O limite dos laços de sangue
Quando minhas filhas eram crianças, elas foram abusadas sexualmente pelo meu irmão. Uma tinha nove anos e a outra, 13
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Algumas histórias precisam ser expostas para que não se repitam, para que abusadores de crianças não continuem sendo acobertados e acolhidos pela própria família em detrimento da segurança da infância. A família costuma ser retratada como um porto seguro, porém, muitas vezes, esse espaço onde o acolhimento e a proteção deveriam ser incondicionais, é o local onde as violências acontecem em silêncio.
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Uma amiga descobriu que seu irmão abusava de suas filhas. O relato dela é anônimo para preservar a identidade das meninas. É a história da minha amiga, mas pode ser a história de alguém do seu convívio também, porque casos assim acontecem o tempo todo, em todas as famílias, independentemente de classe social ou credo.
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“Quando minhas filhas eram crianças, elas foram abusadas sexualmente pelo meu irmão. Uma tinha nove anos e a outra, 13. Durante algum tempo, eu não soube de nada. Quando minha filha mais nova tinha 13 anos, ela finalmente me contou. Eu jamais imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer dentro da minha própria família. Meu irmão sempre havia se apresentado como um tio amoroso. Ele tinha uma vida bastante problemática, mas eu jamais imaginei que pudesse chegar àquele ponto. Quando minhas filhas me contaram, eu reuni a família e contei tudo. Esperava que, diante de uma coisa tão grave, eu fosse acolhida. Não foi o que aconteceu. O acolhido foi meu irmão.
Na época, eu não o denunciei imediatamente. Uma amiga, psicóloga forense, me explicou que poderia ser muito difícil conseguir uma condenação depois de tantos anos. Havia o risco de minha filha ser submetida a uma nova violência, tendo que reviver aquilo no sistema de Justiça e eventualmente ser tratada como mentirosa. Escolhi proteger minha filha.
Alguns anos depois, aconteceu uma operação da Polícia Civil contra crimes relacionados à exploração e ao abuso sexual infantil. Meu irmão foi um dos investigados. A polícia chegou à casa da minha mãe às seis da manhã, com um mandado de busca e apreensão do celular e do computador dele. Foi encontrado muito material relacionado à pornografia infantil. Também foi encontrada uma conversa dele com uma prostituta na qual ele planejava envolver uma criança.
Nesse momento, já não havia mais como negar a realidade. Durante a investigação, a delegada encontrou um boletim de ocorrência antigo. Meu irmão já havia sido denunciado por agressões e, em uma ocasião, vizinhos chamaram a polícia, porque ele estava batendo no meu pai. Quando o policial perguntou por que estava fazendo aquilo, ele respondeu que era porque meu pai o havia acusado de molestar as próprias sobrinhas. A partir daquele registro, a investigação chegou às minhas filhas. Elas foram chamadas para prestar depoimento. Minha mãe ficou desesperada e me pediu que eu incentivasse as meninas a mentir.
Minhas filhas falaram a verdade. Meu irmão acabou preso e ficou anos na prisão. Mesmo depois de toda a família saber o que ele havia feito, um dos meus irmãos deu a própria filha para que ele fosse padrinho de batismo. A justificativa era que minha mãe havia pedido. Enquanto ele estava preso, minha irmã levava o próprio filho para visitá-lo.
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Depois de alguns anos, ele passou pelo sistema da Apac, conseguiu estudar, arrumou um emprego e começou a reconstruir a própria vida. E minha família começou a pressionar para que eu o perdoasse. Eu sou católica. E essa questão do perdão sempre mexeu muito comigo. Mas não dá para confundir perdão com convivência. Decidi deixar de ir aos lugares onde ele está porque eu não vou magoar minhas filhas.
Ele passou a cumprir regime aberto. Hoje, ele trabalha, mora em outra cidade e vem para a casa da minha mãe praticamente todos os finais de semana. Eu parei de frequentar a casa dos meus pais nos fins de semana. Não fui convidada para a festa de 50 anos de casado dos meus pais; meu irmão foi.
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A preferência era pelo pedófilo que abusou da minha filha quando ela tinha nove anos. Me afastei da minha família e estou começando a entender que talvez exista uma diferença entre perdoar alguém e permitir que essa pessoa continue tendo acesso à nossa vida. Quando a própria família escolhe aquele que cometeu a violência, sair dessa família é abandono ou é sobrevivência?”
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.