de perder a relevância. Medo, sobretudo, de não saber quem sou sem o estetoscópio pendurado no pescoço — porque a medicina deixou de ser ofício e virou armadura, refúgio, identidade, sobrenome. Outras profissões permitem a aposentadoria como quem desce a escada devagar. A nossa empurra a gente do precipício, sem corda amarrada nos pés e ainda pergunta por que estamos gritando. Ninguém me treinou para envelhecer profissionalmente. Aprendi a dar alta a todo mundo, menos a mim.

E o preço veio cobrado na moeda mais cruel: a da vida que não vivi ao redor. Procuro, na memória, os hobbies que não tive, os amigos fora da medicina que não cultivei, as conversas sobre história, política, filosofia, literatura que troquei por casos clínicos no almoço. A medicina preencheu tudo, o tempo todo — e, no mesmo gesto generoso, esvaziou tudo o que existia em volta. É a tragédia caprichosa do médico: a profissão que mais nos enche é a que mais nos deixa ocos. Plantão infinito de uma vida inteira, e o vazio também fazendo hora extra.

A aposentadoria, esse fantasma que ronda os corredores, não me assusta por ser o fim. Assusta por ser o espelho — escancara tudo o que a medicina não me ensinou. Não me ensinou a viver sem ser indispensável, a habitar o silêncio sem chamá-lo de abandono, a ter prazer no nada fazer. Vira prisão, a aposentadoria, justamente para quem construiu a casa inteira sobre uma só viga: o trabalho. Tira a viga e desaba o sujeito.

Mas sou mineiro, e mineiro tem essa virtude teimosa de achar saída onde parece só haver parede. Ando desconfiando que o sucesso que me venderam estava com a bula trocada. Salvar vidas, sim, mas a conta não fecha se eu perder a minha no troco. Meu pai morreu aos 67 anos, exausto, gasto pela dureza do próprio ofício, e deixou uma Santa Casa de pé e um filho que demorou meio século para entender que admirá-lo não significa repeti-lo até o fim. Ele atendeu até o relógio dele parar de tocar, e parou junto. Não quero o mesmo epitáfio.

O novo indicador de sucesso, esse que minha geração custou a soletrar, é mais simples e mais difícil: chegar inteiro. Inteiro de cabeça, inteiro de corpo. Ter o que fazer quando o bipe calar. Saber falar de outra coisa. Escolher a hora de parar — escolher, veja só que luxo, como se a liberdade fosse a mais cara das especialidades.

Escrevo essas crônicas, talvez, por isso. São o meu primeiro hobby tardio, a minha tímida revolução de jaleco pendurado: a prova de que existo para além do prontuário, que tenho dentro mais do que diagnósticos. A medicina curou multidões através de mim e do meu pai, antes de mim, e eu lhe sou grato como se é grato a um pai severo. Mas chega uma idade em que a gente entende, à mineira, sem alarde: ela não pode continuar adoecendo, lá no fundo, justamente quem mais a amou.

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Então, quando aquele paciente reclamar de novo que já não se fazem médicos como antigamente, vou lhe dar razão de coração. Não fazemos. Os de antigamente — e eu amei um deles, meu pai — morriam de pé, no plantão, com o telefone na mão. Os de agora estão aprendendo, devagar e com culpa, uma arte que nenhuma faculdade ensinou: a de, um sábado desses, ouvir o aparelho tocar e deixar tocar. Viver é preciso!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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