
Como as democracias e os próprios estados morrem
Analistas jurídicos e políticos entendem que a peça apresentada pela Procuradoria-Geral da República é sólida e consistente
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Em seu início de jornada, certa tresloucada banda do bolsonarismo apelava ao mote “ucranizar o Brasil”. Como esquecer os adeptos de Sara Winter, ex-parceira da recém-cassada deputada Carla Zambelli (PL-SP)? Do futuro, quando olharmos para a história, talvez o episódio mais marcante que abre a “nova era” seja a da guerra na Ucrânia. Gestada a partir do golpe de estado de 2004, consolidou-se no segundo golpe de 2014. Entra em seu capítulo final neste 18 de fevereiro de 2025.
Na mesma data, Jair Bolsonaro (PL) foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Bolsonaro e família se agarram aos mantras para desqualificar a denúncia. “Vazia”, “narrativa fantasiosa” são as palavras de ordem. Mas quem se interessa por fatos reais e tenta compreender a política não ficará imune a essa representação.
Ainda que na era da pós-verdade os controladores do fluxo de informação do planeta possam disseminar narrativas que falseiam os fatos. Algumas já são conhecidas: vitimização, perseguição pelo sistema. Têm tanta consistência quanto as comunidades que, embora usem o GPS, defendem ser a terra plana.
- Ser ou não louco, uma questão de perspectiva
- Quem serão os cúmplices?
- Melhor confundir do que esclarecer
Analistas jurídicos e políticos entendem que a peça apresentada pela Procuradoria-Geral da República é sólida e consistente. Ninguém duvida que será aceita pelo relator da Primeira Turma e que dificilmente deixará de receber votação unânime.
Entre as inúmeras demonstrações da extrema direita de sua extrema burrice política, a maior delas foi embarcar na aventura bolsonarista. Agora, aparentemente conta com lideranças que já se descolaram de Bolsonaro e têm fôlego eleitoral para o próximo pleito. A pergunta que se coloca é por que aqueles que não foram indiciados arriscariam os pescoços e a eleição de 2026 numa nova aventura em apoio a Bolsonaro?
O empresariado nacional, que anda colhendo os frutos de mais uma temporada de balanços positivos pelo retorno da institucionalidade democrática, iria embarcar nesta canoa de mares revoltos? As Forças Armadas, que exceto pelos denunciados na tentativa de golpe, acabaram de se livrar de uma fria, irão se comprometer com uma nova onda de turbulência? O centrão, que tem candidatos viáveis e é o maior beneficiário das últimas eleições, vai querer “ucranizar” o Brasil? Somente os diretamente envolvidos na trama dobram a aposta.
Os “novos donos do mundo” são os únicos atores que têm interesse no acirramento da disputa neste momento: investem na destruição criativa de estados periféricos como o Brasil. O X já está em campo promovendo atos de rua contra o governo Lula. Será que vai operar para o tresloucado núcleo bolsonarista ou para as novas e mais promissoras lideranças da extrema direita? O fantasma de um Pablo Marçal redesenhado deve assombrar os pesadelos bolsonaristas.
Quanto mais personificadas na cena política se colocarem as big techs, melhor para o público incauto. Musk já sobre forte rejeição interna nos EUA pelas ações frente ao recém-criado Doge (Departamento de Eficiência Governamental).
Espertamente, Trump deixa que ele abrace o desgaste dos cortes do orçamento até a hora de repetir o seu bordão mais conhecido. As ações das big techs, que no ano passado dispararam e mantiveram os índices das bolsas americanas no alto, têm andado de lado, assim como as criptomoedas, que diga-se de passagem acabam de fazer uma nova vítima, justo no país que embala os sonhos totalitários de nossa extrema direita, a Argentina.
Em cenário tão incerto, Bolsonaro só tem uma saída e ela é a mais perigosa de todas: as ruas. Na Alemanha, a extrema direita tinha uma eleição ganha. Graças às suas mobilizações de rua, os neonazistas despertaram o medo atávico do retorno a algo parecido ao original. As manifestações de esquerda deram a resposta, sacudindo o país de certo torpor. Sair para as ruas é como disparar uma guerra.
Todos sabem como começa, mas como termina... O capítulo Ucrânia, em sua versão original, teve o início de seu fim numa reunião em Riad, na Arábia Saudita. Nela reuniram-se as delegações de EUA e Rússia. Os ucranianos sequer foram convidados e obviamente não serão bem-vindos, exceto para pagar a longa conta de ambos os lados. Guerra custa dinheiro, e muito. E aqui? Será o começo do fim ou o fim do começo?
Moeda de troca
Líderes do Centrão encontram uma nova forma de pressionar Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), pela liberação das emendas nos moldes em que eram operadas (sem transparência). Ameaçam aprovar a lei da anistia, saída apregoada por Jair Bolsonaro para evitar a prisão, por sua condenação iminente.
Copa e cozinha
Os deputados federais Nikolas Ferreira (PL) e Domingos Sávio (PL) foram os únicos da bancada mineira bolsonarista convidados para participar da reunião com Jair Bolsonaro (PL) para discutir estratégias destinadas a minimizar o peso da denúncia por participação em tentativa de golpe de estado. Realizada no apartamento funcional do deputado federal Zucco (PL-RS), foram também chamados Carlos Jordy (PL-RJ), Caroline de Toni (PL-SC), Zé Trovão (PL-SC), Cabo Gilberto Silva (PL-PB), Coronel Meira (PL-PE), Gustavo Gayer (PL-GO), Sargento Fahur (PSD-PR) e Osmar Terra (MDB-RS). Os parlamentares mais ideológicos e useiros de colocar o rosto na defesa estridente a Bolsonaro ficaram de fora. Não gostaram.
Pedágios
A proposta de emenda constitucional que proíbe a cobrança de pedágio em rodovias que ligam as cidades da região metropolitana, de autoria da deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), já coletou 33 assinaturas – eram necessárias 26 para tramitar na Assembleia Legislativa. A proposta foi protocolada na quarta-feira, levando a assinatura de parlamentares de 14 partidos de todo o espectro ideológico – do PL ao Psol, além de integrantes da base de Romeu Zema, como o deputado estadual Noraldino Júnior (PSB), líder do bloco Avança Minas. As tarifas estão previstas no edital de concessão publicado na semana passada, em projeto intitulado Lote Rodoviário Vetor Norte (MG-010), que irá proceder à concessão para a inciativa privada de 123,4 quilômetros da MG-010 – inclusive o trecho BH-Confins.
Gregos e troianos
“Quando extrapola-se o absurdo, juntam-se gregos e troianos. É uma atitude de fato que aconteceu de cima para baixo, a consulta pública não escutou ninguém. Vamos solicitar ao presidente a abertura da comissão especial, uma vez que o edital de concessão já está em curso e pode haver um dano grande (à população)”, critica Bella Gonçalves. O movimento foi desencadeado por vereadores de Belo Horizonte, entre eles Wanderley Porto (PRD). Na Assembleia Legislativa, também a deputada Lohanna (PV) e o deputado Betão (PT) apresentaram projeto de lei que impede a instalação de praças de pedágio a menos de 100 quilômetros uma da outra.
Rateio
Dos seis vetos encaminhados pelo governo do estado à Assembleia Legislativa, três são de emendas à Lei Orçamentária Anual (LOA), sancionada como Lei 25.124/2024 e publicada no Diário Oficial em 31 de dezembro de 2024. Entre essas emendas, foi vetado o artigo do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), apresentado pela deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), que autorizava o rateio aos profissionais da educação do recurso remanescente, quando há sobras do valor transferido pela União para o Estado.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.