Da Pampulha para Kuala Lumpur
O grande arquiteto paisagista brasileiro visitou a Malásia duas vezes para trabalhar no projeto, que foi concluído após o seu falecimento, acontecido em 1994
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Quando vocês lerem esta coluna, caras leitoras e caros leitores, eu já não estarei fisicamente na Malásia. Depois de trabalhar cinco anos em Kuala Lumpur, minha profissão estará me levando a caminho de um novo continente, de novas tarefas, de novos deveres. Neste momento, escrevo ainda de casa em Kuala Lumpur, na reta final do meu tempo aqui, olhando pela janela para o Parque KLCC, projetado por Roberto Burle Marx.
Há poucos dias, uma jornalista malásia me perguntou o que eu considerava ser meu maior êxito como embaixador do Brasil no seu país. Respondi, de maneira previsível — mas nem por isso menos verdadeira —, que o principal resultado da minha gestão terá sido a participação do primeiro-ministro Anwar Ibrahim na Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, em novembro de 2024, e o convite malásio para que o presidente Lula participe da Cúpula da ASEAN em outubro deste ano. Lembrei que nunca antes um presidente brasileiro participou de Cúpulas da ASEAN.
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Minha interlocutora me olhou surpresa e disse: “Pensei que você diria: o livro”. Admiti que eu pensara em responder a ela mencionando o livro a que se referia, “Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC”, publicado pela Embaixada do Brasil nos últimos dias de 2023.
O parque, o mais central da capital, estende-se aos pés das famosas torres gêmeas, as Petronas, sede da estatal de petróleo da Malásia. A sigla KLCC significa “Kuala Lumpur City Centre”; e é o nome do bairro, do parque e do centro comercial situado entre as torres.
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Burle Marx era certamente, na década de 1990, e vinha sendo há muito tempo, o arquiteto paisagista mais famoso do mundo. É natural, portanto, que a Malásia, embora em termos geográficos tão distante do Brasil, tenha decidido escolhê-lo para projetar o parque KLCC, no coração do novo centro financeiro da capital. No final da vida, o grande arquiteto paisagista brasileiro visitou a Malásia duas vezes para trabalhar no projeto, que foi concluído após o seu falecimento, acontecido em 1994. É sua única obra na Ásia.
Desde minha chegada a Kuala Lumpur, eu desejava celebrar esse elo — vivo, nítido, tão eloquente — entre o Brasil e a Malásia. Depois de quatro anos de esforços, atingi meu objetivo, graças ao apoio do Instituto Guimarães Rosa, unidade do Itamaraty responsável pela diplomacia cultural e educacional. O IPHAN cedeu material sobre o Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro, que, ao encerrar o volume, ilustra a trajetória do paisagista. Os desenhos, fotos e documentos fornecidos pelo Instituto Burle Marx são muitos deles inéditos, já que sua catalogação ocorreu especificamente para poder ilustrar o livro. A Vale Malásia, empresa que é a maior investidora latino-americana no país, garantiu a impressão em capa dura.
O trabalho diplomático apresenta a característica, às vezes ingrata, de que muito do empenho, das tarefas exaustivas realizadas gera frutos apenas meses, anos depois que partimos para novas funções. A diplomacia é uma atividade de longo prazo. É uma aula constante de que o ser humano não é eterno. Eu já não estarei em Kuala Lumpur quando o presidente Lula vier à Malásia para a Cúpula da ASEAN. Vários acordos bilaterais a que me dediquei, nas áreas por exemplo de saúde, investimentos, semicondutores, só poderão ser finalizados após a minha partida.
Os resultados são frequentemente imateriais, mas nem por isso menos importantes. O cotidiano é árduo, e no entanto pode-se chegar ao final do dia sem nada de concreto a mostrar. Mas sementes foram plantadas, que o futuro verá florescer.
Já o livro sobre o parque de Burle Marx em Kuala Lumpur, bilíngue em português e inglês, será sempre um resultado tangível. Cumpriu o propósito de tornar o nome do Brasil mais presente no imaginário malásio. Foi distribuído a políticos, jornalistas e formadores de opinião.
Em janeiro de 2024, quando comecei a divulgar o volume, eu estava completando quatro anos como embaixador na Malásia. Podia, com confiança, acreditar conhecer bem o país. Quanto mais você trabalha, porém, mais seus horizontes se abrem, mais você aprende, e surge mais trabalho. O livro trouxe-me novas amizades, novas atividades profissionais, gerou novos interesses, mais acesso à mídia, fez-me conhecer mais gente relevante para o meu trabalho. Abriu portas.
Os mineiros têm sorte. Burle Marx projetou, na década de 1940, quando era ainda muito jovem, jardins na Pampulha. Os belo-horizontinos podem assim usufruir em casa do seu talento, podem passear por sua obra. Cinquenta anos depois, a trajetória do paisagista encerrou-se com o Parque KLCC. De família da Zona da Mata, há anos não vou à Pampulha. Da mesma forma, talvez venham a passar anos até eu poder sonhar em caminhar novamente pelo Parque KLCC.
Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro, o livro de ensaios “Geografia do tempo”
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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.