Anna Marina*
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ANNA MARINA

Gente comum, gente do bem neste Brasil racista

A família Doro enfrenta (e vence) o preconceito racial com talento, inteligência e muito trabalho

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Ontem, escrevi aqui sobre encontro casual, durante o café da manhã, em um hotel em Vila Velha, com um professor aposentado. Falamos sobre pessoas boas. Hoje, quero falar um pouco de uma família muito bacana.

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Viajei a Vitória para celebrar o aniversário de 70 anos de uma amiga da época da adolescência, Dâmaris Doro, que depois de casada acrescentou o Lorenzoni – apesar de ter se divorciado, manteve o sobrenome.

Conhece alguém da família Doro? Acho que todos têm QI acima do normal, são aquelas pessoas chamadas de superdotadas. O melhor é que a maioria não se acha acima da média. Se alguém ali tem orgulho disso, sabe despistar bem.

Vou falar da minha amiga Dâmaris, que conheci na minha igreja, a Batista Central de Belo Horizonte. Ela é filha de militar, coronel Doro, homem rígido, bravo, e de dona Gabriela, mulher que era só carinho, amor e alegria. Esta família de pessoas pretas enfrentou muita dificuldade por conta do preconceito e soube criar os filhos para lidar com este mundo. Os filhos Paulo, Dâmaris, Lucas, Cornélio, Márcia e Berenice falam no mínimo duas línguas, obrigação imposta pelo pai.

Dâmaris queria ser jornalista, o pai não deixou. Estudou bioquímica e se tornou grande pesquisadora. Fez mestrado na Alemanha, voltou e foi trabalhar na Embrapa, depois na Incape e em seguida na Aracruz.

Na Aracruz, Dâmaris criou uma forma de produzir papel gastando menos, com maior produtividade e desmatando menos. Foi para a Suíça fazer doutorado e teve como orientador ninguém menos que Gerd Binnig, ganhador do Prêmio Nobel de física em 1986.

Convidada para dar palestra na Europa sobre sua invenção, Dâmaris foi contemplada com um prêmio de destaque mundial.

Subestimada pelo patrão, escutou dele “enfia o seu rabinho entre as pernas e fica quieta onde está, porque ninguém te quer”, quando foi pleitear aumento e promoção. Saindo da sala do chefe, a secretária passou uma ligação internacional para ela, vinda da empresa americana International Paper, querendo contratá-la.

O “ninguém te quer” foi por terra em menos de um minuto. Claro que ela aceitou e se mudou com a família para os Estados Unidos, onde trabalhou por muitos anos.

Hoje, Dâmaris mora em Vitória e presta consultoria para empresas. O filho, Gabor, é destaque na área de vídeo para grandes empresas esportivas. Márcia Doro, sua irmã, é professora e mantém o canal Márcia Doro Português Fácil, no YouTube.

Cornélio Doro gravou toda a Bíblia e sabe tudo de cor. Seu trabalho é reconhecido no país inteiro, ele já gravou algumas partes em outros idiomas. Daniel, filho de Paulo, tem três pós-doutorados no exterior, hoje trabalha no Sul do Brasil.

Camila, irmã de Daniel, é roteirista, diretora, compositora e responsável por todos os musicais cristãos da Igreja Batista Central, inclusive o longa-metragem “A casa da montanha”, que ganhou o “Oscar” da área, o Prêmio Internacional de Cinema Cristão. Lucas é maestro, cantor lírico e compositor. Paulo é psicólogo, pianista e pastor.

Esses são só alguns exemplos dos Doro, porque meu espaço é limitado. Está aí uma família que, apesar de tanta inteligência e de tantos estudos e lutas para vencer, ainda teve de enfrentar o preconceito tão descabido que existe em nossa sociedade.

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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