"Em política, só há uma vergonha, perder"
A obra "Coronelismo, enxada e voto" é considerada marco na ciência política moderna e historiografia no Brasil: revolucionou a forma como o país pensava as suas estruturas institucionais e o poder local
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Quando descreveu a dinâmica da estrutura de poder na República Velha, o jurista e cientista político Victor Nunes Leal demonstrou como os “coronéis”– lideranças municipais – ofereciam votos de cabresto aos candidatos dos governos estadual e nacional em troca de verbas públicas, favores administrativos e proteção policial. As oligarquias das localidades precisavam se alinhar ao vencedor para evitar o isolamento político, a asfixia financeira, a ruína política.
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“Há ainda os favores pessoais de toda ordem, desde arranjar emprego público até os mínimos obséquios. É neste capítulo que se manifesta o paternalismo, com a sua recíproca: negar pão e água ao adversário”, escreveu Nunes Leal, lembrando que, para favorecer os amigos, o chefe local resvala muitas vezes “para a zona confusa que medeia entre o legal e o ilícito”. E prossegue: “A definitiva reabilitação virá com a vitória eleitoral, porque, em política, no seu critério, só há uma vergonha: perder”. Publicada em 1948, a obra “Coronelismo, enxada e voto” é considerada marco na ciência política moderna e historiografia no Brasil: revolucionou a forma como o país pensava as suas estruturas institucionais e o poder local.
Diz a historiografia que o país, após o inverno autoritário militar e a reabertura democrática, desde 1985 adentrou a “Nova República” – ou Sexta República. Mas, apesar das décadas que se atropelam, segue a cultura política, que nas palavras das velhas raposas, é também traduzida pelo chavão: “Político sem mandato, nem vendo bate nas costas”. A derrota eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seguida de sua fuga aos Estados Unidos, abriu no Brasil espaço para que a direita tradicional se divorcie da direita bolsonarista.
Depois de declarar que poderá disputar a Presidência da República em 2030, irritando Flávio Bolsonaro e o núcleo duro do bolsonarismo, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reestrutura a gestão do novo mandato com dois propósitos centrais: preparar o seu sucessor ao Palácio dos Bandeirantes em articulação com a construção do próprio projeto presidencial. Tarcísio de Freitas era o nome com grande potencial para unificar o campo da direita já em 2026, mas o projeto foi abortado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que não abriu mão de manter o controle do campo em sua família.
Enquanto Tarcísio recalcula a rota, Flávio Bolsonaro vê a sua própria viabilidade ruir ao ser pego com a boca na botija, em maio deste ano, com a divulgação de áudios pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark horse”, sobre a biografia do pai. Perdia competitividade na disputa presidencial. Mas, em 1º de setembro, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de relatório da Polícia Federal, expondo as mensagens encontradas no celular de Vorcaro que faziam menção ao ministro Alexandre de Moraes.
O escândalo, que já rondava Moraes e outros ministros do STF, foi transportado do colo de Flávio para a Alta Corte. Com o discurso do impeachment de ministros ao centro da retórica, as campanhas do PL à Câmara e ao Senado cresceram e, com elas, também Flávio Bolsonaro. Para ele convergiram as apostas. União, PP, Republicanos, três dos candidatos que se apresentaram como terceira via, todos aderiram a Flávio Bolsonaro no segundo turno, que já montava o governo e indicava nomes para as futuras vagas do Supremo. Vieram o rebote, a fuga, as críticas.
Já dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro declarou em entrevista ao “The New York Times”, publicada nessa quinta-feira, 5, que organizou a fuga sozinho e que levará para o túmulo como chegou àquele país. Flávio e o seu amigo, advogado Willer Tomaz, são investigados por lavagem de dinheiro, em processo relatado por Alexandre de Moraes. Embora o PL e todas as legendas – exceção ao Novo – tenham reconhecido a vitória de Lula no pleito, para não perder o hábito de família, Flávio repetiu, sem apresentar provas, que o resultado teria sido “matematicamente impossível”.
No Hemisfério Norte, o anfitrião de Flávio, Donald Trump, que ainda não reconheceu o resultado da eleição presidencial no Brasil, vive os seus próprios problemas: nestas eleições midterms, um tsunami azul entregou ao Partido Democrata o controle da Câmara e do Senado. Trump é o mais novo lame duck (pato manco): sem maioria do Congresso a sua agenda legislativa nos dois últimos anos de mandato ficará severamente limitada.
Além disso, Trump estará sujeito à abertura de investigações e mais desgastes políticos, que se somam à impopularidade atrelada ao alto custo de vida decorrente da guerra do fim do mundo contra o Irã, em apoio à agenda de Israel. Tamanha é a derrota republicana, celebrada pelas redes sociais e ruas das grandes cidades americanas, que o presidente dos Estados Unidos precisou lembrar ao seu país pelo X: “Atenção: Trump ainda é seu presidente”.
Favorecimento
Um grupo suprapartidário de deputados federais mineiros está se documentando para propor à Justiça Eleitoral uma Ação de Investigação Eleitoral (AIJE) contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), acusado de ter tido a candidatura favorecida pela Meta. A documentação reunida pelo grupo pretende demonstrar os vieses do algoritmo em favor do maior alcance e distribuição do conteúdo do parlamentar, campeão de votos no país.
Nova federação
Para garantir sobrevivência financeira, o Avante e a federação PRD-Solidariedade acertaram nova federação partidária. Haverá outras. O PDT de Minas, que não elegeu nenhum parlamentar porque não alcançou o quociente eleitoral, mantém conversas para se federar ao PSB e PSDB. Há apoio em geral no PDT à ideia, mas a grande resistência segue do presidente nacional Carlos Lupi.
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Escala 6 x 1
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino marcou para a próxima terça-feira, 10, uma audiência de conciliação para discutir o prazo de implementação das novas regras que extinguem a escala de trabalho 6x1 no Brasil. A reunião foi convocada no âmbito de uma ação apresentada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que pede o adiamento do cronograma aprovado pelo Congresso Nacional para a redução da jornada de trabalho.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.