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Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

O Brasil terá apoio de muitos países na COP 30

Vice-embaixador do Reino Unido, Tony Kay concedeu entrevista a esta coluna

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O contexto internacional em que o Brasil sediará a COP 30 é desafiador e complexo. Os Estados Unidos sob Donald Trump abandonaram pela segunda vez o Acordo de Paris, num momento em que o planeta enfrenta recordes de calor e eventos climáticos extremos: 2024 foi o mais quente da história, ultrapassando o limite de 1,5oC do Acordo de Paris. Ao mesmo tempo, a Europa encara a nova realidade.

 

 

O aliado norte-americano, até então o maior financiador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), corta investimentos não apenas no bloco, mas em todas as agências multilaterais. Europeus se veem forçados a ampliar gastos em defesa e começam a rever a sua participação em programas focados na comunidade global de desenvolvimento social, humano e para a transição climática.

Apesar de tudo isso, o Brasil terá apoio de muitos países na tentativa de convencer o público da COP-30 a manter a confiança nas negociações para trazer respostas à crise climática dentro de um cenário de emergência ambiental.

 

 

A avaliação é do vice-embaixador do Reino Unido, Tony Kay, em entrevista a esta coluna, quando esteve em Belo Horizonte para assinar com o governador Romeu Zema (Novo) o novo Memorando de Entendimento (MoU) para a sustentabilidade, descarbonização e desenvolvimento econômico sustentável.

"Eu diria que o desafio do Brasil em termos de entrega de resultados da ambiciosa e progressista COP 30 é muito difícil, porque há alguns países no mundo que têm uma visão diferente sobre a importância de aceleração para o Net Zero e energias renováveis", constata Tony Kay.

"O Reino Unido está comprometido a ajudar Brasil a entregar uma COP que mantenha o 1,5 grau vivo", afirma o diplomata, considerando que diversos países estão, assim como o Brasil, dando contribuições ambiciosas na preparação da COP 30, com esforços para reduzir as emissões – com as chamadas Nationally Determined Contributions (NDCs). "É um ambiente desafiador, mas temos confiança que o Brasil será bem-sucedido e terá nossa ajuda e de muitos países para alcançar esses resultados", afirmou.

 

 

Minas foi o primeiro estado da América Latina e do Caribe a aderir à campanha Race to Zero, em 2021. Que balanço faz dos resultados alcançados pelos memorandos de entendimento firmados entre o Reino Unido e Minas?
O relacionamento entre o governo britânico e o governo brasileiro, comandado pelo presidente Lula, é forte e próximo. Há um alinhamento entre as prioridades dos dois governos em termos de segurança, de crescimento, das questões climáticas, da natureza e de desenvolvimento sustentável. Com o Brasil na presidência da COP 30 em Belém este ano, o clima é uma das grandes prioridades que temos globalmente, nacionalmente e no Brasil. Então é natural trabalharmos com estados como Minas Gerais nas questões climáticas e no Race to Zero. O MoU de 2025 expande os compromissos anteriores e coloca em prática ações focadas em descarbonização, transição energética, agricultura sustentável, conservação ambiental, finanças verdes e mineração responsável. Entre os projetos que fizeram parte do MoU anterior relacionados ao UK PACT, com mais de R$ 7 milhões investidos pelo governo britânico no estado estão o projeto MRV Climático, (mensuração, monitoramento, relato e verificação), etapas da execução do planejamento climático; o Selo Verde, plataforma que oferece estimativas da produção agropecuária e da adequação ambiental das propriedades rurais registradas no Cadastro Ambiental Rural; e o Plano Estadual de Ação Climática (PLAC), desenvolvido para estabelecer diretrizes e ações estratégicas para enfrentar as mudanças climáticas no estado. O objetivo principal é alcançar a neutralidade de emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 e construir um território resiliente.

 

 

Como a eleição de Donald Trump impactará globalmente os objetivos do Acordo de Paris?
Eu não vou minimizar a decisão dos EUA. É uma decisão de grande impacto. As democracias governamentais tomam decisões nacionais e nós respeitamos isso. Agora é um momento de introspecção. Acho que precisa haver uma análise dessa arquitetura de organismos multilaterais, levando em conta as realidades do dia, as posições nacionais ao redor do mundo e as pressões de recursos sobre as agências especializadas da ONU, por exemplo. É preciso garantir o que a família da ONU está fazendo, o que a família internacional está fazendo para garantir que os mais pobres e os que têm mais dificuldade obtenham a ajuda de que precisam e a ajuda que merecem. Ao mesmo tempo, quando olhamos para os Estados Unidos, o que está acontecendo dentro do país – em nível dos estados e em nível de municípios –, há uma grande cooperação em curso envolvendo estados como a Califórnia. Acredito que essa cooperação continuará. Agora, a posição do governo Trump não é a nossa posição, de forma alguma. E não é a posição de um grande número de países ao redor do mundo. Então eu acredito muito na resiliência do sistema internacional, incluindo o processo das Nações Unidas, o United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC). E estou confiante que esta resiliência será mantida. Se não mantida, crescerá sob a presidência do Brasil na COP 30.

 

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A Europa vive momento de revisão de investimentos. Por um lado amplia gastos de defesa e, por outro, corta investimentos para questões climática e humanitárias. Qual é o impacto sobre essas políticas globais dessa decisão?
O governo britânico precisou tomar decisões muito difíceis em nossas ações de desenvolvimento no exterior dada a necessidade de garantir que nossos gastos com a segurança nacional sejam relevantes e suficientes para lidar com esse cenário difícil do momento para a segurança da Europa, considerando o que está acontecendo entre a Rússia e a Ucrânia. Mas nós ainda temos um programa de desenvolvimento muito ativo, incluindo em países como o Brasil, onde gastamos valores significativos em áreas como o Fundo Amazônico. Nós nos comprometemos com mais de meio bilhão de libras para o fundo da Amazônia. Então, isso demonstra que nós levamos a sério nosso tipo de desenvolvimento e responsabilidades humanitárias como parte da comunidade global.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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