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Ary Quintella
Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro de 2024, o livro de ensaios "Geografia do tempo"
CRISE MUNDIAL

Consternação europeia

Donald Trump e Vladimir Putin conversaram ao telefone por uma hora e meia. Rompeu-se assim o isolamento russo, imposto há três anos pelos próprios EUA

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Neste mês de fevereiro, passei 10 dias em Bruxelas. Apesar do frio, no plano pessoal esse não poderia ter sido um período melhor. Mas enquanto eu passeava com minha filha e meu genro, frequentava museus e livrarias e retornava a restaurantes prediletos, ao meu redor instalava-se a incerteza. Por obra e graça de Donald Trump, o mundo se transformava a galope e esfacelava-se a celebrada aliança transatlântica.

 

Meus dias em Bruxelas coincidiram com o anúncio do novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, de que não seria “realista” restabelecer as fronteiras da Ucrânia ao que eram antes de 2014. Falando em Bruxelas, Hegseth aproveitou para acrescentar que seu governo não considera conducente à paz a entrada da Ucrânia na OTAN. A frase que mais terá chocado os europeus, porém, é esta: “duras realidades estratégicas impedem aos Estados Unidos focalizar, como prioridade, a segurança da Europa”.

 

 

No mesmo dia, Donald Trump e Vladimir Putin conversaram ao telefone por uma hora e meia. Rompeu-se assim o isolamento russo, imposto há três anos pelos próprios Estados Unidos. Dois dias depois, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente americano, JD Vance, criticou, em seu discurso, um suposto déficit de liberdade de expressão na União Europeia, avaliando ser este o principal inimigo da Europa, não a Rússia ou a China.

 

 

Estava eu ainda em Bruxelas quando o experimentado chanceler russo, Serguei Lavrov – frequentemente considerado, em círculos diplomáticos globais, o mais competente do mundo – manteve na Arábia Saudita reunião com o novo secretário de Estado, Marco Rubio. Causou forte comoção, na Europa, o fato de americanos e russos se sentarem para discutir o fim da guerra na Ucrânia sem a presença daquele país ou da União Europeia.

 

Meus 10 dias na capital da Europa foram, assim, 10 dias que abalaram o mundo. Ou ao menos, abalaram os países da União Europeia, além, naturalmente, da Ucrânia. Algumas manchetes dos mais ilustres jornais europeus, naquele período, dão conta do nível de consternação: “Estupefação e angústia em Kiev e na Europa”; “Ucrânia: a Europa marginalizada por Trump e Putin”; “Washington e Moscou reatam, às custas de Kiev”.

 

 

Durante 80 anos, desde o final da Segunda Guerra, acostumaram-se os países europeus, não podendo mais dominar o mundo, como haviam feito por séculos, a uma confortável subordinação aos interesses americanos. Gerações de europeus doutrinadas a ver na Rússia, e na China, o inimigo natural defrontam-se agora, com “estupefação e angústia”, com algo muito parecido com um inimigo novo. A guinada de lealdades da administração Trump – anunciada em ritmo acelerado em declarações que colocam em jogo toda a retórica americana precedente sobre a inviolabilidade da soberania ucraniana, a solidez da OTAN e segurança da Europa de maneira geral – deixou os governos europeus sem fio condutor.

 

Logo após a invasão da Ucrânia, há três anos, o embaixador em Kuala Lumpur de um dos países mais influentes da União Europeia cometeu um ato falho em uma coletiva de imprensa. Àquela altura, os embaixadores europeus exerciam forte pressão, de forma pública, sobre o governo malásio para que este condenasse a Rússia. “Os malásios têm de entender”, declarou o embaixador europeu, “que essa não é uma guerra que afete apenas homens brancos. Afeta o mundo todo”. Racismo à parte, a declaração produziu a impressão de que, nessa guerra, estavam em jogo, justamente, apenas os interesses de países do hemisfério Norte.

 

 

Perguntei uma vez a Samuel Pinheiro Guimarães como era possível que o presidente Lula, em seu primeiro e segundo mandatos, se entendesse melhor, na avaliação de observadores políticos, com George W. Bush do que com Barack Obama. Sua resposta foi: “É mais fácil, para um país como o Brasil, lidar, no campo da política externa, com os republicanos. Os democratas vêm sempre rodeados de uma aura demagógica. Republicanos e democratas executam a mesma política externa, mas os republicanos têm o mérito da transparência”.

 

É isso o que estamos presenciando: Donald Trump coloca as cartas na mesa e a realidade dos novos interesses norte-americanos aparece agora sem qualquer verniz. O conflito na Ucrânia beneficiou sobretudo os Estados Unidos, ao prender Rússia e União Europeia em um conflito onde aparentemente não poderia haver vencedor. Agora, os ventos mudam e a posição dos EUA parece ser antes a de permitir à Rússia flexibilidade muito mais ampla em termos de área de influência. Será interessante observar se a administração Trump manterá, em relação aos interesses geoestratégicos da China, a mesma compreensão que parece manifestar em relação aos interesses russos sobre o entorno europeu de Moscou.

 

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A verdade é que não terá sido por falta de aviso. Já em seu primeiro mandato, em 2018, Donald Trump declarara ser a União Europeia “inimiga dos Estados Unidos”, por questões comerciais e por não contribuir o suficiente para sua própria defesa. Os países europeus podem ter sentido alívio com a vitória de Joe Biden, nas eleições de 2020. Deixaram porém de prever que Trump, ou outro ator com os mesmos instintos, poderia voltar ao poder. Sua consternação, assim, não deixa de ser consternante.

 

Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro de 2024, o livro de ensaios “Geografia do tempo”

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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