ANVISA LIBEROU

Como o uso do Mounjaro pode afetar adolescentes que buscam corpo perfeito

O uso indiscriminado do medicamento que aumenta a saciedade e provoca emagrecimento pode oferecer riscos para a faixa etária, segundo especialistas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o uso Mounjaro para crianças e adolescentes a partir dos dez anos com diabetes tipo 2. Só que o uso indiscriminado do medicamento que aumenta a saciedade e provoca emagrecimento pode oferecer riscos para a faixa etária, segundo especialistas. Isso porque essa geração convive com um sentimento de inadequação corporal relacionado à exposição às redes sociais, o que pode incentivar o uso fora da bula.

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"O medicamento ainda é recente e agora será usado em corpos imaturos. O uso indiscriminado pode afetar questões biológicas importantes, que vão desde o emocional até noções sobre o corpo. Esses efeitos adversos vão demorar para aparecer", afirma a psiquiatra Anne Brito, especialista em infância e adolescência.

"Hoje, existe um imediatismo. Tem que acontecer para ontem e virar um post. Por isso, os adolescentes buscam métodos nocivos, como intervenções estéticas precoces e o uso irregular das canetas emagrecedoras", diz a especialista.

Para a endocrinologista Daniela Takamune, a aprovação do Mounjaro representa um avanço importante no tratamento do diabetes tipo 2 em adolescentes. O problema, segundo ela, está no uso fora da indicação médica. Sem acompanhamento adequado, o Mounjaro pode prejudicar os organismos em formação.

"Não pode tirar a fome da criança. Se isso acontece, podem ocorrer distúrbios alimentares como anorexia e bulimia", afirma.

A psiquiatra Anne Brito reforça a preocupação. Para ela, a linha entre o uso clínico e o estético é o ponto central do debate. "Com mudança de estilo de vida e acompanhamento psicológico, esses medicamentos podem ser muito benéficos. O problema é a banalização. Alguns adolescentes insatisfeitos buscam atingir o padrão com essa ferramenta, mas é muito difícil competir com o algoritmo", diz.

A pressão estética encontra terreno fértil num mercado irregular que a própria Anvisa diz estar fora de controle. Em 6 de abril -16 dias antes de aprovar o Mounjaro para crianças- a agência publicou um diagnóstico que revelou a dimensão do problema. Só entre novembro de 2025 e abril de 2026, chegaram pedidos de importação de mais de 100 kg de tirzepatida, o equivalente a cerca de 20 milhões de doses, volume que seria incompatível com o mercado brasileiro. Desses, 14 foram barrados por falhas no controle de qualidade.

A Anvisa também interditou oito empresas, apreendeu mais de 1,3 milhão de unidades de produtos irregulares e identificou que 26% das notificações de eventos adversos no sistema VigiMed (plataforma que recebe notificações de efeitos colaterais de medicamentos) são de uso fora da indicação médica.

Daniela Takamune alerta que esse mercado paralelo representa um risco ainda maior quando o consumidor é uma criança. "A pessoa vai usar um remédio que não tem segurança, não sabe como foi feito, como foi armazenado. As pessoas transportam debaixo das meias", diz.

Em resposta ao problema, a agência firmou em 15 de abril uma parceria com os conselhos federais de medicina, farmácia e odontologia para promover o uso racional das canetas emagrecedoras e conter irregularidades na prescrição e dispensação dos medicamentos.

O risco do uso indevido, porém, não supera os benefícios do uso com acompanhamento médico, conforme avalia Daniela Takamune. O diabetes tipo 2, historicamente associado a adultos, avança em ritmo acelerado entre crianças e adolescentes brasileiros.

"Com o aumento da obesidade nas últimas décadas, crianças e adolescentes passaram a desenvolver a dibetes tipo 2. Antigamente, isso era raro", afirma.

O mecanismo funciona assim: a obesidade aumenta a resistência à insulina, hormônio responsável por levar o açúcar do sangue para dentro das células. O organismo compensa produzindo mais insulina, até que o pâncreas não consegue mais dar conta. É nesse momento que a glicose sobe e o diabetes se instala. Na adolescência, o processo é agravado pelos hormônios da puberdade, que já elevam naturalmente a resistência insulínica.

Sem controle, o diabetes tipo 2 pode atingir diferentes órgãos e causar cegueira, insuficiência renal ou perda de sensibilidade nos membros.

"A evolução para complicações é muito mais rápida nos adolescentes do que nos adultos. Complicações que em adultos aparecem após dez anos, nos jovens surgem antes", diz a endocrinologista.

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A Anvisa foi procurada via email e telefone na tarde desta terça-feira (28) para se manifestar, mas ainda não respondeu. O espaço segue aberto.

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