Em busca de parcerias

Colecionador sonha com outro 'Inhotim' em cidade desconhecida de Minas

 Proposta poderia transformar lugarejo de 8 mil habitantes em polo turístico cultural; prefeitura de Desterro de Entre Rios diz não ter orçamento 

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Em uma pacata cidade de apenas 8 mil habitantes, a 160 km de Belo Horizonte, o empresário e colecionador Yuri Franco guarda um tesouro escondido que poderia revolucionar o cenário cultural e turístico de Minas Gerais. Inspirado no renomado Instituto Inhotim, em Brumadinho, Franco planeja criar um espaço museológico dedicado à arte e ao esporte, destinando todo o seu vasto acervo para um projeto que promete alavancar o turismo local e preencher uma lacuna cultural na região.

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Yuri, morador de Desterro de Entre Rios, é um colecionador apaixonado por arte e memorabilia esportiva há anos. "Sou colecionador de arte há bastante tempo e, ao longo dos anos, consegui formar um acervo de grande relevância", conta ele. O que começou como uma paixão pessoal evoluiu para uma ambição maior após um encontro revelador: "Certa vez, mostrei esse acervo a um importante galerista de Belo Horizonte — um dos mais reconhecidos — e ele me disse que, pela sua importância, o acervo deveria estar em um museu. Essa fala ficou na minha cabeça e acabou se tornando uma meta pessoal."

Obras raras

Acervo inclui obras de 22 artistas como Carlos Bracher e Inimá de Paula
Acervo inclui obras de 22 artistas como Carlos Bracher e Inimá de Paula Bruna Angeli/Divulgação

O acervo inclui obras de arte de relevância nacional e itens únicos ligados ao esporte, como a tocha olímpica das Olimpíadas do Rio 2016, entre outras peças raras. Também inclui pinturas, desenhos, gravuras e esculturas, valorizando a arte brasileira moderna e naif, com conexões internacionais. Confira os artistas

  • Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006): Pinturas vibrantes de fauna e cultura nordestina.

  • Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999): Paisagens e cenas urbanas com cores intensas.

  • Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987): Paisagismo impressionista do Rio de Janeiro.

  • Raphael Soyer (Russo-Americano, 1899-1987): Realismo social com temas urbanos e humanos.

  • Johann Georg Meyer von Bremen (Alemanha, 1813-1886): Cenas de gênero românticas e familiares.

  • Carlos Bracher (Brasil, 1940): Expressionismo com temas mineiros e séries homenageando Van Gogh.

  • Fulvio Pennacchi (Itália-Brasil, 1905-1992): Pintura figurativa poética e murais religiosos.

  • Clodomiro Amazonas (Brasil, 1883-1953): Paisagens e naturezas-mortas com luz lírica.

  • Gerrit Hondius (Holanda, 1891-1970): Modernismo com cores intensas e temas simbólicos.

  • Antônio Poteiro (Portugal-Brasil, 1925-2010): Arte naif com cenas populares e cerâmicas.

  • June Newburg (EUA): Pinturas rurais e retratos de vida no campo.

  • Nilson Pimenta (Brasil, 1957-2017): Arte naif com temas rurais e culturais mato-grossenses.

  • Sylvia de Leon Chalreo (Brasil, 1905-1991): Pintura naif com foco em cultura popular e feminismo.

  • Dário Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976): Paisagens orientais e figurativas líricas.

  • Sylvio Pinto (Brasil, 1918-1997): Pinturas expressivas do Nordeste brasileiro.

  • Yugo Mabe (Brasil, 1955): Abstracionismo colorido com influências nipo-brasileiras.

  • Jules Pascin (Bulgária-França, 1885-1930): Pinturas intimistas e melancólicas.

  • Philip Howard Evergood (EUA, 1901-1973): Arte social e política expressionista.

  • Oswaldo Teixeira (Brasil, 1905-1974): Pintura acadêmica com retratos e temas religiosos.

  • Lucas Pennacchi (Brasil, 1960): Arte simbólica e vibrante com elementos naif.

  • Josinaldo Ferreira Barbosa (Brasil, 1951): Pinturas naif ribeirinhas do Rio São Francisco.

  • Waldomiro de Deus (Brasil, 1944): Arte naif com temas religiosos e folclóricos.

Na seção de Memórias do Esporte, o acervo conta com biografias de atletas e descrições de objetos autografados ou moldes. Ênfase em futebol brasileiro, com itens de leilões autenticados (ex.: Goldin Auctions, Beckett Authentication). Também inclui memorabilia como camisas, bermudas e moldes de mãos/pés, preservados para exposições no Hall da Fama do Estádio Mineirão. Esses itens celebram conquistas como Copas do Mundo, títulos europeus e legados pessoais, com foco em superação e identidade cultural.

Atletas e itens destacados:

  • Mike Tyson (EUA, 1966): Bermuda autografada (boxe).

  • Pelé (Brasil, 1940-2022): Camisa autografada da Seleção Brasileira.

