Ana Mendonça
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EM MINAS

Lula de volta a Minas

O anúncio de investimentos sociais deverá marcar a passagem de Lula por Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha

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Na próxima quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá completado cinco visitas a Minas Gerais este ano. Mais agendas do que em todo o ano passado. A frequência não é fortuita. É movimento de guerra. O estado passou a ser tratado pela Secretaria de Comunicação da Presidência como o mais estratégico da disputa de 2026. E não por acaso: em nenhum outro território a oposição se articula com tanta velocidade, método e apelo popular. Para Lula, não é mais sobre comparecer. É sobre reagir. E reconquistar.


Na próxima visita, o presidente desembarca no Vale do Jequitinhonha. A cidade escolhida é Minas Novas, uma das mais vulneráveis da região. O anúncio de investimentos sociais deverá marcar a passagem presidencial, reforçando uma lógica que tem guiado as agendas mineiras do Planalto: a de que, em Minas, política se faz com mapa e lupa. Cada deslocamento carrega um sinal.


De março a junho, o presidente percorreu o Sul (Campo do Meio), o Norte (Montes Claros), a Região Metropolitana (Contagem, Betim), e a Região Central (Mariana e Ouro Branco). Em cada parada, um recado: reforma agrária, indústria automobilística, mineração, reparação histórica, entregas do Ceasa.
As visitas seguem uma coreografia minuciosa, desenhada por auxiliares diretos de Alexandre Silveira, o mineiro de confiança do presidente e ministro de Minas e Energia, que, nos bastidores, tem travado um embate quase silencioso sobre a condução da interlocução política no estado. A disputa, por enquanto, não paralisa, mas sinaliza um desconforto. Minas é estratégica demais para ser tratada como apêndice de agenda.


Há uma tentativa clara de territorializar o lulismo. De fincar presença em cada microrregião, reverter ressentimentos antigos e sedimentar a ideia de governo, e não apenas de presidente. Ainda assim, deputados federais do PT admitem à coluna que o esforço tem encontrado um campo minado. Isso porque não existe uma ausência de fato. É ruído. O problema, segundo o PT, não está na escassez de entregas, mas na assimetria de discurso. Enquanto Lula tenta construir, a oposição já está em campanha.
Do outro lado do tabuleiro, o jogo já começou e sem freios. A direita mineira está em plena campanha e fala com clareza sobre seu projeto de poder e sua cruzada contra o “petralha”.


Romeu Zema, governador reeleito pelo Novo, ignora institucionalmente o presidente. Cultiva o antagonismo nas redes e performa como pré-candidato ao Planalto. Cleitinho Azevedo, senador pelo Republicanos, já atua abertamente como pré-candidato ao governo estadual, apoiado por redes evangélicas e por uma base que o enxerga como anti-establishment. E Nikolas Ferreira, deputado mais votado do país, opera como núcleo ideológico e digital da extrema direita mineira.


É contra esse tripé – Zema, Cleitinho e Nikolas – que o governo tenta reagir. E, até agora, usa os meios convencionais para um campo que joga com todas as armas.


No Planalto, há quem reconheça, em voz baixa, que se subestimou a velocidade da reorganização da direita em Minas. As visitas têm sido enxergadas como institucionalmente corretas, mas politicamente tímidas. Falta aceno mais nítido ao imaginário mineiro e, sobretudo, falta palanque.


O núcleo político de Lula sabe que a imagem do presidente segue positiva entre parte do eleitorado, especialmente em regiões com forte presença do Bolsa Família. Mas reconhece que esse capital simbólico vem sendo corroído por um ambiente saturado de desinformação, ressentimento e influência digital bolsonarista.


Nikolas, embora concorra apenas à reeleição em 2026, atua como um antagonista de escala nacional. Sua atuação já não se mede pela Comissão de Educação ou pelas emendas parlamentares, mas pela capacidade de influenciar a atmosfera política do país a partir de Minas. Cleitinho cresce em regiões onde o bolsonarismo se consolidou. Zema, por sua vez, mantém distância estratégica. Ele se ausenta quando é institucional. Nas redes, provoca.


O lulismo ainda não encontrou uma voz estável e competitiva para mediar a mensagem federal no estado. As lideranças locais, como Reginaldo Lopes e Patrus Ananias, mantêm força regional, mas não conseguiram nacionalizar suas figuras. E outros nomes ventilados como possíveis candidaturas ao governo, como Rodrigo Pacheco (PSD), enfrentam resistência interna e externa. Fato é que o Planalto sabe que precisa costurar, e rápido.

 

 


Pacheco

Rodrigo Pacheco (PSD), ex-presidente do Senado, já ocupou o posto de nome natural ao governo de Minas com apoio federal. Mas, nos bastidores, a avaliação mudou. Sua hesitação prolongada começou a gerar ruído dentro da base lulista, que cobra definição. Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, vinha sendo o principal fiador da candidatura. Mas, ao ser pressionado por parlamentares petistas, evita cravar a aposta. Travado nas articulações, enfrenta resistências internas no PSD e observa com cautela as alianças externas em torno de Pacheco.

 

 


Kalil

Diante do vácuo, um nome volta a circular com força: Alexandre Kalil. Ex-prefeito de Belo Horizonte e derrotado ao governo em 2022, Kalil foi sondado por interlocutores do PT para disputar novamente, desde que se filie a uma sigla de centro alinhada à reeleição de Lula. A operação, contudo, é complexa. Kalil carrega capital, mas também um traço que inquieta os articuladores do Planalto: a imprevisibilidade.

 


Um nome contra Nikolas

Nos bastidores do Planalto, uma provocação atribuída ao presidente Lula acendeu discussões dentro da bancada mineira: “Minas precisa de um jovem com coragem, presença digital e lado. Alguém que enfrente Nikolas no mesmo campo”. A frase, dita em tom crítico, não mirava apenas o adversário, mas também a ausência de uma figura de contraponto geracional e ideológico dentro do campo progressista mineiro. A fala circulou entre parlamentares como recado e incômodo. Deputados do PT reconhecem que faltam nomes com apelo popular e presença digital comparável à de Nikolas Ferreira. Por ora, nenhum se consolidou como resposta direta.

 

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