Por dentro da rede de influenciadores que ataca o voto feminino no Brasil
Reportagem mapeou questionamento ao direito das mulheres ao voto e seus ecos no mundo político. À BBC News Brasil, ministra Cármen Lúcia, do STF, criticou declarações e disse que propor qualquer mudança neste direito é inconstitucional.
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Ataques ao voto feminino e ao direito das mulheres de irem às urnas ganharam holofotes em junho quando o influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou "a qualidade" do voto das mulheres.
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A declaração de Figueiredo está longe de ser isolada. Nas redes sociais, circulam programas inteiros e "cortes" de vídeos e podcasts que acumulam milhares de curtidas e comentários ao exibir frases como "o voto feminino é o erro da democracia ocidental".
Outros trechos responsabilizam o sufrágio feminino por problemas da sociedade e pelas dificuldades da vida do homem moderno.
A BBC News Brasil passou três meses investigando a circulação desse tipo de mensagem e conversando com influencers que aparecem nesses vídeos para destrinchar esse fenômeno e suas possíveis consequências. O resultado está nesta reportagem e no documentário O Ataque ao Voto Feminino, disponível no nosso YouTube.
Mapeamos um ecossistema digital que também abriga mulheres que afirmam que abririam mão do próprio direito de votar, como Fernanda Guardian, ou que já atacaram o voto feminino, caso da influencer Pietra Bertolazzi.
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O discurso que parecia restrito a nichos da internet passou a ecoar no debate político do Brasil e nos círculos conservadores nos Estados Unidos.
A BBC News Brasil conversou com a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a respeito do fenômeno na internet brasileira e mostrou a ela alguns dos vídeos. "Isso aqui é democracia, as pessoas poderem falar até isso", reagiu ela, que hoje é a única mulher no Supremo.
"Se não tivessem voto, não teriam a liberdade para expressar o que a gente quer, inclusive para ser contra. É isso que a democracia garante, algo que uma ditadura não garante."
Cármen Lúcia disse que a simples proposição de mudar o direito ao voto no Brasil, hoje universal, é inconstitucional. Para extinguir o voto feminino no país, afirmou, "a Constituição tinha que ser rasgada".
'Elas são baratas porque são pobres'
Nas vozes desses influencers, o voto feminino vem sendo relacionado a mudanças que eles definem como prejudiciais aos homens. Muitos deles fazem parte da chamada machosfera e da cultura redpill, comunidades de valorização masculina que enaltecem um homem de força, dominante na relação, e que precisa estar em constante vigilância sobre as intenções de uma mulher.
Renato Amoedo é um desses influencers. Mais conhecido como Renato 38ão (uma referência ao calibre de revólver), ele tinha mais de 900 mil seguidores no Instagram em agosto, mas seu perfil não está mais disponível. Ele diz que sua conta foi derrubada. Trezoitão frequentemente aparece em podcasts no papel de polemista e é apresentado como alguém que não tem "medo de dar opinião".
Em um post deste ano no seu perfil, ele critica com termos chulos o voto de mulheres não casadas. Foram mais de 20 mil curtidas e quase 500 comentários, a maioria de apoio.
O influencer, que vende cursos online específicos para investimento em bitcoins e também faz eventos ao vivo, defende que estudo e trabalho não deveriam ser o foco da vida de uma mulher. "A mulher colocar o trabalho e o estudo como a prioridade da vida dela é autodestruição espiritual, física e financeira."
Também disse em um podcast que a instituição do direito de voto às mulheres, que entrou por decreto no Brasil em 1932, foi a origem do Estado do bem-estar social moderno. A partir dos benefícios concedidos pelo governo, segundo ele, a mulher deixou de depender de maridos e pais e, dessa forma, ganhou independência financeira.
"Elas são baratas porque são pobres", disse.
