Parlamentares sem apetite para disputar governos
Deputados não querem deixar os seus assentos legislativos para se lançar em disputas aos governos de estado
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Na sucessão estadual de 2002, o então presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB), decidiu concorrer ao governo de Minas, depois de obter do governador Itamar Franco o compromisso de apoiá-lo. Impedido de disputar a reeleição pelo então vice-governador Newton Cardoso, que detinha o controle do PMDB à época, Itamar – que também fora boicotado pela Executiva Nacional peemedebista em sua pretensão de se candidatar à Presidência da República –, se vingou: em Minas foi de Aécio e para presidente apoiou Lula contra o candidato do PSDB, José Serra, coligado ao PMDB de Rita Camata.
Naquele tempo, deputados estaduais e federais construíam as respectivas carreiras não apenas se lançando às eleições municipais, para as quais, em caso de derrota, retornavam aos respectivos mandatos. Assumiam riscos calculados ao se lançar a voos mais altos. O presidencialismo de coalizão vivia o seu auge, com o Planalto cultivando a sua base neste sistema partidário ainda hoje ultrafragmentado pelo controle da comporta de emendas parlamentares, programas e investimentos nas bases eleitorais. No primeiro mandato do governo Lula, oposição se limitava praticamente ao PSDB e alguns poucos do União (antigo DEM). O Centrão seguia embalando a máxima: “Tem governo, estou nele.”
Quase um quarto de século depois, o presidencialismo de coalizão é uma engrenagem falida não só pela autonomia que alcançam parlamentares com as emendas impositivas. Mas, e sobretudo, no contexto em que as mídias digitais centralizam os fluxos de comunicação e ascenderam ao parlamento novos perfis de deputados: falam diretamente para nichos, explorando frustrações, indignações e o discurso antissistêmico. Sem nenhum tipo de mediação, para os seus mandatos mais vale manter as bolhas inflamadas do que participar de governos e, por meio deles, buscar transformações.
Por tudo isso, deputados não querem deixar os seus assentos legislativos para se lançar em disputas aos governos de estado. Além do risco de perderem a eleição e ficarem sem mandato, perdem a autonomia conquistada pelo generoso volume de quase R$ 50 bilhões em emendas impositivas, do orçamento de R$ 61 bilhões previsto para emendas parlamentares em 2026. Assumir risco só se for para o Senado Federal. Lá, além de um mandato de oito anos, as emendas individuais mais do que dobram em relação à Câmara dos Deputados. Se é para correr risco, que seja ao Senado.
Não à toa, em todos os estados, sobretudo no nicho bolsonarista, em que o voto mais orgânico e coeso tende a ampliar as chances de vitória numa disputa majoritária de turno único, a briga em 2026 é pesada pela indicação a uma das duas vagas do partido. Santa Catarina tornou-se o paradigma do embate, que inclusive divide o próprio clã Bolsonaro: a ex-primeira dama apoia a deputada federal Carolina de Toni (PL-SC), preterida no embate interno com o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do partido, que sustentam as candidaturas de Carlos Bolsonaro e do senador Esperidião Amim, candidato à reeleição. Em Minas, o confronto pelas duas indicações do PL ao Senado se iniciou com sete nomes, hoje se afunila ao deputado federal Domingos Sávio e ao deputado estadual Cristiano Caporezzo.
Parlamentares se sentem unidades orçamentárias. Assentados em emendas parlamentares, sabem que é grande a probabilidade de sucesso de suas campanhas à reeleição. Diferentemente do passado, em que se lançavam às sucessões estaduais sonhando em conquistar governos, preferem intercalar a carreira entre parlamentos: de assembleias à Câmara dos Deputados ou de assembleias e Câmara dos Deputados ao Senado. Adicionalmente à graça da caneta à mão, o bolsonarismo se dirige ao seu eleitorado de nicho, vendendo a promessa de que será pelo controle das casas legislativas que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) voltará a exercer o poder. Ganhe quem ganhar as eleições presidenciais, que tenha em mente: se tiver maioria hostil e antissistêmica no Congresso, será uma vitória de pirro.
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Guerra aberta
Sete deputados estaduais estão em campo em busca de 16 assinaturas para concorrer à segunda vaga aberta pela Assembleia Legislativa para o Tribunal de Contas do Estado (TCE). A deputada estadual Ione Pinheiro (União) é a única mulher que concorre em um legislativo que jamais elegeu uma parlamentar para o cargo. São candidatos, com apoio da classe empresarial, o deputado Thiago Cota (PDT); o líder da oposição, Ulysses Gomes (PT); Tito Torres (PSD), filho do ex-conselheiro Mauri Torres; o deputado Sargento Rodrigues (PL), Wilson Batista (PSD) e Arnaldo Silva (União).
Corrida
Como cada deputado só pode assinar a indicação de duas candidaturas ao TCE, com sete parlamentares disputando, a corrida é tensa na partida. Isso significa dizer que, juntos, os sete deputados precisarão de 112 assinaturas, de pelo menos 56 deputados. Em época de campanha e plenário vazio, a tarefa é desafiadora.
Bate chapa
A primeira vaga aberta no TCE de prerrogativa do Legislativo estadual foi preenchida por Alencar da Silveira. Diferentemente daquela eleição, em que Tadeu Leite, presidente da Assembleia, conseguiu reunir consenso e evitar disputa em plenário, desta vez, o acordo parece mais difícil. É ano eleitoral, em 4 de abril, a janela partidária se fecha e parlamentares terão a noção exata das chapas proporcionais de cada legenda. Com os prognósticos à mão, conseguirão mediar as suas chances de reeleição. Prefeririam estar no TCE, cargo vitalício, que cresce em poder pelas prerrogativas de controle dos 853 municípios e órgãos do governo do estado. Os salários estão atrelados aos ganhos da magistratura e do Ministério Público.
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Uma ou duas vagas?
Embora ainda estejam abertas duas vagas ao TCE, os deputados estaduais acreditam que seja uma apenas, apostando que a segunda poderá ser destinada ao presidente da Assembleia, Tadeu Leite, assim como ocorreu com o conselheiro Agostinho Patrus. Com sete candidatos, se a disputa for resolvida pela eleição em plenário, haverá segundo turno. Nenhum deles conseguirá reunir 39 votos. A imprevisibilidade será a regra do jogo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
