Vida sem filtro

Conheça o viajante mineiro que troca cartões-postais pelas histórias reais

Com mais de 23 milhões de visualizações, Miguel Alvim Sant'Anna transformou o canal Guelmi Por Aí em referência em documentários de viagem

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Enquanto boa parte da internet disputa quem registra a praia mais paradisíaca ou o hotel mais luxuoso, Miguel Alvim Sant'Anna, mineiro de Belo Horizonte, de 32 anos, decidiu seguir na direção oposta. Há apenas quatro anos, ele deu início ao projeto Guelmi Por Aí, sem imaginar que aquela vontade de conhecer o mundo acabaria se transformando em um dos canais de viagens mais autênticos do Brasil.

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Seu destino raramente é o cartão-postal. Seu verdadeiro roteiro começa onde normalmente os turistas encerram a viagem. É nas periferias, nas comunidades esquecidas, nos mercados populares, nas vilas remotas e nos lugares marcados por guerras, colonização e resistência que Miguel encontrou sua identidade como contador de histórias.

Hoje, com mais de 215 mil inscritos no YouTube, 120 mil seguidores no Instagram e mais de 23 milhões de visualizações, o belo-horizontino se tornou um dos principais nomes brasileiros de uma nova geração de criadores de conteúdo: aqueles que entendem a viagem como ferramenta para compreender pessoas, culturas e desigualdades.

Seus vídeos se parecem menos com vlogs turísticos e mais com pequenos documentários, em que cada destino revela uma camada diferente da condição humana. Antes de viver exclusivamente da produção de conteúdo, porém, sua trajetória foi tudo, menos convencional. Passou por dezenas de profissões, morou mais de seis anos entre Estados Unidos e Colômbia e percorreu cerca de 46 países, experiências que moldaram o olhar curioso e sensível que hoje marca suas produções.

O grande salto veio após uma série gravada na Índia. Os 13 episódios ultrapassaram seis milhões de visualizações e apresentaram ao público um país muito além dos estereótipos. "Infelizmente, quando se fala em Índia, o que costuma viralizar são apenas os aspectos negativos. Eu mesmo já fiz isso no passado. Mas a verdade é que talvez seja o país mais rico do mundo em cultura e diversidade. É um lugar que, no mesmo dia, faz você amá-lo e odiá-lo três vezes." A culinária indiana, segundo ele, continua sendo sua favorita no planeta.

Os lugares que transformaram sua forma de enxergar o mundo

Perguntar qual foi seu destino favorito é quase uma injustiça. Miguel prefere responder que cada país deixou uma marca diferente. A Geórgia, por exemplo, conquistou seu coração pela hospitalidade.

"Quando falamos em Geórgia, muita gente pensa no estado americano. Mas esse pequeno país, entre a Europa e a Ásia, foi um dos lugares onde encontrei o povo mais acolhedor que já conheci. Sempre havia uma taça de vinho esperando por você. Eles têm um orgulho enorme da própria história e das montanhas do Cáucaso, que são simplesmente maravilhosas."

Outro destino que ele faz questão de defender é o Laos. Enquanto multidões seguem para Tailândia ou Vietnã, Miguel acredita que o pequeno país preserva algo raro: autenticidade.

"O Laos continua praticamente intocado. Nada ali parece ter sido construído para agradar turistas. É uma cultura vivendo para ela mesma. Meu lugar favorito é a pequena vila de Don Det. Ela me lembra Caraíva de vinte e cinco anos atrás. Foi lá que vivi uma das experiências mais marcantes da minha vida: nadei sozinho ao lado de vinte búfalos selvagens no Rio Mekong. Esse tipo de momento simplesmente não acontece em destinos super turísticos."

Outro país que o surpreendeu foi a Moldávia, considerada uma das nações menos visitadas da Europa.

"Gosto quando tudo parece existir naturalmente. Não há placas traduzidas, atrações montadas para visitantes ou experiências artificiais. É a vida acontecendo exatamente como sempre aconteceu."

