Carlos Starling
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SAÚDE EM EVIDÊNCIA

Minha namorada iraniana

Porque no fim, é disso que se trata. Acreditar que cada gesto de amor é um ato de resistência contra a barbárie

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Não me lembro mais o nome dela. Poderia ser Yasmin (Jasmim), Mahsa (como a lua), Roshan (Luz, brilhante). Não importa. Ela era linda e nossos olhares tinham apenas 20 anos. Aconteceu em Boppard, na Alemanha, à beira do Reno. Nossos destinos se cruzaram como barcos numa mesma correnteza, navegaram juntos por breves instantes, e depois seguiram, cada qual para seu mar distante.

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Em 1979, interrompi meu curso de medicina na UFMG para um estágio no Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo. Na época, não imaginava o quanto impactaria meu futuro. Uma bolsa de iniciação científica do CNPq, do Goethe Institut e passagens de cortesia da saudosa Varig onde minha irmã trabalhava viabilizaram essa experiência única. Cheguei a Boppard com minha mala de sonhos e meu dicionário de palavras que tropeçavam na língua.

Nos encontramos no Goethe Institut. Eu era colega dos primos dela, com quem jogava futebol todos os finais de tarde. Ela assistia e me olhava com olhos persas de jabuticaba. Vibrava com os gols do Oriente contra o Ocidente. Vê-la vibrando era compensador. Seus cabelos negros, envoltos num lenço colorido, dançavam ao vento, e seu riso tinha o som de todas as canções que eu ainda não conhecia.

Havia naqueles jogos algo maior que a disputa pela bola. Havia a inocência de um tempo em que as fronteiras eram apenas linhas nos mapas. Não havia muros entre corações. A amizade com os primos me rendeu um convite para um show do Rick Wakeman. Um árabe dirigindo uma BMW, o primo iraniano na frente, um português, ela e eu no banco de trás. Nossas pernas se tocavam nas curvas da autobahn. A expectativa pela "Viagem ao Centro da Terra" se transformava numa viagem no tempo. Cada curva era uma desculpa, cada freada, uma promessa.

Em Wiesbaden, o show foi cancelado. Rick Wakeman estava com febre. Foi melhor assim. Para hormônios de 20 anos, shows são desnecessários. Comemos alguma coisa, rimos e voltamos ouvindo as músicas do show que não aconteceu. Entre toques de pele, olhares e desejos, essa viagem não terminou até hoje. Ela permanece viva como permanecem vivas todas as coisas que não tiveram tempo de morrer.

Ao chegar em Boppard, fomos ao aniversário de um professor; nos esquivamos dos primos num canto e nos demos um selinho. Era quase um ato sexual explícito para o pudor de uma menina iraniana da época. “Se meus primos descobrirem, nos matam”, “ Matam nada”, rebati com a certeza de um latino-americano livre, leve e solto. “Matam sim! Ou te matam e me mandam de volta pra casa.”

A veemência dela foi convincente. Havia em seus olhos um medo que eu, rapaz brasileiro acostumado a outras liberdades, não compreendia inteiramente. Para mim, um beijo era apenas um beijo. Para ela, era transgressão, risco, a possibilidade de perder tudo. Mesmo assim, ela beijou. E nesse gesto pequeno e corajoso, havia toda a rebeldia silenciosa de quem ousa sonhar com a própria felicidade.

O curso terminava naquela semana. Nos encontramos mais algumas vezes. Os selinhos e arrepios continuaram e ficaram. Nunca mais nos vimos. Não trocamos endereços. Não prometemos cartas. Talvez soubéssemos, com aquela sabedoria triste dos muito jovens, que nossos caminhos não se cruzariam novamente. Ela voltaria para Teerã. Eu, para o Brasil, para me tornar infectologista e escrever crônicas. Vidas paralelas, destinadas a nunca mais se tocarem, exceto na lembrança.

Hoje, mais de 40 anos depois, vendo bombas caindo sobre o Irã, me pergunto: onde estará minha namorada iraniana? Ainda vive? Sofre? Teve filhos, netos? Penso nela e em todas as histórias de amor que a guerra interrompeu. Penso nos beijos não dados, nos filhos não nascidos, nos aniversários não comemorados. A guerra não mata apenas o presente; mata também o passado, apagando as memórias de quem já não está aqui para lembrar.

Hoje pergunto-me se não deveríamos ter arriscado mais. Se não deveríamos ter acreditado que o amor-mesmo que breve - é sempre mais forte que o medo. A guerra nos ensina o contrário. Que o medo vence, que há muros entre povos que nenhum beijo derruba. Mas eu me recuso a acreditar nisso. Sei que por instantes fomos apenas dois jovens que se gostavam, sem pátria, sem religião, sem história. E se isso foi possível uma vez, pode ser possível sempre. Em Teerã, em Tel Aviv, em Moscou. 

Essa é minha utopia de infectologista que envelhece escrevendo crônicas. Acreditar que o amor é mais contagioso que o ódio, que a memória resiste às bombas, que em algum lugar do Irã uma mulher de cerca de 60 anos às vezes se lembra de um rapaz brasileiro que buscava a bola na rede só para vê-la sorrir.

Yasmin, Mahsa, Roshan — seja qual for seu nome — espero que esteja bem. Que tenha sido feliz, que tenha amado, que seus filhos e netos conheçam a paz que lhes foi negada. E espero que se lembre de mim com a mesma ternura: como uma promessa de que o mundo poderia ter sido diferente, melhor, mais humano.

Porque no fim, é disso que se trata. Acreditar que cada gesto de amor é um ato de resistência contra a barbárie. Foi melhor assim, eu disse. Mas a verdade é que nada que envolve guerra, separação e medo pode ser melhor. O melhor teria sido um mundo onde pudéssemos ter continuado nos encontrando, nos beijando, jogando futebol até o sol se pôr sobre o Reno.

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Esse mundo foi interrompido pelo discípulo pedófilo de Epstein. Mas existiu Boppard, existiu 1979, existiu uma menina iraniana de olhos de jabuticaba que ousou beijar um rapaz brasileiro. E enquanto eu me lembrar disso, a guerra não terá vencido completamente. A memória é a última trincheira da esperança.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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