Ana Mendonça
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EM MINAS

A nova guerra de narrativas

A campanha de desmoralização do Judiciário já estava engatilhada. Faltava apenas o estopim e ele veio com a tornozeleira

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A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de manter as medidas cautelares contra Jair Bolsonaro (PL) acendeu o sinal verde para a ala mais radical do bolsonarismo. A campanha de desmoralização do Judiciário já estava engatilhada. Faltava apenas o estopim e ele veio com a tornozeleira. Quem puxa o fio da ofensiva é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), considerado pelo núcleo do ex-presidente como peça central da estratégia de reação pública.

Nikolas não foi escalado apenas como defensor, mas como a principal voz do contra-ataque. Cabe a ele a missão de reposicionar o jogo no campo da opinião pública, mirando diretamente em Moraes e no Supremo. A ordem é deslegitimar o ministro, alimentar a narrativa de perseguição e incendiar as redes. A tática remete à campanha de 2018, quando Bolsonaro viralizou via WhatsApp. Mas, agora, o alvo é mais definido e o adversário, infinitamente mais perigoso.

Nos bastidores, a operação vai além das fronteiras nacionais. Eduardo Bolsonaro tem articulado diretamente com aliados do ex-presidente Donald Trump para pressionar lideranças do Congresso brasileiro. A proposta? Solicitar o cancelamento do visto norte-americano de dois dos principais nomes do Legislativo: Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara.

Ambos são aliados influentes e têm adotado posição institucional diante das investigações contra Bolsonaro. A ideia do grupo bolsonarista é que, diante da ameaça concreta de retaliação internacional, eles passem a defender publicamente a anulação dos julgamentos contra o ex-presidente.

A estratégia, no entanto, não tem consenso nem mesmo entre os aliados mais próximos. Dentro do PT, a leitura é de que a medida pode sair pela culatra. Ao tentar constranger figuras do centro político, Bolsonaro pode acabar empurrando-as para o outro lado. “Essa operação malcalculada tem tudo para gerar o efeito inverso: uma aproximação desses parlamentares com o presidente Lula”, avalia uma liderança do partido.

Do lado do Planalto, o contra-ataque já está em curso. Quem articula a resposta é Edinho Silva, presidente nacional do PT e operador político de confiança do presidente. A aposta tem nome e sobrenome: Pedro Rousseff, jovem vereador mineiro, de atuação digital afiada e temperamento combativo.

A escolha é simbólica e estratégica. Pedro carrega o sobrenome da ex-presidente Dilma, mas tem a verve militante da nova geração. Tem também um perfil semelhante ao de Nikolas, com histórica política similar, mas invertido no espectro ideológico.

“Eu sou um soldado do presidente Lula. Nós precisamos de alguém combativo, que enfrente a extrema direita sem dó. Precisamos entrar na guerra”, disse à coluna quando questionado sobre o assunto.

A fala revela o clima. O embate que se aproxima não será jurídico, nem mesmo apenas político. Será uma guerra de narrativas. E, nesse campo, o STF virou protagonista involuntário ou inevitável.

A decisão de Moraes, publicada nessa quinta-feira (24/7), reforçou o cerco a Bolsonaro. O ministro negou o pedido da defesa para flexibilizar as restrições e manteve a tornozeleira eletrônica, o recolhimento noturno e a proibição total de uso de redes sociais, inclusive por terceiros. Também impôs distância de embaixadas e autoridades estrangeiras.

Bolsonaro está acuado. Moraes foi claro: a Justiça pode ser cega, mas não é tola. E avisou que, em caso de reincidência, a prisão preventiva será decretada.

Ex-presidente da Câmara

A ex-vereadora e ex-deputada Luzia Ferreira foi alçada ao comando da regional Oeste de Belo Horizonte, a mais populosa da capital, com mais de 300 mil moradores. A nomeação foi publicada ontem no Diário Oficial do Município, junto da exoneração de Luciane Carvalhais, que até então ocupava o posto. Luzia já estava na estrutura como adjunta e, nos bastidores, sua efetivação é vista como movimento político com peso simbólico, além da experiência no Legislativo, ela tem trânsito entre diferentes grupos da PBH e é nome de confiança da cúpula da prefeitura.

Lula em Minas

Durante a visita presidencial a Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, o prefeito Alessandro Mota Barbosa (Republicanos) aproveitou o palanque para mandar um recado ao próprio partido. Criticou o senador Cleitinho Azevedo, colega de legenda, e declarou apoio a Rodrigo Pacheco (PSD), caso o ex-presidente do Senado decida disputar o governo de Minas em 2026. A fala foi interpretada como um gesto de distanciamento da ala bolsonarista do Republicanos, que vê em Cleitinho um nome competitivo para a disputa. Ao endossar Pacheco, Alessandro se alinha a Lula (PT). “É curioso ver esse senador, que deveria ser referência, e que se transformou em um personagem de rede social. Faz pronunciamento com um boné e uma camisa de futebol, apontando o dedo e criando histórias, mas, quando se pergunta pelas propostas, pelos serviços prestados, o que ele fez de concreto? Nada tem!”, disse Alessandro Mota Barbosa.


Silêncio estratégico

Lula já pisou em solo mineiro seis vezes neste ano. Em todas, com exceção de uma visita à fábrica da Stellantis, em Betim, foi solenemente ignorado por Romeu Zema (Novo). O governador não apenas se ausentou das agendas, como também evitou qualquer gesto público de cortesia institucional. A estratégia é calculada: Zema prefere manter distância de um presidente com quem não compartilha nem projeto político, nem palanque. No xadrez mineiro de 2026, o silêncio também é movimento. E, neste caso, fala muito.

 

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Tensão

A ala responsável pela organização dos atos em BH contra Alexandre de Moraes anda irritada. A avaliação interna é de que o protagonismo dado a deputados federais com direito a discursos e grande visibilidade nas redes acabou desviando o foco único dos protestos: o impeachment de Moraes. Enquanto os organizadores queriam um discurso mais centralizado na pauta, o protagonismo dos parlamentares foi visto como uma manobra midiática, que “profissionalizou demais” o evento.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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