Queda de testosterona está mais ligada à idade do que ao fim da menstruação
Pesquisa com mais de 1.100 mulheres mostra que o nível mais baixo de ocorre por volta dos 59 anos; transição hormonal não justifica a suplementação generalizada
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No mês do Dia Internacional da Mulher, falar sobre saúde feminina é também reconhecer que o envelhecimento hormonal é um processo natural, complexo e profundamente individual. Um estudo publicado em setembro de 2025 no periódico científico The Lancet eBioMedicine, conduzido pelo Australian Women’s Midlife Years Study (AMY), contribui para esse debate ao analisar a trajetória da testosterona ao longo da vida da mulher e sua relação com a menopausa.
A pesquisa acompanhou 1.104 mulheres entre 40 e 69 anos e observou que, ao contrário da percepção difundida socialmente, a menopausa natural não provoca uma queda abrupta nos níveis de testosterona. O declínio ocorre de forma gradual e está mais relacionado com o envelhecimento cronológico do que com o estágio reprodutivo.
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“Diferentemente do estrogênio, cujos níveis diminuem de maneira significativa com a interrupção da menstruação, gerando sintomas como ondas de calor, alterações de humor e secura vaginal, a testosterona segue uma curva mais lenta e progressiva ao longo das décadas. Também é importante lembrar que seus níveis nas mulheres são fisiologicamente muito mais baixos do que nos homens, motivo pelo qual a dosagem isolada desse hormônio não costuma ser utilizada para determinar se ele está baixo”, explica Inessa Beraldo, ginecologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica.
Os dados indicam que os níveis de testosterona reduzem cerca de 25% a partir dos 40 anos, mas essa queda começa ainda por volta dos 20 anos, atingindo níveis mais baixos em média aos 58–59 anos. O estudo também mostrou que os ovários continuam contribuindo para a produção de testosterona mesmo após a menopausa, o que é evidenciado pelo fato de que mulheres submetidas à retirada cirúrgica dos ovários apresentaram níveis significativamente menores do hormônio.
Não foram observadas diferenças importantes nos níveis de testosterona entre mulheres na pré, peri ou pós-menopausa, reforçando que a transição menopausal por si só não determina mudanças abruptas nesse hormônio.
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Menopausa e individualização do cuidado
A menopausa não deve ser encarada como uma doença, tampouco deve ter seus impactos minimizados. Trata-se de uma transição biológica que pode ser vivida de forma muito diferente por cada mulher – algumas atravessam essa fase com poucos sintomas, enquanto outras experimentam impacto significativo na qualidade de vida.
Segundo Flávia Pieroni, endocrinologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, embora a testosterona tenha um papel importante para o desejo sexual, a saúde ovariana e a fertilidade ao longo da vida, a queda desse hormônio é natural e esperada, o que não reflete uma necessidade fisiológica de reposição.
“A suplementação de testosterona só possui indicação para tratar o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), conhecido por “baixa libido”, em mulheres na pós-menopausa e após um diagnóstico médico criterioso, depois da exclusão de possíveis condições clínicas que justifiquem essa manifestação. Não há evidências de que o hormônio melhore o humor, o bem-estar ou a cognição de forma generalizada”, afirma Flávia.
“E seu uso inapropriado, visando ao aumento da massa muscular, é contraindicado, já que leva a enormes prejuízos à saúde. Esse estudo é importante para chamar a atenção de todos, especialmente das mulheres nessa fase da vida, para sempre procurarem atendimento médico especializado para orientação sobre o tratamento. A menopausa por si só não é uma indicação para a reposição de testosterona”, alerta.
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As fases da transição hormonal
Inessa explica que a jornada reprodutiva feminina pode ser dividida em três fases principais:
- Pré-menopausa: é o período que vai da primeira menstruação até a fase final dos ciclos regulares. Os hormônios oscilam de forma previsível
- Perimenopausa (climatério): é a fase de transição que antecede a menopausa e vai até um ano após a última menstruação. O funcionamento ovariano torna-se intermitente, o FSH tende a subir e o estrogênio passa a oscilar de maneira irregular
- Menopausa: é definida pela ausência de menstruação por 12 meses consecutivos, geralmente entre 45 e 55 anos
Para avaliar cada fase e acompanhar a saúde global da mulher, alguns exames laboratoriais são frequentemente solicitados:
- Hormônio Folículo-Estimulante (FSH): é produzido pela hipófise para estimular os ovários. Contudo, quando estes param de funcionar, a produção de FSH sobre muito, como um sinal de que o corpo não está tendo resposta.
- Estradiol: é o principal estrogênio liberado pelos ovários na vida reprodutiva. Com a interrupção da atividade ovariana, a produção de estradiol despenca.
- Hormônio Anti-Mülleriano (AMH): esse exame é mais comum na fase da perimenopausa ou para avaliar a reserva ovariana e a fertilidade, já que ele reflete a quantidade de folículos restantes nos ovários. Na menopausa, os níveis são indetectáveis ou extremamente baixos, sinalizando que o estoque de óvulos acabou.
De acordo com a endocrinologista, a queda do estrogênio afeta o corpo todo, por isso, no período que antecede a menopausa ou depois dela, os médicos costumam pedir exames complementares para avaliar os riscos dessa nova fase. Entre eles estão:
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- Hemograma: avalia a presença de anemia, comum no período que antecede a menopausa, quando as menstruações podem se tornar mais longas e intensas. Pode ser complementado com um estudo do metabolismo do ferro
- Perfil lipídico (colesterol total, LDL colesterol, HDL colesterol, triglicérides, não HDL colesterol): checa as gorduras do sangue e indica a necessidade de exames complementares ou tratamento em caso de dislipidemia
- TSH: avalia a função tireoidiana, já que o hipotireoidismo é mais frequente nessa fase da vida
- Glicose e hemoglobina glicada: rastreiam o pré-diabetes e o diabetes mellitus
- Creatinina: detecta precocemente doença renal crônica
- Enzimas hepáticas, TGO e TGP: avaliam a função do fígado
- Densitometria óssea: verifica se a queda do estrogênio está causando perda de massa óssea. Em caso de osteopenia ou osteoporose, exames complementares (cálcio, fósforo, vitamina D, PTH, CTx) avaliam o metabolismo do cálcio
- Mamografia e colonoscopia: rastreiam câncer de mama e colorretal, devendo ser mantidas após a menopausa conforme orientação médica
Inessa reforça que é importante manter as consultas com o ginecologista, realizando os exames de prevenção de câncer, e com outros especialistas, se houver condições associadas como hipertensão arterial, obesidade ou diabetes.