Em outro momento, defendeu ainda que a função mais valiosa de uma mulher deveria ser idealmente a de gerar filhos: "Ninguém pode produzir nada mais valioso do que quatro ou cinco pessoas equivalentes ou melhores do que você".
E chegou a dizer que não vê problemas no casamento infantil. Questionado durante uma entrevista a um podcast em 2022 sobre a legalidade em uma hipotética união entre um homem de 50 anos e uma criança de oito, ele respondeu: "Se os pais concordarem e todo mundo concordar...".
A BBC News Brasil insistiu várias vezes, mas Renato Amoedo não quis conceder entrevista. Um assessor afirmou na época que ele estava em viagem por Mônaco e Portugal.
Trezoitão é presença constante em um podcast que nasceu voltado para o público da "machosfera": o Redcast, que tem pouco mais de um milhão de inscritos no YouTube e é apresentado pelo influencer Junior Masters, que se apresenta como especialista em comportamento humano e atração sexual.
Uma das convidadas de uma edição de janeiro de 2026 foi Ana Hering, integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidata a deputada federal por São Paulo pelo Missão, partido ligado ao movimento. Renan Santos é o candidato da sigla à Presidência.
Durante o programa, um espectador pediu a opinião dos participantes da mesa sobre a ideia de extinguir o voto feminino. "O mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela. E começaram a ouvir", diz Ana Hering.
Ela disse em entrevista à BBC News Brasil que fazia uma piada quando deu essa declaração. Hering afirma que fazia uma sátira quando repetiu a fala do apresentador do Redcast, Junior Masters, quando ele disse: "O voto feminino é o erro da democracia ocidental".
"Como uma mulher pré-candidata a deputada federal, que atua no movimento político já há um bom tempo, claramente foi uma piada. É de fato muito cômico você ver uma mulher política falando assim, gente, olha só 'o voto feminino foi um grande erro da democracia ocidental'."
Na conversa, a candidata também afirmou que "o voto feminino já é algo que está consolidado há quase um século. E que hoje a gente vive num mundo que é majoritariamente democrático".
"As pessoas que me acompanham todos os dias, as pessoas que estão comigo diariamente, elas sabem que esse não é o meu posicionamento. Então, nesse momento, eu claramente entrei na piada dele [Junior Masters]", afirma.
Procurado, Junior Masters disse em uma mensagem para a reportagem que não é contra o voto feminino em si, mas contra o voto de uma forma geral. Ele não quis dar entrevista para explicar melhor seu posicionamento. O apresentador não mencionou que a fala no Redcast havia sido uma piada ou era parte de uma sátira.
'Superficialidade' das mulheres na política
Na mesma edição do Redcast, há ainda outros comentários sobre mulheres e política. Em um dos trechos, Hering afirma que "naturalmente a mulher se interessa menos por política e eu acho que tende mais a comprar discursos prontos".
Quando questionada pela reportagem sobre essa passagem, a candidata não disse que se tratava de uma piada.
"Por mulheres se interessarem menos por política, elas acabam entrando num senso comum, que é a superficialidade. Se eu falar para você, por exemplo 'mulheres se interessam menos por carros'. Mulheres acabam comprando o discurso pronto sobre carros", afirmou à BBC News Brasil.
Um tema frequente em podcasts do tipo é a ideia de que mulheres seriam, por definição, presas fáceis de discursos enganosos, enquanto homens teriam, também por esta definição, uma cabeça analítica, que distingue melhor a verdade da mentira.
Durante essa mesma edição do Redcast, o apresentador Junior Masters afirma que o cérebro feminino "opera na base da empatia. O cérebro empático. E o do homem é o cérebro sistemático. Ele liga as coisas tipo assim: 'Isso aqui funciona, isso aqui não funciona'. 'Isso aqui é a última'. 'Isso aqui é bom?' 'Isso aqui é certo ou errado?'".
Essa concepção é contrariada por pesquisas. O entendimento atual da comunidade científica é que gênero não permite tirar conclusões sobre a estrutura de um cérebro ou um perfil cognitivo.
