Césio-137 e Netflix: o que a série ensina sobre radiação e câncer
Série sobre a tragédia de Goiânia reacende o debate: entenda como a ciência transformou a radiação de vilã em aliada no combate a tumores
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A minissérie "Emergência Radioativa", da Netflix, trouxe de volta à tona um dos episódios mais trágicos da história do Brasil: o acidente com Césio-137 em Goiânia, ocorrido em 1987. O caso começou quando dois catadores de lixo encontraram e desmontaram um aparelho de radioterapia abandonado, liberando uma substância altamente radioativa que se espalhou rapidamente pela cidade.
A contaminação atingiu centenas de pessoas e mobilizou uma operação de saúde sem precedentes no país. Quase quatro décadas depois, a produção reacende o debate sobre o medo da radiação e sua relação com o câncer, um tema que ainda gera muitas dúvidas.
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Para o físico médico Ernani Anderson, gerente técnico da radioterapia da Oncoclínicas, essa percepção está muito ligada a grandes desastres. "A radiação é frequentemente percebida pela população como um agente exclusivamente nocivo, muito em função de eventos marcantes como o Acidente com Césio-137 em Goiânia e o Desastre de Chernobyl", afirma.
Ele ressalta que essa visão desconsidera o papel fundamental da radiação na medicina, tanto para diagnósticos quanto para tratamentos. No caso de Goiânia, a situação foi de alta gravidade, com exposição a doses elevadas. "Clinicamente, observaram-se efeitos agudos relevantes, como radiodermites extensas e, em alguns indivíduos, manifestações típicas da síndrome aguda da radiação".
Radiação e o risco de câncer
Do ponto de vista biológico, a radiação ionizante pode provocar danos ao DNA das células, o que, em alguns casos, pode levar a mutações. No entanto, a relação com o desenvolvimento de um tumor não é direta. "Ela é probabilística. O que podemos dizer é que quanto maior a dose efetiva, maior a probabilidade de indução de câncer", explica o especialista.
Além disso, o desenvolvimento de um tumor induzido por radiação é um efeito tardio, que pode levar anos para se manifestar. Estudos epidemiológicos conduzidos ao longo de décadas não identificaram um aumento consistente de câncer diretamente associado aos expostos em Goiânia.
A tecnologia a favor da saúde
Se acidentes como o de Goiânia consolidaram o medo da radiação, a medicina revela o outro lado dessa história. A radioterapia, uma das principais ferramentas contra o câncer, usa o mesmo princípio físico de forma segura e controlada para destruir células tumorais.
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"Os equipamentos utilizados na radioterapia são altamente modernos e precisos. Logo é possível obter uma distribuição de dose extremamente conformada ao volume alvo, minimizando a exposição dos órgãos sadios adjacentes", explica Ernani. Tecnologias recentes também substituíram fontes radioativas contínuas, como o Césio-137, por sistemas que geram radiação apenas quando acionados.