Mistérios da fé: encapuzados iluminam com fogo ladeiras históricas de Minas
Mais uma tradição do interior mineiro, onde o passado colonial ainda queima vivo nas noites da Quaresma
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Nas noites escuras da Semana Santa, especialmente na Quinta-feira Santa, as ladeiras coloniais de Ouro Preto se iluminam com um espetáculo que mistura fé, drama bíblico e um ar de mistério medieval. A Procissão do Fogaréu (também chamada Procissão das Endoenças) é uma das tradições mais impactantes e "estranhas" do feriado santo mineiro, revivida após mais de um século de interrupção e que transforma a cidade em um cenário vivo da prisão de Jesus no Horto das Oliveiras.
Essa manifestação religiosa tem raízes no período colonial, com registros semelhantes em cidades como Ouro Preto nos séculos 17 e 18, influenciada por tradições ibéricas. Em Ouro Preto, o rito foi esquecido por cerca de 100 anos, mas foi resgatado em 2019 pela Paróquia Nossa Senhora da Conceição, com base em pesquisas históricas. Desde então, tornou-se um dos pontos altos das celebrações pascais na cidade, atraindo moradores, turistas e devotos que lotam as ruas históricas.
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Encenação dramática
O que torna o Fogaréu particularmente impressionante e "estranho" é sua encenação dramática: participantes vestidos completamente de preto da cabeça aos pés, com capuzes que cobrem o rosto (deixando apenas os olhos visíveis), carregam tochas acesas e varas longas. Eles formam um cortejo silencioso que percorre as ladeiras íngremes, simbolizando os soldados romanos e guardas em busca de Jesus após a Última Ceia. As luzes da cidade são apagadas ou minimizadas, e o único brilho vem das chamas tremulantes das tochas, criando sombras dançantes nas fachadas barrocas das igrejas e casarões.
A procissão geralmente começa após a Missa do Lava-pés e da Santa Ceia, por volta das 23h ou meia-noite, saindo do adro da Igreja de São Francisco de Assis ou da Paróquia Nossa Senhora da Conceição. O percurso inclui pontos simbólicos, como a representação da Ceia vazia e a captura do Senhor Bom Jesus flagelado. Cerca de 60 a centenas de fiéis participam, marchando em silêncio ou com cânticos baixos, enquanto o fogo ilumina o céu e o cheiro de resina queimada se espalha pelo ar frio da montanha.
O visual é impactante
As figuras encapuzadas com tochas flamejantes contrastam com a arquitetura dourada do barroco mineiro, evocando uma atmosfera quase sobrenatural. Muitos comparam ao medievalismo europeu, mas em Ouro Preto ganha um tempero mineiro único – a mistura de devoção católica profunda com o folclore local. Não há barulho excessivo, apenas o crepitar das chamas e os passos ecoando nas pedras, o que intensifica o senso de recolhimento e reflexão sobre a traição e o sofrimento de Cristo.
Essa tradição se encaixa perfeitamente na linha dos casos curiosos da Quaresma em Minas Gerais, ao lado da Procissão das Almas em Mariana ou das matracas em outras cidades históricas. É um ritual que assusta à primeira vista – com os capuzes lembrando vagamente outras imagens –, mas que, na verdade, representa penitência, humildade e a busca pela luz espiritual em meio à escuridão.
Se você estiver planejando uma viagem a Minas durante a Semana Santa, Ouro Preto no Fogaréu é imperdível. Prepare-se para o frio da noite, o impacto visual das chamas e uma experiência que fica marcada na memória. Mas fique atento: as ruas ficam lotadas, e o silêncio imposto ao cortejo pede respeito total.
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