SUS tem defeitos, demora, falta verba, mas salva vidas
Se contasse com mais recursos, o Sistema Único de Saúde, que oferece atenção gratuita à população, poderia ser ainda mais eficiente nos atendimentos
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Tenho uma amiga que está precisando de tomar ferro na veia. Isso só pode ser feito em hospital ou UPA. Uma vez, ela conseguiu em um Posto de Saúde, mas, na segunda vez, eles não quiseram fazer a aplicação. E só fazem com a presença de um acompanhante.
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Ela tem plano de saúde, e não me perguntem o porquê de ela não ir em um hospital do seu plano, nunca questionei, mas já a acompanhei duas vezes. A primeira foi no Posto de Saúde. A segunda foi esta semana, em uma UPA. A sala de espera estava lotada, e enquanto aguardava – demora cerca de 40 a 50 minutos, depois que ela é chamada –, fiquei reparando no que estava ao meu redor.
Pouca gente sabe – e sempre se surpreendem quando eu falo –, mas o SUS (Sistema Único de Saúde) foi implementado pelo ex-presidente Fernando Collor. Para ser mais justa ainda, o SUS foi concebido durante o processo de redemocratização do Brasil, com a saúde sendo declarada direito de todos e dever do Estado na Constituição Federal de 1988, durante o governo de José Sarney, e regulamentado com leis chave nos anos seguintes, como a Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990) no governo de Fernando Collor, que implementou o sistema de forma gradual, estabelecendo a descentralização e controle social. Portanto, José Sarney e Fernando Collor foram os presidentes-chave nesse processo inicial.
Não somos o único país do mundo a oferecer saúde pública gratuita. Reino Unido (NHS), Canadá (Medicare), Austrália (Medicare), França (SHI), Suécia, Espanha, Portugal, Japão e Itália oferecem acesso amplo à saúde para seus cidadãos, baseados em princípios semelhantes de universalidade. Alguns cobram por remédios, outros coparticipação em exames. Provavelmente, por serem mais desenvolvidos que a gente, o atendimento seja mais ágil e eficiente.
O que eu vi foram pessoas andando de um lado para o outro, não por ansiedade, mas para aguentar a dor. Outras esperavam sentadas, pacientemente. Curiosa que sou, perguntei a alguns há quanto tempo aguardavam, “quatro horas”. Havia pessoas de todas as faixas etárias.
Fiquei indignada com a demora. Provavelmente, os médicos não eram suficientes para toda aquela demanda. E vem a raiva, por saber que existe um desvio constante da parte da verba da saúde, que poderia ser usada na contratação de mais médicos, de cadeiras mais confortáveis, de mais enfermeiras.
Depois que minha amiga saiu, me contou alguns casos. Um senhorinha, de quase 90 anos, de pulseira vermelha (caso grave com risco de perder a vida) foi espetada diversas vezes, por várias técnicas de enfermagem, sem sucesso, na tentativa de pegarem uma veia.
Ela, quietinha, só fazia careta, por causa da dor. Minha amiga perguntou a uma das técnicas o que fariam se não conseguissem e a resposta foi que chamariam a enfermeira. Por que não fizeram isso na segunda tentativa?
Outro senhor, que há horas passava mal por não conseguir urinar, precisava de uma sonda. Só a enfermeira pode passar. E ela não chegava. É ou não aflitivo demais ver pessoas nessa situação? Mas, se não for o SUS, que socorro elas teriam?
Pois tenho um parente que não tem plano de saúde e o SUS já salvou a vida dele duas vezes. A primeira, quando pegou uma erisipela bolhosa e quase perdeu a perna. Descobriram a bactéria, trataram, limparam e fizeram enxerto. Foi na época da pandemia. Precisaram esvaziar o hospital para atender casos de COVID, mas uma equipe ia na casa dele a cada dois dias para fazer os curativos.
Ano passado, ele teve um grave problema de coração. Por ser idoso, mais difícil ainda, porque não aguentaria cirurgia de peito aberto e precisava trocar a válvula. Colocou stents e trocou a válvula, tudo pelo SUS. Está zero bala.
O SUS tem problema, sim, mas resolve. Se contasse com mais verba então, seria uma maravilha.
*Isabela Teixeira da Costa/Interina
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
