
Adolescência, a série
O machismo está por toda parte, entranhado na sociedade, naturalizado em cada pequeno gesto
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A série “Adolescência”, da Netflix, tem sido a mais vista e a mais comentada de todos os tempos. Para falar sobre ela, convidei a psicanalista Juliana Tassara Berni, doutora em psicologia pela UFMG. Seu tema de pesquisa é a adolescência na cultura digital.
A série não é sobre adolescência, nem mesmo sobre parentalidade. É sobre nossa sociedade. Ela demonstra, de forma explícita, o desmoronamento das instituições sociais, todas elas: escola, família, estado, religião, casamento, ou seja, tudo aquilo que, até há algumas décadas, dava lastro simbólico, mas agora serve mais para palco das diversas expressões de violência do que para qualquer outra coisa.
O machismo se apresenta, ao mesmo tempo, de forma sutil e central. É o policial que delega os cuidados do filho à mãe, o marido que é ríspido com a esposa supondo que ela estaria contando sobre a prisão do filho por mensagens, o outro policial que desautoriza a psicóloga comparando-a com o psicólogo anterior, esse do sexo masculino, e mesmo entre mulheres, quando a própria mãe pergunta para a filha se o namorado está cuidando bem dela. O machismo está por toda parte, entranhado na sociedade, naturalizado em cada pequeno gesto.
O abandono dos adolescentes também é gritante. Jamie passa os dias no quarto, a mãe de Jade não sabe que horas ela deveria chegar em casa. Os professores gritam nas salas de aula. Ninguém escuta o sofrimento dos adolescentes. Esse cenário é chocante, mas se a série tem tocado tanto as pessoas é porque todos se reconhecem nela. Não é como outras séries sobre adolescentes nos quais meninas e meninos que cresceram em famílias disfuncionais se ferram em cenários glamourizados e enredos extravagantes.
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“Adolescência” não é sobre os outros, é sobre nós. A tomada única que dura o episódio inteiro nos insere, como voyeurs, assistindo a uma realidade que não é outra senão a nossa. Às vezes, parece mais um documentário sobre nós mesmos do que uma ficção. Mas por que nos reconhecemos ali? Ou melhor, como fomos parar aqui?
Se, por um lado, a internet e as redes sociais parecem diminuir as distâncias, pois podemos nos conectar com pessoas do mundo todo e ter acesso a todo tipo de informação, por outro isso não passa de uma ilusão de proximidade. Na verdade, o que as redes promovem é uma organização em bolhas virtuais, como a dos “incel”, que faz com que nos relacionemos apenas com quem compartilha das mesmas ideias que nós, afastando, assim, toda a diferença. A algoritmização das redes amplifica esse efeito, isolando-nos cada vez mais e nos aproximando somente de nossos iguais. Assim, não conseguimos mais lidar com a diferença no outro.
Por isso tudo, a cultura digital é uma época em que o outro não existe. Estamos, ao mesmo tempo, abandonados, uma vez que os referenciais simbólicos, como as instituições sociais, já não têm mais o mesmo lugar e são incapazes de lidar com o diferente. A violência se apresenta como resultado dessa equação, uma vez que não dispomos dos mesmos recursos simbólicos de outrora e não suportamos o diferente. Essa desumanização do outro faz com que o sujeito queira a extinção do outro. Todo grupo que representa uma diferença do padrão social do qual comungamos ou que representa uma minoria social deve desaparecer, como negros, gays e, no caso da série, mulheres, mesmo que, para isso, seja preciso matar.
Essa realidade está posta e, mesmo que não possamos perceber essas questões com clareza, elas nos atravessam. E a adolescência, que dá título à série, não faz mais do que revelar, cena após cena, essa realidade já posta e experimentada por nós. Por isso, a série se torna um retrato impiedoso de nós mesmos, do qual nos esquivamos, mas, agora, já não conseguimos mais escapar.
Se existe um momento de redenção, ele se dá a partir de uma fala da irmã, no último episódio, em resposta à proposta da mãe de se mudarem para outra cidade. Ela diz: “É o Jamie. Jamie é nosso, não é? Nós vamos ficar”. E essa é a única resposta possível. Nossos meninos e meninas são nossos. Nós vamos ficar e nos responsabilizarmos por eles.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.