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Anna Marina
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ANNA MARINA

Saudade da matinê onde víamos o seriado "Nioka, a deusa de Joba"

Naquele tempo, a exibição podia ser interrompida por falta de energia elétrica e quem se levantava para descansar as pernas podia perder o lugar

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Tenho a maior inveja de pessoas que guardam datas, anos de assuntos variados e vida própria. Todas as vezes que quero saber quantos anos tenho, preciso definir com segurança com minha acompanhante. Já me ensinaram que é bom rememorar feitos quando, de noite, estamos à espera do sono.

 


Fui fazer isso esta semana e só me lembro de um seriado que víamos no Cinema Avenida (nem sei bem se o nome é este) e que se chamava “Nioka, a deusa de Joba” e que, num dia desses, consegui encontrar em meu computador.

 


Era o meu programa dominical, que começava com a missa na Igreja de Santo Antônio, passava pelo almoço na casa de uma prima, que era moradora de fazenda e veio para BH, trazendo uma cozinheira esplêndida, e, em seguida, ia para a casa de outra prima, de onde seguia com meu primo José Cláudio para a matinê.


Uma pausa para contar um caso da cozinheira esplêndida: ela veio com minha prima da fazenda e fazia uma carne que nunca mais comi igual (e devo dizer que não gosto muito de carne de boi) e passava os dias com uma das pernas, na altura do tornozelo, com um curativo. Tinha uma ferida que não curava e já tinha passado por vários dos médicos da família, em busca de cura. Em vão.

 


Um dia, minha mãe foi convidada para almoçar na casa de minha prima, e a cozinheira mostrou a perna com a ferida sem cura. Minha mãe fez o diagnóstico imediato: “Isso não é ferida comum, é lepra”. Pois não é que era mesmo?

 

 

Tratou da lepra e continuou firme nas panelas. Uma das suas atrações maiores eram aqueles biscoitinhos que ninguém faz mais, porque prefere comprar pronto. Bons tempos aqueles...



Depois do almoço na casa da minha prima que veio da fazenda, descia pela Avenida do Contorno para a casa de outra prima. Lá estava meu outro primo, que, se bem me lembro, era da polícia, que dava para mim e meu primo umas moedinhas para irmos à matinê.

 


Íamos os dois, de bonde, até o abrigo da Avenida e seguíamos a pé os poucos quarteirões até o cinema. Naquele tempo, a exibição do filme podia ser interrompida por falta de energia elétrica e quem se levantava para descansar as pernas podia achar a cadeira que tinha escolhido com cuidado ocupada por outro esperto.

 


Terminada a matinê, fazíamos a rota ao contrário. Íamos até o abrigo de bondes da Afonso Pena e tomávamos a condução para o Santo Antônio. Se sobravam alguns trocadinhos da entrada da matinê, quando parávamos na ainda Rua da Bahia, entrávamos em um bar para tomar um copo de “groselha capilé” como era chamada.

 


Eu ia com meu primo até sua casa, quando sua mãe nos servia um lanche com pão torrado, queijo e geleia. Depois, sozinha, eu andava pela Avenida do Contorno até a Rua da Bahia, subia a Rua Carangola e chegava na Rua Leopoldina, onde morávamos.

 


Calmamente, no começo da noite, sem nenhum risco, sem nenhum perigo. A cidade não era o que é hoje, quando as mães não deixam as filhas chegarem na esquina, sem acompanhamento.

 


Como sempre gostei de andar sozinha, sem ninguém me esperando, trançava por aquela região onde morávamos o tempo todo, sem nenhum risco, sem nenhum incômodo. Vai fazer isso hoje e vê o que acontece. Não são poucos os casos que o jornal conta diariamente de mulheres que andam sós e que são assaltadas, forçadas a entrar em carros com só o motorista ou mais homens, um desespero e uma violência só.

 


Quanto ao cinema, estou com uma vontade danada de ver esse filme “Ainda estou aqui”, porque é dirigido por Walter Salles. Ele não sabe de nada, mas sua avó é minha tia...

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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