
Mulheres jogadas na fogueira
É esse o preço que temos que pagar para que o governo tenha "governabilidade"?
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Enquanto estamos aqui em clima de “oba-oba”, em clima de carnaval e Oscar, mais uma mulher passou por uma fritura ministerial. Nísia Trindade Lima, que foi a primeira mulher a chefiar o Ministério da Saúde do Brasil, foi demitida no dia 25 de fevereiro após anunciar a primeira vacina 100% nacional, em dose única, contra a dengue. Essa foi a oitava troca ministerial do atual governo e a terceira mulher a ser jogada na fogueira. No lugar dela entra Alexandre Padilha, quem diria, um homem!
A troca da ministra não se deu por falta de competência para o cargo, a ex-ministra também foi a primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre 2017 e 2022, onde teve um papel muito importante, dando credibilidade às vacinas durante a pandemia da COVID-19, momento em que o negacionismo tomava conta do país. A troca se deu por pressão interna e do próprio presidente com o objetivo de dar ao Ministério da Saúde um viés mais "político".
Trocas ministeriais acontecem em qualquer governo, mas um governo que começou com 11 ministras, em dois anos já reduziu esse número para nove. Isso porque Silvio Almeida só caiu por causa das acusações de assédio e, no lugar dele, entrou Macaé Evaristo. Já foram oito trocas de ministério, ou seja, cinco homens contra três mulheres, mas os motivos dessas trocas são completamente diferentes quando comparamos mulheres e homens.
O general Gonçalves Dias estava nos atos de 8 de janeiro e apareceu em filmagens; obviamente, não podia seguir no ministério, saiu e, no lugar dele, entrou outro homem. Márcio França não foi demitido, ele mudou de ministério. No lugar dele, entrou outro homem. Flávio Dino foi indicado para o STF e, por isso, deixou de ser ministro, substituindo-o, mais um homem. Lembrando que Flávio Dino entrou no lugar de uma mulher. Rosa Weber se aposentou, mais uma mulher substituída por um homem. Além desses, o único homem que foi substituído por outro foi o Paulo Pimenta, porque a Comunicação precisava melhorar.
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Já entre as mulheres, Daniela Carneiro pediu desfiliação do partido, alegando assédio da direção nacional da sigla. Sob pressão da legenda, ela entregou o cargo. Foi substituída por um homem. Ana Moser foi “fritada” para dar lugar a André Fufuca, do Progressistas, ou seja, para incluir o Centrão na base aliada. Mulheres são usadas e descartadas com muita facilidade.
Pelo que andei lendo, em fevereiro de 2024, Arthur Lira e líderes partidários enviaram um requerimento formal à Nísia para cobrar a liberação de emendas parlamentares na Saúde. Em resposta, a pasta disse que seguia "critérios técnicos".
É esse o preço que temos que pagar para que o governo tenha "governabilidade"? Aquele destaque dado pelo atual governo ao número de mulheres em cargos de ministras era só para tentar fazer bonito, mas, como sempre, as mulheres são colocadas como penduricalhos. Diferentemente dos homens, somos avaliadas com lupa, nos mínimos detalhes, olhos atentos, aguardando qualquer deslize. Tudo é motivo para o descarte.
Basta uma crise política para que mulheres sejam jogadas na fogueira, ou, como dizia Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.