  • Ronaldinho Gaúcho (Brasil, 1980): Camisa autografada.

  • Ronaldo Fenômeno (Brasil, 1976): Camisa autografada do Milan.

  • Kaká (Brasil, 1982): Camisa autografada da Seleção Brasileira.

  • Rivaldo (Brasil, 1972): Camisa autografada do Barcelona.

  • Hulk (Brasil, 1986): Molde de pegada (gesso e mármore composto).

  • Fábio (Brasil, 1980): Molde de mãos (gesso e mármore composto).

  • Tostão (Brasil, 1947): Molde de pegada (gesso e mármore composto).

  • Reinaldo (Brasil, 1957): Molde de pegada (gesso e mármore composto).

Uma das joias da coleção envolve memorabilia de craques brasileiros: Franco possuiu as chapas de impressão originais usadas para fundir placas de bronze com pegadas de jogadores, exibidas no Museu do Futebol do Mineirão. "Tem uma série na Netflix que chama Coleções que Valem Ouro [King of Collectibles: The Goldin Touch], é uma série de memorabilia do esporte, né? Que é a maior casa de leilão nos Estados Unidos, ele encontra itens, itens inusitados do esporte, com valores absurdos, astronômicos. Então, eu tinha as placas de vários jogadores e eles queriam muito a do Ronaldinho Gaúcho e a do Ronaldo Fenômeno, então eles me convidaram para ir lá conhecer. Acabou que vendi as chapas desses jogadores para eles”.

Essa conexão com a prestigiada Goldin Auctions — destaque da série de sucesso da Netflix que explora leilões de itens esportivos valiosíssimos — reforça o valor internacional do acervo de Franco. A “Memórias do Esporte” do futuro museu destacaria peças como essas, atraindo fãs de futebol e colecionadores.

Desinteresse do poder público 

No entanto, a ausência de infraestrutura cultural na região é um obstáculo gritante. "Aqui em Desterro não existe nenhum museu, e o mesmo acontece nos municípios vizinhos. São 11 municípios limítrofes sem qualquer equipamento museológico, ou seja, sem acesso a esse tipo de patrimônio cultural", lamenta o colecionador.

A proposta ganhou apoio inicial do poder público local. O prefeito Wagno Almeida Duarte, conhecido como Waguinho Duarte, conheceu o projeto e manifestou interesse. "Fizemos o compromisso de junto com ele e um vereador que também gostou muito do projeto, de buscar recursos que possam custear esse projeto. Infelizmente no momento o município não tem condições financeiras de custear o projeto. Os municípios em geral estão sofrendo por quedas nas suas receitas", afirmou o prefeito.

Novo 'Inhotim' 

Empresário e colecionador, Yuri Franco Yuri é apaixonado por arte e memorabilia esportiva
Empresário e colecionador, Yuri Franco Yuri é apaixonado por arte e memorabilia esportiva Bruna Angeli/Divulgação

A criação do museu vai além da preservação cultural: ela tem potencial para impulsionar o turismo em uma área carente de atrações. Desterro de Entre Rios, conhecida por sua tranquilidade rural, poderia se tornar um destino obrigatório para amantes de arte e esporte, atraindo visitantes de Belo Horizonte e outras capitais. Similar ao impacto de Inhotim, que transformou Brumadinho em um hub internacional de arte contemporânea, o museu de Franco poderia gerar empregos locais, fomentar o comércio e hotéis, e promover eventos culturais que movimentassem a economia. Especialistas em turismo cultural estimam que iniciativas como essa podem aumentar o fluxo de turistas em até 30% em municípios pequenos, criando um efeito cascata positivo para a região metropolitana de BH.

No ano passado, Franco deu um passo concreto ao fundar o Instituto Brasil de Arte e Memória, com o objetivo de gerir o futuro museu. "O mais difícil eu já tenho, que é o acervo, e por isso cedi todo esse patrimônio ao Instituto", explica. Mas para viabilizar o projeto, ele busca parcerias, especialmente com o poder público. "No entanto, para que o museu funcione de fato, é indispensável apoio do poder público, pois não consigo mantê-lo sozinho. Para você ter uma ideia, com um investimento relativamente baixo — cerca de R$148 mil por ano — o museu conseguiria funcionar plenamente e receber todos os alunos das escolas da região. Infelizmente, isso ainda não é prioridade: muitas vezes prefere-se gastar R$ 500 mil em um show ."

A iniciativa destaca a urgência de valorizar o patrimônio cultural em áreas periféricas. "O que eu busco é chamar atenção para a preciosidade que temos nas mãos e para o impacto positivo que isso poderia gerar. Trata-se de uma região extremamente carente de instituições culturais, enquanto um acervo riquíssimo permanece subutilizado", enfatiza Franco. Ao tornar visível esse "patrimônio cultural de enorme valor escondido em uma cidade de 8 mil habitantes", o projeto não só democratiza o acesso à arte, mas também posiciona Desterro de Entre Rios no mapa turístico de Minas Gerais.

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