
A carnavalização da política: de reis e de bobos
Nunca se viu um presidente, na condição de visitante, ser tão ostensivamente humilhado
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Diretamente da Casa Branca, o mundo presenciou em tempo real, nesta sexta feira (28), cenas tragicômicas entre dois presidentes. Foi Donald Trump e as “suas” big techs que promoveram Volodymyr Zelensky, à época comediante, ao papel de rei na “remota” Ucrânia. Verdade que Trump não pode ser responsabilizado sozinho, pois esse drama se arrasta desde 2004, quando a chamada “Revolução Laranja” – um golpe de Estado – derrubou o presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovych, que havia sido eleito, abrindo uma sucessão de cenários – e mais um golpe em 2014 – que desaguaram numa guerra, migrações, sofrimento, e culminaram, nesta semana, nas cenas em Washington.
Nunca se viu um presidente, na condição de visitante, ser tão ostensivamente humilhado. “Desrespeitoso” e “ingrato” com os Estados Unidos foram as mensagens do show de humilhações impostas a Zelensky, apontado como ator geopolítico sem cartas na manga, sem soldados na guerra, a quem só resta aceitar a paz imposta e pagar o que deve aos americanos. Tudo ao vivo.
Na abertura daquela que seria uma coletiva de imprensa e acabou cancelada pela escalada da discussão, o ucraniano foi questionado pelo repórter trumpista Brian Glenn, da Real America’s Voice, streaming de extrema direita, por que não estava trajando um terno em sua visita à Casa Branca, a mais alta instância de poder dos Estados Unidos. Constrangimento. Dirigindo-se a Trump, Zelensky partiu para o ataque: “Você disse que chega de guerra. Eu acho que é muito importante dizer essas palavras para Vladimir Putin lá no começo, porque ele é um assassino e um terrorista”.
Tachando Zelensky de irresponsável, Trump acusou-o de estar “jogando com a Terceira Guerra Mundial” ao tentar opor Estados Unidos e o Ocidente à Rússia. Em passe ensaiado, o vice-presidente J.D. Vance cobrou do ucraniano: “Você já disse obrigado?”. De volta com a bola, Trump exigiu cessar-fogo: “Nós demos US$ 350 bilhões a vocês. Se vocês não tivessem nosso material militar, teriam perdido em duas semanas. Vocês têm de mostrar gratidão”.
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Foi o empurrão de alguém que se considerava no papel de rei de volta ao de bobo. “Eu empoderei você para ser um valentão, mas você não acha que pode ser um valentão sem os EUA (...) você ou fará um acordo ou nós estamos fora. E se nós estivermos fora, você vai perder”, avisou Trump a Zelensky.
Vladimir Putin só não comemora mais porque os europeus não se deram por vencidos. Frente ao acordo que ia sendo costurado em Riad entre Putin e Trump, sobre os despojos da Ucrânia, Emmanuel Macron voara dias antes a Washington. Avisara que a Europa não poderia ficar de fora da partilha: afinal, os europeus gastaram milhões de euros naquela empreitada.
Também o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, em visita a Trump, insistiu publicamente na necessidade de uma “paz justa” – uma forma de dizer que a divisão das terras raras e a dominação dos ativos da futura Ucrânia devem ser direitos de todos, não só de russos e americanos. Trump retrucou asperamente: “Seu país pode derrotar a Rússia sozinho?”
Após o abandono público de Zelensky pelo governo norte-americano, diversos líderes europeus externalizaram apoio ao ucraniano. A razão da diferença entre aqueles que dizem querer a continuidade da guerra (europeus) e aqueles que não a desejam (norte-americanos) pode estar nos balanços de suas indústrias armamentistas. Pela política não belicista com a Rússia, estão no vermelho nos EUA, mas passaram ao verde no caso das europeias.
Agora, tal diferença pode também ser explicada pela nova geopolítica trumpista de voltar as suas baterias para a China; e não no objetivo secundário, a Rússia. Qualquer que seja o motivo, duas lições saltam aos olhos para nossos candidatos tupiniquins ao papel de novo Zelensky.
A primeira é que a tecnopolítica é perversa e um dia o rei da periferia é chamado de volta ao circo da corte mundial. Bolsonaros e Zelenskys estão aí que não deixam ninguém mentir.
A outra é que a geopolítica mudou e que os destinos do mundo passam por novos centros de poder, que parecem adorar o carnaval ou, talvez, Jean de La Bruyère: “A vida é uma tragédia para aqueles que sentem e uma comédia para aqueles que pensam”. As cascas, com ou sem bananas, que o digam...
ReciclaBelô!
Diante da incerteza sobre a participação dos catadores de materiais recicláveis no carnaval de Belo Horizonte, o projeto ReciclaBelô! chegou a publicar uma nota afirmando que temia ficar de fora da folia, uma vez que prefeitura cogitava contratar uma empresa de São Paulo para o serviço. Políticos se mobilizaram. O projeto segue, com a manutenção das diárias de R$ 150 para os catadores. O superintendente da Limpeza Urbana, Gilberto Silva, anunciou que na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 o ReciclaBelô terá dotação própria. “Vitória do diálogo”, comemorou a vereadora Cida Falabella (Psol).
Queda de ICMS
Uma queda na arrecadação de ICMS do estado no segundo semestre de 2024 e, em consequência, a retração dos repasses da cota-parte do estado à capital mineira, levou a Prefeitura de Belo Horizonte a um contingenciamento de gastos e previsão de menor ampliação de serviços para 2025. A informação foi repassada pelo secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão, Bruno Passeli, à Comissão de Orçamento e Finanças Públicas da Câmara Municipal.
Ainda assim, as receitas municipais cresceram em 12% em relação a 2023, impulsionadas por aumentos nas arrecadações de Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) e Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU). Já as despesas aumentaram em 16%, tendo os custos com pessoal como principal fator de peso. O custo representou 41,5% da receita corrente líquida do município, um valor de R$ 6,9 bilhões. O cenário motivou uma política de redução de gastos em todos os serviços públicos, conforme afirmou o secretário, fixada no início de fevereiro deste ano.
Nanda Torres
A atriz Fernanda Torres, que disputa o Oscar de Melhor Atriz neste domingo, em Los Angeles, receberá o título de cidadã honorária de Minas Gerais por sua contribuição para difundir a cultura brasileira. A proposta protocolada na Mesa Diretora da Assembleia Legislativa foi assinada por mais de 30 parlamentares.
Ação
Em meio a um cenário de múltiplas frentes judiciais, inclusive no Reino Unido, 21 municípios, entre eles Ouro Preto e Mariana, ajuizaram nesta sexta-feira (28) uma nova ação civil pública contra as mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton, solicitando R$ 46 bilhões em indenizações pelos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana, em 2015. A ação está nas mãos da 4ª Vara Federal Cível de Belo Horizonte.
Essas cidades não aderiram ao acordo de repactuação homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro do ano passado. O prazo para o ingresso no novo arcabouço venceria em 6 de março, mas a Associação Mineira de Municípios (AMM) requereu a extensão do prazo por mais seis meses, para que os municípios possam analisar as cláusulas.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.