
O mundo inteiro tem questionado o acesso a telas pelas crianças. A gente não solta nossos filhos numa avenida movimentada, mas larga solto na internet sem ter noção dos perigos que estão ali
Pedro Henrique Oliveira dos Santos, um garoto de 14 anos, vivia em um conjunto habitacional popular na Vila dos Remédios, próximo ao encontro dos rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo. Aluno bolsista do Colégio Bandeirantes, Pedro era estudioso e dedicado aprendiz de música, adorava tocar violoncelo. Pretendia fazer faculdade como o irmão, que teve bolsa do mesmo Instituto Social. Mas Pedro era preto, pobre e periférico e sofreu bullying até não suportar mais e tirar a própria vida no dia 12 de agosto deste ano.
A história da morte de Pedro foi amplamente divulgada, mas não foi a única história de bullying com um desfecho trágico que tivemos no Brasil em 2024. Outros jovens escolheram o mesmo fim por não suportar a pressão. Além dos casos que levaram à morte, tivemos, muito recentemente, casos de adolescentes sofrendo violência sexual dentro de suas escolas, sendo seus violadores outros adolescentes.
Como meninos de 11, 12 anos podem agir dessa forma? O que eles passaram ou viram para serem capazes de estuprar colegas? Foram abusados? Acessam pornografia na internet? Há muitas possibilidades, mas a certeza é de que faltou educação sexual, em casa e na escola. Só a educação sexual pode proteger nossos filhos de serem abusados ou de se tornarem abusadores.
Mas como agir quando ficamos sabendo que nossos filhos e filhas estão sofrendo bullying? Quem responde é Juliana Tassara Berni, psicóloga com experiência clínica em atendimento de crianças, adolescentes e adultos com ênfase em psicanálise.
“A primeira coisa que a gente deve fazer quando fica sabendo que nossos filhos e filhas estão sofrendo bullying é acolher, conversar e apoiar. Depois disso, entrar em contato com a escola. Marcar um horário pedindo urgência e ir pessoalmente conversar. Isso pode acontecer em qualquer escola, com quaisquer alunos.
Ambos, o que sofre e o que pratica, precisam de atenção, e a escola deve intervir. Se nada for feito e a situação permanecer, deve-se procurar o Ministério Público. Toda escola é obrigada a ter políticas e práticas anti-bullying e essas práticas têm que ser efetivas. O órgão que fiscaliza e investiga isso é o MP e ele tem sido rápido para atender esse tipo de denúncia. A denúncia pode ser feita pela Ouvidoria ou presencialmente. Você pode, inclusive, exigir falar diretamente com um promotor. Pode ir à Promotoria da Infância e Juventude direto.
A última coisa que a gente deve fazer é expor o caso nas redes sociais, o que inclui grupo de whatsapp de pais; isso só expõe ainda mais as partes e as conversas entre os pais sempre chegam nos adolescentes. Se a gente fica mesmo sem saber o que fazer, acaba indo para as redes sociais, e metendo os pés pelas mãos. Não tem que publicizar a situação, tem que tratar. E em último caso, denunciar no MP, que é o órgão competente”, explicou Juliana.
Crianças têm que ser protegidas pelos pais, pela família, pela escola, pela sociedade.
Estamos aprendendo a lidar com as mídias sociais, com o excesso de exposição.
Precisamos entender os riscos, especialmente a exposição de crianças que ainda não têm idade nem maturidade para lidar com as consequências dessa exposição.
Além da questão da imagem delas, você sabe o que seus filhos estão consumindo na internet? Que tipo de conteúdo eles veem? É adequado para a idade deles? E os desenhos e filmes, você observa a classificação indicativa para saber se são indicados para a faixa etária deles?
O mundo inteiro tem questionado o acesso a telas pelas crianças. A gente não solta nossos filhos numa avenida movimentada, mas larga solto na internet sem ter noção dos perigos que estão ali. E a gente fala e expõe nossos filhos nas mídias sociais, em grupos de whatsapp sem saber quem está vendo, e sem saber se alguém vai replicar o que falamos. Quando a gente se assusta, o caso já ficou público e a criança é a mais prejudicada.
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