

A IA cria ou destrói empregos?
Sem educação de qualidade os novos empregos são inacessíveis e tendem a aumentar a desigualdade intra e interpaíses
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Até 2030, 92 milhões de empregos deixarão de existir devido à evolução das tecnologias, principalmente da Inteligência Artificial. Por outro lado, estima-se a criação de 170 milhões de novos empregos, sendo grande parte deles atribuídos à própria IA. Os dados, que constam no estudo “O Futuro do Trabalho 2025”, publicado pela Fundação Dom Cabral e o Fórum Econômico Mundial, fomentam o famoso debate relativo à capacidade da tecnologia de roubar empregos. Mas será isso verdade?
Como os países conseguirão aproveitar essas vagas é difícil dizer, e é possível que isso inclusive aumente a desigualdade entre ricos e pobres, tanto do ponto de vista geopolítico quanto no âmbito interno de cada país. A condição que pode contribuir para a ampliação da desigualdade não é a tecnologia em si, mas a deficiência dos sistemas públicos de educação. Você deve estar se perguntando, como assim?
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A explicação é relativamente simples. Essas vagas demandam habilidades relacionadas à ciência, tecnologia, matemática, engenharia e design. Como Yuval Harari explica em seu livro Sapiens, o cérebro humano não é naturalmente adaptado para lidar com números. Essa é uma reprogramação cerebral que precisa ser construída, é uma habilidade que precisa ser desenvolvida. Se o sistema de educação privado (ao qual apenas pessoas mais abastadas têm acesso) for mais efetivo para fazer essa reprogramação cerebral que os sistemas públicos (únicos acessíveis a pessoas de baixa renda), aqueles que têm acesso ao sistema privado obterão vantagem competitiva sobre os do sistema público e como consequência acessarão as novas vagas de trabalho enquanto os menos privilegiados estarão excluídos desse novo mercado.
Portanto, a resposta para se as novas tecnologias aumentarão ou diminuirão o número de vagas, não está na evolução tecnológica em si, mas na capacidade dos sistemas públicos de responderem às novas demandas de aprendizagem nos diferentes países do mundo. Não se trata, portanto, de um novo problema, mas sim de um antigo ainda sem solução em grande parte do mundo. Um problema que hoje já aumenta a desigualdade e que tende a continuar aumentando se não for resolvido.
É claro que não se deseja aqui diminuir a importância da infraestrutura tecnológica, dos mecanismos de governança, das regulamentações governamentais, entre outros muitos elementos necessários à acessibilidade e performance digital. Mas é preciso reconhecer que a educação está na base de todas essas demandas, pois sem ela, faltarão engenheiros para a construção da infraestrutura, advogados para construção de normativos e administradores para estabelecimento de bons mecanismos de governança.
Vale lembrar que o Google for Startups indica que esse ano o déficit de profissionais na área de tecnologia no Brasil alcançará a incrível marca de 530 mil pessoas. São 530 mil vagas que poderiam estar preenchidas e não estão, que poderiam gerar desenvolvimento e não geram.
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O verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas em garantir que ela seja um motor de inclusão. Isso exige a reformulação dos sistemas educacionais, especialmente os públicos, para preparar as pessoas para os empregos do futuro. Assim, poderemos transformar o potencial das novas tecnologias em oportunidades reais, equilibrando o acesso às vagas e reduzindo as desigualdades. O futuro do trabalho será definido não só pelo avanço tecnológico, mas por nossa capacidade de torná-lo acessível a todos.