Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

O Brasil dos intolerantes e as lições da história esquecida

Menos de um século depois dos horrores do fascismo e nazismo, que se iniciaram em ataques cotidianos a grupos étnicos e políticos, o Brasil vive o seu próprio tempo de boicotes e violências

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Membros das milícias paramilitares SA e SS nazistas foram posicionados ostensivamente na porta de lojas, grandes armazéns, escritórios de advocacia, consultórios médicos e escritórios de profissionais liberais judeus. As vitrines e fachadas dos estabelecimentos foram pichadas com a Estrela de Davi e slogans: “Alemães! Defendam-se! Não comprem dos judeus!”. Quem tentava entrar nesses estabelecimentos era fotografado e marcado publicamente como “traidor da pátria”. Naquele 1º de abril de 1933, dois meses depois da nomeação de Adolf Hitler para o cargo de chanceler — chefe de governo na Alemanha — o regime nazista organizava a sua primeira ação antissemita coordenada em escala nacional. O Boicote Nacional aos Negócios Judeus teve caráter híbrido: por um lado, foi operacionalizado pelas milícias; e, por outro, convocado e patrocinado pelo próprio Partido Nazista (NSDAP) e o governo de Adolf Hitler.

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O balão de ensaio, que em princípio pretendia testar e estimular a cultura da segregação contra um grupo etnorreligioso, logo foi convertido em política de Estado. Em 15 de setembro de 1935, durante o comício anual do Partido Nazista realizado em Nuremberg, foram promulgadas leis que instituíram o marco jurídico para a perseguição e segregação dos judeus na Alemanha. A “Lei da Cidadania do Reich” determinou que residentes no país fossem divididos em duas classes jurídicas: os “cidadãos do Reich” e os “sujeitos do Estado”. Os primeiros, pessoas de “sangue alemão ou aparentado”, gozavam de cidadania plena e direitos políticos, como o voto e a possibilidade de ocupar cargos públicos. Os judeus foram rebaixados à condição de “sujeitos do Estado”: perderam direitos políticos e proteção legal. Ao mesmo tempo, a “Lei para a Proteção do Sangue e da Honra Alemã” proibiu casamentos e relações sexuais extraconjugais entre judeus e cidadãos de “sangue alemão”, classificando a violação como “crime contra a raça”.

O nazismo ascendeu pelo voto democrático. Na sequência, Hitler consolidou, passo a passo, o Estado totalitário do Terceiro Reich. Para além de monopolizar o poder e reprimir a oposição, assim se revela o totalitarismo: invade e aniquila a vida privada, de tal forma que não há qualquer esfera pessoal, familiar ou íntima que esteja isenta do controle. Como a história se encerra, todos sabem. O regime que carregou o slogan “Um Povo, um Império, um Líder”, e que trazia à frente dos campos de concentração a placa “O trabalho liberta”, empilhou entre 2,7 milhões e 3,5 milhões de corpos em Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Belzec, Chelmno, Sobibor e Majdanek. Além de judeus, a escalada da brutalidade aniquilou prisioneiros de guerra soviéticos, civis poloneses e soviéticos não judeus, ciganos, pessoas com deficiência física ou mental, opositores políticos, homossexuais e Testemunhas de Jeová... Da longa lista, estima-se mais de seis milhões de vidas exterminadas.

Das revelações dos horrores do nazismo – e também do fascismo italiano – e devastação da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional promoveu uma reestruturação profunda do direito, da diplomacia e das instituições globais sob o lema universal: "Nunca Mais" (Never Again). Para além da Carta das Nações Unidas, que estabeleceu a diplomacia multilateral, a mediação de conflitos e a intervenção do Conselho de Segurança como mecanismos para evitar novas guerras de agressão e conquistas territoriais, foi consolidada a internacionalização dos Direitos Humanos. Os crimes nazistas demonstraram que o poder estatal absoluto sobre o indivíduo precisava de limites universais. Nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) estabeleceu pela primeira vez na história que todos os seres humanos possuem direitos inalienáveis — como a vida, a liberdade, a igualdade jurídica e a liberdade de consciência —, independentemente de sua nacionalidade, etnia ou religião.

Menos de um século depois dos horrores do fascismo e nazismo, que se iniciaram em ataques cotidianos a grupos étnicos e políticos, o Brasil vive o seu próprio tempo de boicotes e violências. Fechadas as urnas do pleito presidencial, a eleição segue para o terceiro turno. É tempo de ódio. De identificar os “inimigos” que reelegeram o presidente Lula (PT). É hora da revanche. Em Fortaleza, a influenciadora Valéria Diniz mandou o menino Matheus, que vendia balas para ajudar a avó, fazer o “L”, recusando-se a comprar e humilhando-o depois de lhe perguntar em quem a mãe dele havia votado. No Rio de Janeiro, o pastor Sergio Dusilek, que apoiou Lula, foi atacado por líderes evangélicos e vai renunciar à presidência da Convenção Batista Carioca. Em Conceição do Mato Dentro, região Central de Minas, o prefeito Otacílio Costa (PSB) exonerou um secretário municipal acusado de incentivar boicotes a comerciantes que apoiaram a reeleição do presidente.

Os casos de agressões contra cidadãos que apoiaram o PT se espalham pelo país. O prefeito de Chapadão do Sul (MS), Walter Schlatter, atacou nordestinos compartilhando em grupo de mensagens de prefeitos de seu estado o mapa do Nordeste associado à figura de um burro. O ex-deputado federal Fábio Trad (PT), que concorreu ao governo do Mato Grosso do Sul, pediu socorro pelas redes, ao elencar alvos sob risco de ataques de fanáticos. “O primeiro alvo são os indígenas.

No município de Tacuru, servidores da prefeitura falaram em envenenar a água das aldeias e há mortes de indígenas sob investigação”, afirmou, acrescentando que, além do assédio eleitoral a trabalhadores, eleitores de Lula foram agredidos com madeira e garrafa no centro de Campo Grande. Do Paraná, o deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR) denunciou a violência pós-eleitoral de empregadores contra empregados, de clientes contra estabelecimentos e em instituições de ensino.

Em todo o Brasil, o Ministério Público do Trabalho recebeu 3.529 denúncias de assédio eleitoral neste ano de 2026, que, em padrão diferente daquele verificado em 2022, se intensificaram após o pleito em segundo turno: nos 3 dias seguintes foram 1.353 relatos de assédio eleitoral – ou seja, 43% do total de casos.

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É no drama cotidiano desses boicotes e agressões, incentivados nas redes sociais por políticos radicais, influenciadores, empresários e inclusive entre familiares, que o país vê esgarçar o seu tecido social: a derrota política deixa de ser um fato da democracia para se tornar o pretexto bárbaro de quem enxerga no concidadão um inimigo a ser destruído. A história da ascensão e queda do nazismo é conhecida por todos; a tragédia da nossa época é que parecemos ter esquecido cada uma de suas lições.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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