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Anna Marina
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MEMÓRIAS

Casos de minha família – e do Walter Salles também

O diretor de "Ainda estou aqui", que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, tem raízes mineiras, em Santa Luzia

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Este jornal vem publicando reportagens sobre meu primo Walter Salles, cujo longa “Ainda estou aqui” ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Não o conheço, mas tenho muita vontade de conhecer. Ele é filho de minha prima Elisinha, cuja mãe é tia Elisa – irmã de meu pai, nascida também em Santa Luzia.

Com a família constituída, ela se mudou para o Rio porque o marido, funcionário de uma empresa de trem, apaixonou-se por uma conterrânea. Em lugar de brigar ou se separar, minha tia Elisa – como a chamam até hoje alguns parentes que não são sobrinhos, só porque é chique – deixou Minas.

É mãe de Elisinha, que se casou com o banqueiro Walther Moreira Salles, de quem se separou anos mais tarde. Minha “tia carioca” teve filhos bem colocados na escala social. A mãe do cineasta Walter era especialmente destacada, porque o marido, além de empresário, foi embaixador nos Estados Unidos e ministro da Fazenda.

Walther Moreira Salles, o dramaturgo Nelson Rodrigues e Elisinha Moreira Salles
Walther Moreira Salles e o dramaturgo Nelson Rodrigues com Elisinha, mulher culta e elegante ItaúUnibanco90anos/reprodução

Quem ligava as duas ramificações da família, a carioca e a luziense, era a minha tia Aramita, conhecida como Mita, que comandava os Correios de Santa Luzia. Solteira, ocupava a casa dos Correios com o irmão Benone, também solteiro, cujo nome não sei de onde vem.

Tia Mita se tornou inesquecível para mim, porque em sua casa tive contato com os primeiros livros policiais que os primos mandavam do Rio, depois de lê-los, e também por causa dos trocados que ela me dava todos os fins de férias que eu passava em Santa Luzia. Não me esqueço do magnífico pé de manga-ubá que tinha em seu quintal.

Os anos foram passando, nos mudamos para Belo Horizonte e tia Mita, a essa altura dos acontecimentos, já não recebia mais os livros enviados pela moçada da família. Porém, recebia pacotes e mais pacotes da minha prima Elisinha, que se tornara a “mais bem-vestida do Rio” e não usava vestidos toaletes mais do que uma ou poucas vezes.

Brincadeira do destino: como eu, mocinha, tinha o mesmo manequim da prima carioca, recebia as roupas, que eram vestidas “no total”, nem sequer precisavam de bainha. Nesse passo, comecei a frequentar muito em BH e fui ficando bastante conhecida pelo bom gosto, com retratos publicados em revistas e jornais.

Elisinha, Pio Canedo, o então vice-governador de Minas Gerais, Maria Ângela Canedo e Walther Moreira Salles
Elisinha com Pio Canedo, o então vice-governador de Minas Gerais, Maria Ângela Canedo e Walther Moreira Salles Associação Comunitária de Santa Luzia/Facebook

Curiosidades da vida: o vestido preto de musseline com gola de cetim passando pelo pescoço e fazendo decote em vê, que usei para ser fotografada entre as “10 Mais”, era de minha prima, que o usou pelo mesmo motivo.

Minha tia luziense morreu e os pacotes de roupas pararam de chegar pelos Correios. Naquela altura, já “casada e mudada”, não sei se usaria as roupas “herdadas”. O tempo passou e continuávamos a ter notícias dos nossos parentes cariocas. Tive a oportunidade de me encontrar com Elisinha durante um jantar na casa de meu amigo Odin Andrade.

Eis que, certo dia, minha irmã, que morava no Rio, recebeu o chamado de um hotel da orla para ir até lá participar de uma identificação que estava sendo feita pela polícia. Ela foi. Minha prima Elisinha, em processo depressivo, havia tirado a própria vida.

É por esses e outros casos que os dois ramos da família Vianna não são conviventes. Mas eu bem queria que fosse, para conviver com meu primo cineasta.


As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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