Carlos Starling
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SAÚDE em evidência

O morcego e a saúde única

Para quem não conhece o protagonista dessa história, o Nipah é um henipavírus descoberto em 1999 na Malásia,

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O ditado é infalível: cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. Basta falar que tem uma epidemia do outro lado do mundo e que o morcego é a base do problema para que o mundo trema nas bases. Quando o manobrista do estacionamento onde paro o meu carro vem me perguntar, com ar preocupado, sobre uma nova epidemia é sinal de que o trauma da COVID-19, ainda faz parte da memória coletiva.

Quando os deuses gregos inventaram Pandora e sua caixa de desgraças, certamente não imaginavam que, milênios depois, estaríamos abrindo caixas semelhantes com a mesma curiosidade autodestrutiva. Só que agora não são caixas: são florestas desmatadas, mercados de animais silvestres e termômetros planetários subindo como febre de dengue em janeiro.

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O Nipah vírus está de volta aos holofotes – ou melhor, às manchetes dos aeroportos asiáticos, onde termômetros infravermelhos apontam para testas suadas como revólveres epidemiológicos. Desde dezembro de 2025, a Índia confirmou dois casos em West Bengal, colocou 196 contatos em quarentena e, com aquele otimismo burocrático que conhecemos bem, anunciou que "conteve" o surto. Enquanto isso, na Tailândia, cinco profissionais de saúde lutam pela vida em estado crítico, 110 pessoas estão isoladas, e os aeroportos de Phuket e Bangkok viraram postos de triagem, dignos de um filme de ficção científica dos anos 1990.

Para quem não conhece o protagonista dessa história, o Nipah é um henipavírus descoberto em 1999 na Malásia, batizado em homenagem à aldeia onde fez sua estreia mortífera. Transmitido por morcegos frugívoros do gêneroPteropus, o vírus encontrou nos porcos um amplificador biológico perfeito. Resultado: 105 mortos na Malásia, um milhão de suínos sacrificados e uma lição que insistimos em não aprender.

Desde então, Bangladesh e Índia protagonizam surtos quase anuais, com taxas de letalidade que variam entre 40% e 75%, dependendo da cepa e da sorte. Encefalite aguda, síndrome respiratória grave, transmissão pessoa a pessoa – o Nipah tem o currículo completo de um vilão pandêmico. A OMS o classifica como doença prioritária para pesquisa, ao lado de Ebola e outros candidatos ao apocalipse biológico. Ainda não temos vacina comercial nem tratamento específico. Apenas cuidados de suporte e orações laicas.

Mas aqui entra a ironia poética: o Nipah não é um invasor alienígena imprevisível. É um mensageiro. Um arauto alado da era do Antropoceno, esse período geológico em que a humanidade decidiu redecorar o planeta como quem reforma uma casa sem arquiteto. Desmatamos 80% das florestas do Sudeste Asiático, empurramos morcegos para pomares periurbanos, criamos porcos em densidade industrial ao lado de comunidades humanas, e ainda nos surpreendemos quando os vírus pulam a cerca.

É o conceito de “One Health” gritando em nossos ouvidos com sotaque de morcego: a saúde humana, animal e ambiental são indissociáveis. Destrua uma floresta, ganhe um patógeno de brinde. Aqueça o planeta dois graus, expanda o território dos vetores.


O aquecimento global adiciona combustível a essa fogueira epidemiológica. Morcegos migram para novas áreas conforme seus habitats originais viram savanas. Frutas amadurecem fora de época, alterando padrões de alimentação e contato. Populações humanas vulneráveis, já estressadas por secas e enchentes climáticas, têm menos resiliência imunológica e estrutural. É um círculo vicioso digno de Dante. Nosso SUS, apesar de resiliente, tem seus limites, assim como nosso Exército frente às ameaças daqueles que sempre se posaram como nossos aliados.

Então, o Nipah vai virar a próxima pandemia? Provavelmente não. Sua transmissão pessoa a pessoa ainda é limitada, exigindo contato próximo com fluidos corporais. Ele ainda não tem “fitness” suficiente. Precisa de algum tempo na academia planetária para adquirir musculatura e competência para entender nosso sistema imunológico e tirar passaporte internacional. Mas cada surto é um treino, e nós, infectologistas e epidemiologistas, somos como Cassandras: vemos o futuro, alertamos, e ninguém escuta até que seja tarde demais.

A boa notícia? O manobrista do meu carro está sabendo das peripécias de um vírus de morcego do outro lado do mundo. Ainda dá tempo. Investir em vigilância epidemiológica, proteger florestas, regular o comércio de animais silvestres (inclusive no Mercado Central de BH), desenvolver plataformas vacinais universais – essas não são fantasias “ecochatas”, são políticas de segurança nacional.

A má notícia? Tudo isso exige que a humanidade faça algo que historicamente nos é muito difícil: aprender com os erros antes que eles se repitam em escala industrial.

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Neste exato momento, em algum lugar da Ásia, um morcego mastiga uma manga sob o luar. Ele não sabe de letalidade, reprodução viral ou One Health. Só sabe que está com fome e que as árvores da floresta onde nasceu viraram pasto. E que, na fazenda ali embaixo, tem um porco. E perto do porco, uma criança, filha de um trabalhador pobre e excluído. Pronto! O cenário está posto.

A caixa de Pandora está aberta. A diferença é que, desta vez, nós mesmos a construímos, tábua por tábua, ditador por ditador, desmatamento por desmatamento, grau Celsius por grau Celsius. E quando a esperança – aquela que mitologicamente ficou presa no fundo da caixa – finalmente escapar, tomara que venha como um raio, disfarçada de bom senso.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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