A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora na Universidade Vanderbilt dos EUA e renomada por seus estudos sobre o cérebro, explica que o cérebro de homens e mulheres é "essencialmente o mesmo, tirando a circuitaria em regiões muito específicas, como o hipotálamo, que cuida dos comportamentos sexuais. Isso é uma outra história que não tem nada a ver com como a gente se comporta, como a gente toma decisões".
Herculano-Houzel diz: "Sem sombra de dúvida é besteirada pura essa ideia de que homens têm um cérebro assim e mulheres têm um cérebro assado".
Mulheres contra o voto feminino
Nesse universo, há também mulheres influencers que se posicionam contra o sufrágio feminino e chegam até a dizer que abririam mão do próprio direito a voto.
Uma das defensoras dessa ideia é Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos e com 300 mil seguidores no Instagram. Ela mora em Miami e mostra em fotos no perfil a sua rotina na cidade.
Em uma postagem, ela diz: "Não acho que votar me torna mais rica, mais bem-sucedida, mais bonita, mais importante".
Afirma também que "o voto feminino foi um erro" e que "abriria mão facilmente do meu voto".
Fernanda Guardian não quis conversar com a BBC News Brasil sobre suas declarações.
Em outro vídeo, ela diz: "A realidade é que as estatísticas não mentem. Historicamente, a mulher vota, as mulheres votam na esquerda. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro".
A afirmação se conecta com posicionamento recente do influencer Paulo Figueiredo, próximo da família Bolsonaro.
No final de junho, Figueiredo, que mora nos Estados Unidos e é neto de João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar (1964-1985), disse numa live que "mulheres votam estatisticamente mal. Principalmente mulheres solteiras".
"As mais jovens votam estatisticamente cada vez mais na esquerda. E vale se deter um segundo num ponto interessante que também gerou controvérsia, de que a diferença entre as mulheres casadas e o voto masculino é praticamente zero."
Na época, o candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) repudiou a fala do influencer e disse que caberia à direita tentar convencer as mulheres de suas ideias.
A partir do século 21, pesquisas feitas principalmente nos Estados Unidos mostram distância entre as escolhas de voto feitas por mulheres e homens.
Mas mulheres casadas nos Estados Unidos têm, segundo esses estudos, preferências eleitorais mais próximas a dos homens (em particular homens casados).
No Brasil atual, as pesquisas de opinião apontam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) leva vantagem entre as mulheres em geral, na comparação com Flávio Bolsonaro, o que os especialistas atribuem a uma série de fatores, desde rejeição de estilo até análise específica de políticas propostas, como as para a segurança.
Para a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, professora de Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os discursos de ataque ao voto feminino são uma forma de atacar a própria democracia. "Questionar o voto feminino é uma forma muito sutil de questionar o nosso regime democrático. Se a gente explora esse discurso por tempo suficiente, as pessoas se acostumam com ele", diz.
"E se as pessoas se acostumam com o discurso que diz que a nossa democracia não funciona: 'Olha esse monte de mulher votando', 'Isso daí não está certo', 'Para que isso?'. A gente começa a naturalizar a ideia de que talvez a gente não precise viver numa democracia."
Para Vargas-Maia, esse movimento também é uma reação às mudanças sociais e econômicas das últimas décadas. "É efetivamente um projeto de revisão de como os papéis de homens e mulheres mudaram nas nossas sociedades ao longo do último século e transformaram as nossas sociedades também, tornando-as mais democráticas, distribuindo melhor o poder que antes estava concentrado na mão dos homens para outras minorias."
Defesa da submissão feminina
Um ponto comum no discurso dos influencers que criticam o voto feminino é o de que a independência econômica e de pensamento das mulheres a partir do século 20 foi prejudicial ao mundo.
Eles sugerem um retorno a um tempo em que as ideias e as decisões femininas precisavam ter a palavra final de um homem: o marido ou o pai.
