x
Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

‘Escrevedor’ de livros e da própria história

Discreto, amável no trato e extremamente educado, Fuad Noman foi um prefeito que se balizou em valores humanitários e democráticos

Publicidade

Mais lidas

Aos 69 anos, encheu-se de coragem e arrancou da gaveta o velho sonho. Fora tomado pelo intenso desejo da escrita, perseguido pelo aconselhamento da professora do Jardim de Infância Delfim Moreira: “O homem precisa fazer três coisas para se realizar. Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Árvore já havia plantado; filhos, teve dois com a pedagoga Mônica Drummond, com quem se casou em 1972. Adorava os quatro netos.

 

 

Àquela altura, Fuad Noman examinava sua trajetória profissional: economista, funcionário de carreira do Banco Central, desempenhara em diferentes cargos políticos funções de viés técnico. Conhecia bem os bastidores do poder. Fora secretário-executivo adjunto da Casa Civil da Presidência da República durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB); secretário de estado da Fazenda (2003-2007), no primeiro mandato de Aécio Neves; secretário de Transportes e Obras Públicas (2007-2010) no governo Antonio Anastasia.

Acabara de assumir a secretaria municipal da Fazenda no governo de Alexandre Kalil. Mas faltava-lhe algo. Tornou-se “escrevedor”. “O Amargo e o Doce” (Editora Quixote/2017) foi o primeiro romance. “Cobiça”, (Editora Ramalhete/2020), veio dois anos depois e, na sequência, passada a “ressaca” das primeiras obras, “Marcas do Passado” (Editora Ramalhete/2022).

Assim como para a escrita, também o despertar para a política eleitoral foi tardio. De secretário municipal da Fazenda – e “baluarte” do Executivo Municipal, como afirmou certa vez Alexandre Kalil –, Fuad Noman aventurou-se numa disputa política eleitoral pela primeira vez aos 73 anos. Do PSDB, saltou para o PSD e compôs como vice a chapa à reeleição de Alexandre Kalil. Foi um “passeio” em primeiro turno.

 

 

Fuad Noman sabia ser grande a probabilidade de que em dois anos Alexandre Kalil se desincompatibilizasse para concorrer ao governo de Minas. Custou a decidir se concorreria à reeleição. Mas tomou gosto pela política eleitoral. Voltou a desafiar preconceitos de que envelhecer fosse limite aos sonhos. Adotava ali, nas entrelinhas de sua trajetória, ode a tantos poetas, que compreenderam vida e morte como uma só coisa. Nas palavras de Fernando Pessoa: “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”.

Aos 77 anos, já prefeito em exercício, Fuad Noman decidiu concorrer pela primeira vez na cabeça de chapa a um cargo eletivo. Desconhecido do grande eleitorado de Belo Horizonte, embora tivesse um governo bem avaliado, enfrentou dificuldades para consolidar uma aliança. Pairavam dúvidas sobre o potencial eleitoral da candidatura dele. Foi o momento em que Fuad Noman teve apoio político para costurar a ampla coligação. A ele se juntaram o presidente estadual do PSD, Cássio Soares, o então presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (PSD) – quem trouxe o União para a coligação – e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD).

 

 

Discreto, amável no trato e extremamente educado, Fuad Noman foi um prefeito que se balizou em valores humanitários e democráticos. Escutava críticas com deferência ao interlocutor, mas em debates de campanha, tinha dificuldades em rebatê-las. Avesso a confrontos verbais, precisou aprender durante a disputa eleitoral a lidar com ataques desleais – alguns chulos, que chegaram a usar a sua obra literária para atacá-lo em sua honra pessoal. Enfrentando uma quimioterapia durante a campanha, o prefeito não se rendeu. É como se estivesse dizendo ao pai: “Veja, sr. Fuad, como o seu filho que iniciou a vida como comim (garçom) luta com dignidade”. Reelegeu-se. Fuad Noman se foi. Belo Horizonte está em luto. Homem e político se entrelaçam, na dimensão do imponderável. Assim foi com Célio de Castro. Assim se passou com Tancredo Neves. Mas de onde estiver, Fuad Noman, pessoa de vida plena, talvez esteja recitando Khalil Gibran: “Pois o que é morrer senão ficar nu ao vento e fundir-se com o sol?”

Posse

A solenidade de posse na Câmara Municipal do prefeito em exercício Álvaro Damião (União) está marcada para a quinta-feira, 3 de abril. Damião foi investido no cargo de vice-prefeito, em 1º de janeiro. PBH e Câmara decretaram luto oficial.


Pop rua

A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa debaterá em audiência pública nesta quinta-feira as condições em que se encontra em Belo Horizonte a população em situação de rua. Por requerimento da presidente do colegiado, deputada Bella Gonçalves (Psol), será debatido o eventual descumprimento da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 976, que determina aos estados e municípios a execução imediata da Política Nacional para a População em Situação de Rua.

 


Abrigos

A Comissão de Direitos Humanos pretende discutir o fato de que entre as determinações está a que obriga estados e municípios a efetivarem medidas que garantam a segurança pessoal e dos bens das pessoas em situação de rua dentro dos abrigos institucionais existentes, inclusive com apoio para seus animais. Além disso, é proibido o recolhimento forçado de bens e pertences, a remoção e o transporte compulsório de pessoas em situação de rua, além do emprego de técnicas de arquitetura hostil contra essa população, que constituem violações de direitos humanos.


A hora do espanto

Reação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao se tornar réu: “Eu sou golpista?”.


Gravidez

Vai a sanção presidencial o projeto de lei 475/2024, de autoria da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), que proíbe qualquer forma de discriminação contra estudantes e pesquisadores por motivo de gestação, parto, nascimento de filho ou adoção. A proposição visa garantir igualdade de condições nos processos seletivos para bolsas de estudo e pesquisa em instituições de ensino superior e agências de fomento.

 

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

 

Cunho pessoal

A proposição de lei também propõe a ampliação do período de avaliação da produtividade científica para mulheres que se afastarem por licença-maternidade. Nesses casos, o prazo será estendido em dois anos, além do tempo originalmente estipulado pela instituição de fomento. O projeto de Erika Hilton também considera discriminatória a realização de perguntas de cunho pessoal sobre planejamento familiar durante entrevistas nos processos seletivos. Em caso de descumprimento da norma, a proposta prevê a instauração de procedimento administrativo contra os responsáveis pela prática discriminatória.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

bh fuad-noman jair-bolsonaro lula

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay