Uma pitada de inovação no campo
Apesar de o cultivo de pimenta-do-reino não ser comum em Minas, produtores rurais de pequenas propriedades vêm ampliando os negócios com a plantação
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O fator clima, mais especificamente a temperatura média elevada, tem encorajado produtores rurais dos vales do Mucuri e Jequitinhonha a cultivarem a pimenta-do-reino. Minas Gerais não se destaca na produção dessa especiaria culinária no Brasil, sendo o Espírito Santo responsável por 60% da safra nacional, mas, ainda assim, a cultura tem se mostrado vantajosa na diversificação da produção e no complemento da renda de pequenas propriedades.
Há dez anos, o produtor Saalah Gazel foi precursor no cultivo da pimenta-do-reino no município de Ataléia, no Vale do Mucuri. Ele conta que participou de um programa de incentivo para a produção da especiaria da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), com informações sobre o plantio, manejo e comercialização do produto, e decidiu investir nesta cultura.
“Em 2016 eu participei de um dia de campo, quando falaram que a pimenta-do-reino se adapta bem ao nosso clima, que é uma cultura rústica, que não exige muita mão de obra, tem alta produtividade e um bom valor agregado”, relembra Gazel, que na época já plantava café conilon e criava gado de corte. O produtor garante que, hoje, o preço da saca de 50 quilos da pimenta-do-reino (já em grão) é de R$ 1.500, enquanto a saca do café conilon (de 60 quilos) está em torno de R$ 1.000.
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Quanto ao investimento necessário para começar uma lavoura, ele calcula em torno de R$ 80 mil por hectare, custo que envolve as estacas necessárias para a trepadeira se apoiar, as mudas e o sistema de irrigação por gotejamento. “Depois disso, são necessárias apenas pequenas manutenções, como repor plantas ou estacas danificadas. Meu sistema de irrigação tem filtro, então não acontece muito de entupir. Sei de lavouras no Espírito Santo que têm mais de 20 anos”, relata.
DO PREPARO À COLHEITA
Após a análise de solo, para ver se é preciso corrigir acidez, e a adubação de plantio, a cultura só vai precisar das adubações de manutenção, a cada 20 dias. Gazel conta que também faz a adubação pelo sistema de irrigação. O método é tão prático que ele faz o processo nos seus 12 hectares de pimenta-do-reino sozinho e em apenas dois dias. A planta também não requer pulverização contra pragas e doenças.
A primeira colheita já pode ser feita dois anos após o plantio das mudas. Na fazenda de Gazel, cada hectare abriga cerca de 1.700 pés. A pimenta-do-reino permite duas colheitas anuais, uma em junho e outra em dezembro. A produtividade média por hectare da especiaria já processada é de cinco toneladas por ano.
Já para a colheita é preciso contratar entre 20 e 30 pessoas. “Não precisa de mão de obra especializada. A colheita é manual, basta puxar os cachos com as mãos”, explica. Na área plantada pelo produtor a colheita é feita em 60 dias. Se for um pequeno produtor, a própria família consegue fazer a colheita. Para estimular a maturação dos frutos ao mesmo tempo, a planta é submetida a um estresse hídrico: “Quando está quase no ponto eu desligo a irrigação. Logo após a colheita eu volto com a água.”
Ainda sobre a estrutura, Gazel usa um secador capaz de processar 2.200 quilos de pimenta-do-reino de uma só vez, processo que dura 12 horas. O custo do equipamento é de aproximadamente R$ 100 mil, mas ele garante que um pequeno produtor não precisa desse equipamento, podendo realizar a secagem em um terreiro ou estufa.
Ele armazena as sementes já processadas em um pequeno galpão, já acondicionadas em sacos de 50 quilos. No período da colheita, toda semana o produtor envia um caminhão de 5 toneladas para o Espírito Santo, de onde segue para o mercado externo. Cerca de 90% da produção brasileira de pimenta-do-reino é destinada ao mercado internacional.
Saalah Gazel, que é secretário de Agricultura no município de Ataléia, conta que a prefeitura também estimula a produção da pimenta-do-reino disponibilizando mudas e um agrônomo para orientar os produtores.
RENDA SIGNIFICATIVA
Em meados de 2023, Dionísia Jardim Amaral investiu em uma lavoura de pimenta-do-reino na tentativa de tirar uma renda maior das terras herdadas do pai em Ataléia. Até então a fazenda de 10 alqueires era usada apenas para a pecuária de leite, que, segundo a produtora, não tem dado um retorno significativo. O incentivo veio do Projeto Frutificar, uma iniciativa de desenvolvimento rural focada na fruticultura e na agricultura familiar que atua em Teófilo Otoni.
Com o investimento de R$ 600 mil e apoio técnico da Emater-MG, a área plantada é de sete hectares. A irrigação por gotejamento, linha usada também para adubação, é automatizada e feita à noite, para aproveitar a tarifa de energia elétrica reduzida. A produtora esclarece que nos dois primeiros anos a pimenta-do-reino dá certo trabalho, já que é necessário amarrar a trepadeira no tutor à medida que vai crescendo.
Pelo baixo custo de implantação, Dionísia escolheu usar tutores vivos no lugar das estacas de eucalipto (que chegam a custar R$ 20 a unidade), mais especificamente a gliricídia, utilizada também para fazer silagem para tratar o gado, já que é rica em proteínas. Por outro lado, a planta precisa de podas, sobretudo no frio, para não fazer sombra no pé de pimenta-do-reino, o que representa um custo. Mas as folhas da gliricídia também podem proteger os frutos da especiaria nos períodos mais quentes.
Hoje a secagem é feita no terreiro suspenso, mas, com o aumento da produção, Dionísia pretende fazer uma estufa. “Como a pimenta não pode ser lavada depois da secagem, o processo deve ser bem limpo. Os compradores fazem análise para aferir a qualidade”, explicou. Em sua terceira safra, o objetivo atual da produtora é colher 10 mil quilos de pimenta até o fim do ano, o que renderia R$ 280 mil.
“A colheita é manual, basta puxar os cachos com as mãos”
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Saalah Gazel
Precursor da produção em
Ataléia, no Vale do Mucuri