Viajar também é colecionar perrengues

Miguel fez mochilão no Vietnã e percorreu lugares longe do circuitos turísticos tradicionais
Miguel fez mochilão no Vietnã e percorreu lugares longe do circuitos turísticos tradicionais Arquivo Pessoal

Nem toda aventura nasce de um planejamento. Algumas simplesmente acontecem. Foi assim quando decidiu usar uma plataforma de hospedagem colaborativa na Bulgária. Ao chegar à casa do anfitrião, descobriu que ele havia esquecido que era feriado e estava de partida para escalar o Monte Olimpo, a montanha mais alta da Grécia.

"Ele me perguntou se eu queria ficar sozinho na casa dele ou subir a montanha junto. Aceitei na hora. Nunca tinha planejado aquilo. Dormimos acampados e foi uma das experiências mais incríveis da minha vida."

Outra aventura exigiu muito mais do corpo. Miguel encarou temperaturas de -24°C para subir o Monte Fuji, no Japão.

"Foram praticamente vinte e duas horas caminhando entre subida e descida. No final eu já estava alucinando de tanto cansaço."

Na Indonésia, o desafio não foi físico, mas logístico. Depois de aviões, ônibus, carros, noites mal dormidas e até esperas em pontos de ônibus, conseguiu chegar a uma comunidade Toraja para acompanhar um dos rituais funerários mais impressionantes do mundo. Ali, os mortos podem permanecer anos sem serem enterrados até que a família reúna recursos suficientes para realizar uma grande cerimônia, marcada pelo sacrifício de dezenas de búfalos, considerados responsáveis por conduzir a alma até a vida espiritual.

"Era um lugar onde praticamente ninguém do turismo chega. Esse tipo de história exige tempo, deslocamento e muita disposição."

A África além dos estereótipos

Em agosto, Miguel inicia a maior expedição de sua carreira. Durante cerca de quatro meses, percorrerá o leste africano, passando por Quênia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Burundi, Etiópia e, dependendo das condições de segurança, também pelo Sudão do Sul. Seu objetivo é justamente combater uma visão simplificada do continente.

"As pessoas falam da África como se fosse um único país. Mas estamos falando de centenas de povos, milhares de idiomas e culturas completamente diferentes. As fronteiras desenhadas durante o período colonial ignoraram totalmente essa diversidade."

Entre as pautas estão comunidades tradicionais, povos caçadores-coletores, grandes centros urbanos, gastronomia de rua, sustentabilidade, desigualdade social e histórias quase nunca contadas pela mídia brasileira. Miguel pretende visitar a favela de Kibera, em Nairóbi, investigar os impactos ambientais provocados pelo descarte de roupas usadas vindas da Europa, conhecer a disputada ilha de Migingo, acompanhar povos Maasai divididos artificialmente entre Quênia e Tanzânia e mostrar como Ruanda se tornou uma referência mundial em preservação ambiental ao proibir o uso de plásticos.

Também pretende mergulhar na riqueza histórica da Etiópia e discutir como o continente abriga uma diversidade cultural comparável — ou até superior — à encontrada em países continentais como o Brasil.

"No Burundi quero entender o que realmente significa viver no chamado país mais pobre do mundo. Não quero mostrar apenas estatísticas, mas como vivem essas pessoas, como trabalham, como se relacionam com a terra. Meu interesse nunca foi romantizar nem condenar uma realidade, mas compreendê-la."

Se as condições permitirem, Miguel pretende ainda visitar o Sudão do Sul para dar visibilidade a um dos conflitos humanitários menos noticiados do planeta.

Mais do que viajar, aproximar mundos

Em um momento em que as redes sociais parecem valorizar apenas cenários perfeitos e experiências de luxo, Miguel Alvim Sant'Anna segue acreditando que a maior riqueza de uma viagem continua sendo o encontro. Cada vídeo é um convite para enxergar o outro sem filtros, abandonar preconceitos e entender que, por trás das fronteiras e das diferenças culturais, existem histórias capazes de aproximar pessoas de qualquer parte do mundo.

É justamente essa combinação entre curiosidade, sensibilidade e coragem que faz do Guelmi Por Aí muito mais do que um canal de viagens. Faz dele uma janela para um mundo que poucos turistas conhecem — e que, talvez por isso mesmo, mereça ser visto.

Acompanhe a próxima expedição africana pelo Instagram: @guelmi.porai.

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