Carlos Starling
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SAÚDE EM EVIDÊNCIA

Guerras e epidemias

Aqui estamos, no olho desse furacão de insanidade coletiva. Guerra e peste, peste e guerra – a valsa continua e o salão está em chamas

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Há um certo masoquismo no modo como a humanidade namora a morte. Não lhe bastasse o cortejo das pestes, vai ela e convida também a guerra para o baile, numa intimidade tão antiga quanto as primeiras muralhas da Mesopotâmia. E aqui ficamos nós, espectadores desse espetáculo atroz, tentando entender a coreografia enquanto o teatro arde.

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A história revela que guerra e epidemia são irmãs gêmeas, nascidas do mesmo ventre irracional, corrupto e doentio. Tucídides já contava como a Peste de Atenas ceifou a cidade enquanto os espartanos a cercavam. Os soldados tombavam não só pelas lanças inimigas, mas pelo tifo que grassava entre corpos amontoados e água pútrida. Ironia das ironias: Péricles, o grande estrategista, não morreu em combate, mas vítima da praga que sua própria guerra ajudara a criar.

A Peste Negra do século 14 encontrou na Guerra dos 100 Anos o terreno mais fértil que poderia desejar. Exércitos em marcha são portadores ambulantes, levando ratos, pulgas e a morte de povoado em povoado. Um terço da Europa se evaporou. Napoleão perdeu mais soldados para o tifo na campanha da Rússia do que para os cossacos e o inverno implacável. A glória militar francesa afogou-se em fezes e febre.

Veio então a Primeira Guerra Mundial, aquela que seria "a guerra para acabar com todas as guerras". Mas o “gran finale” veio com a Gripe Espanhola de 1918, que matou mais gente do que os quatro anos de carnificina nas frentes de batalha - 50 milhões de mortos, talvez 100 milhões. Os soldados que sobreviveram às metralhadoras voltaram para casa carregando o vírus da Influenza (H1N1).

Mas nós, sábios do século 21, certamente aprendemos essas lições. Ah, se pudéssemos  acreditar nisso! Enquanto ainda contávamos nossos mortos da COVID-19, Putin resolveu reviver as glórias imperiais da velha Rússia. A invasão da Ucrânia trouxe não apenas morte e destruição, mas também o colapso de sistemas de saúde, a interrupção de campanhas de vacinação, o deslocamento de milhões de refugiados – cenário perfeito para tuberculose resistente, sarampo e poliomielite. 

E Trump, o showman que voltou ao palco com toda a pompa, decidiu que o Oriente Médio não tinha problemas suficientes. A guerra com o Irã, as ameaças, os jogos de poder – tudo isso enquanto a região ainda padece com cólera no Iêmen, leishmaniose na Síria, e sistemas de saúde arruinados por décadas de conflito. 

Na conta de quem ficará a morte das 160 crianças e 14 professoras em Minab, no sul do Irã? Nas veias delas não corria petróleo, mas sangue vermelho, o qual manchou suas mochilas cuidadosamente arrumadas pelos seus pais ao saírem de casa. Imagino o último beijo na testa e o vazio de seus quartos no dia seguinte. 

O verdadeiro horror, porém, está nos arsenais nucleares. Rússia e Estados Unidos possuem juntos cerca de 90% de 13 mil ogivas nucleares do planeta. Um conflito nuclear não apenas vaporizaria cidades – o inverno nuclear subsequente destruiria a agricultura global e causaria fome em massa.

E onde está o Brasil nessa dança da morte? O Brasil, que renunciou às armas nucleares, que prega o diálogo e a conciliação. Que nobre! Que absolutamente irrelevante quando os mísseis começarem a voar pelas janelas das escolas onde nossos filhos estão nesse momento! Terras raras são raras e cobiçadas pelos que têm arsenal atômico. O motivo já está pronto: PCC e CV declarados organizações terroristas por Trump, com total apoio da nossa direita “patriótica”.  Mais um golpe na linha do horizonte.

Nossa vulnerabilidade é quase patética. Somos desarmados num mundo armado até os dentes, pregando paz para quem só entende a linguagem da força e dos interesses econômicos. Nossa diplomacia, nossos discursos eloquentes na ONU – tudo isso será muito útil quando a radioatividade começar a viajar pelos ventos, quando as pandemias pós-apocalípticas baterem à nossa porta. Poderemos morrer com a consciência tranquila, como passageiros virtuosos num Titanic que afunda.

O futuro? Permita-me ser franco: num mundo onde líderes medem suas virilidades pelo tamanho de seus arsenais, onde o botão nuclear está nas mãos de egos inflados, interesses pessoais insanos e temperamentos voláteis, nosso futuro é, na melhor das hipóteses, incerto. Na pior, inexistente. Esse é o preço que pagamos por elegermos ditadores e os seguirmos cegamente.

A corrida armamentista nuclear é um suicídio coletivo em câmera lenta. Gastamos trilhões em armas capazes de destruir a civilização mil vezes, enquanto sistemas de saúde desmoronam e pandemias nos pegam despreparados. É como se estivéssemos num hospital em chamas, brigando sobre quem tem o fósforo maior, enquanto os pacientes morrem por falta de atenção.

E o Brasil? Continuaremos sendo o país cordial, o mediador, vulneráveis e desarmados, dependentes da racionalidade de líderes que demonstram cada vez menos. Nossa única arma real é a esperança de que a humanidade não seja tão tola quanto a história sugere. Talvez nossa tolice derradeira.

Aqui estamos, no olho desse furacão de insanidade coletiva. Guerra e peste, peste e guerra – a valsa continua, os músicos tocam, e o salão está em chamas. Que epitáfio escreveremos para nós mesmos? "Aqui jaz a humanidade que tinha bombas demais e sanidade mental de menos”.

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Enquanto isso, continuamos nosso trabalho: tratando feridas, combatendo infecções, documentando a loucura. Porque é isso que fazemos, nós que escolhemos curar num mundo obcecado em ferir. É patético? Talvez. Necessário? Sem dúvida. Suficiente? Pergunte-me quando as bombas pararem de cair. Se é que isso acontecerá um dia.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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