

Cinquenta anos e ainda estou aqui
Vivi para ver a história de Rubens Paiva e de uma família brasileira correr o mundo e entrar na disputa em três categorias do Oscar
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Vivi em 6 décadas, dois séculos e dois milênios. Sou da geração X, nasci em 1975, no mês de janeiro, dia 25, durante a ditadura militar do governo de Ernesto Geisel. Quatro anos antes do meu nascimento, Rubens Paiva foi assassinado, em janeiro, nas dependências de um quartel militar. Eu não tinha idade para saber dessas coisas, nem entender o que era a ditadura militar durante a minha infância.
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Frequentei a escola desde os meus 4 anos sem saber que, só em 1827 as meninas brasileiras foram liberadas para frequentar escolas, até então só os meninos tinham esse direito.
Em 1984 comecei a entender alguma coisa de política, era época do “Diretas Já”. No ano seguinte, na sala de aula, o professor nos disse: guardem bem esse dia, é uma data muito importante para o Brasil e para vocês. Naquele mês de março, o Brasil entrava em um novo regime democrático e a gente não tinha mais que ver “A semana do Presidente” – um mini programa, custeado pelo estado, que era basicamente uma forma ufanista de aumentar a popularidade do governo.
Só em 1988 a constituição brasileira passou a reconhecer as mulheres como iguais aos homens. Sim, até então éramos sujeitos de segunda classe, sem os mesmos direitos que os indivíduos do sexo masculino.
As mulheres brasileiras só haviam conquistado o direito ao voto em 1932 e eu, com meus 16 anos, e com certeza que sabia tudo da vida, tirei meu título de eleitor para votar pela primeira vez nas eleições de 1992. Naquele ano eu também participei do “Fora Collor”, o então presidente do Brasil, eleito como o “caçador de Marajás” e que, durante a campanha eleitoral, argumentava que seu adversário confiscaria o dinheiro do povo. Na prática, depois de eleito, quem fez isso foi ele. Collor caiu.
Apenas em fevereiro de 1996, Eunice Paiva obteve o atestado de óbito do marido Rubens Paiva. Naquele ano eu já estava na faculdade de arquitetura, as mulheres só conquistaram o direito ao acesso a faculdades em 1879. Em 1996, a “falta da virgindade” ainda era motivo para anular casamento, que só deixou de ser em 2002. A importunação sexual ainda não era considerada crime, e fui importunada incontáveis vezes, não podendo fazer nada além de ficar p….A gente não podia reclamar, aquilo era “só” coisa de homem.
Ainda na década de 1990 fiz meu primeiro cartão de crédito, direito conquistado pelas mulheres apenas em 1974, um ano antes do meu nascimento. Vi mulheres se divorciando, graças à lei do divórcio de 1977, vi mulheres jogando futebol graças à lei de 1979. E fiz muita coisa graças a conquistas do movimento feminista. Vi as redes sociais surgirem quando tudo ainda era mato. Usei orelhão, me comuniquei por carta, como faziam os Maias e os Astecas, e aprendi a lidar com a tecnologia.
Vi presidentes entrarem e saírem, vi pandemia de Covid, vi muita gente nascendo e morrendo. Vivi o suficiente para entender que tem muita coisa difícil mesmo, mas que a gente sobrevive, supera, muitas vezes com muita luta. Vivi para saber que tem coisa que demora para acontecer, mas que acontece quando a gente persiste. Vivi para ver a história de Rubens Paiva e de uma família brasileira correr o mundo e entrar na disputa em três categorias do Oscar. Passei por muita coisa, e ainda estou aqui!