Uma das bandeiras da influencer Pietra Bertolazzi, com 1,3 milhão de seguidores, é a defesa da submissão feminina ao homem.
Em um outro episódio do Redcast, ela disse que "estar submissa é estar embaixo de alguém que tem uma missão maior".
Bertolazzi tem 40 anos, já trabalhou com moda, foi DJ internacional, participou de um reality show de casais e atuou como funcionária da Prefeitura de São Paulo na gestão João Doria, com quem teve um desentendimento.
Hoje ela dá cursos online que misturam organização da rotina, desenvolvimento pessoal e orientação espiritual pela fé católica.
Alguns dias depois da live de Paulo Figueiredo, ressurgiu uma entrevista de Bertolazzi, realizada em janeiro deste ano e publicada nas redes em abril, em que ela diz ser contra o voto feminino. "Se a pessoa me perguntar 'ah, você é contra o voto feminino?'. Bom, o que eu defendo é uma monarquia, termo muito distante. Sou contra o Estado moderno. Eu acho a democracia zoada", disse ela à BBC News Brasil.
Bertolazzi diz que se surpreendeu com a repercussão do seu vídeo. "As pessoas estão levando a minha opinião muito mais a sério do que eu."
Mas ela reconhece o poder de influenciar centenas de milhares de pessoas com suas falas?
"O que eu reconheço é que as pessoas deveriam ter um pouco mais de boa vontade em querer entender o que as pessoas estão falando. Uma coisa é você ler numa manchete sensacionalista que a Pietra quer a volta da Idade Média, que a Pietra quer a volta da monarquia, que ela quer tolher as mulheres do direito [de votar]. Eu nunca falei isso. Eu nunca defendi isso."
Ela afirma que há um anseio das mulheres por "essa falsa liberdade, por essa ilusão de poder que elas têm hoje em dia no sistema democrático de direito". Para a influencer, esse receio "juntamente com todo o ressentimento feminista e ar vitimista faz com que a mulher hoje tenha uma posição mais hostil aos homens em geral".
Religião, submissão feminina e direito ao voto se misturam em outros discursos.
O missionário Joffre Swait dirige a Missão Guanabara, um grupo de evangelização que tenta difundir no Brasil as ideias do pastor americano Douglas Wilson.
Em entrevista à BBC News Brasil, Swait explicou suas ideias: "O marido deve amar a esposa, e a igreja a Cristo. A esposa deve respeitar o marido. É assim que funciona essa dinâmica. O homem lidera, mas, se Deus quiser, com sabedoria, carinho, amor, sempre respondendo aos desejos e necessidades da mulher".
Douglas Wilson é a principal liderança de uma congregação de mais de 150 igrejas presbiterianas, batistas reformadas e outras denominações nos Estados Unidos.
Ele é chamado de mentor por Pete Hegseth, o secretário de Guerra do presidente americano Donald Trump. Em 2025, Hegseth postou nas redes sociais uma entrevista em que Wilson defendia o conceito do "voto familiar".
Nesse sistema, o voto representaria uma família, e não um indivíduo. E a decisão final sobre a escolha do candidato caberia ao homem, o chefe da casa. Na falta de um homem, mulheres solteiras e viúvas poderiam votar.
Ao ser questionado na época pelo post de Hegseth, a porta-voz do Pentágono respondeu que o secretário é a favor do direito de voto das mulheres e que, ao mesmo tempo, é um "orgulhoso membro" da congregação liderada por Wilson.
O pastor Wilson também escreveu em um artigo que a 19ª emenda da Constituição dos Estados Unidos, a que deu direito de voto às mulheres americanas em 1920 foi "uma ideia terrível".
Questionado sobre o tema, Swait afirmou que eliminar a emenda não significaria suprimir o voto feminino. "Não escolheria a palavra supressão, mas a diminuição, no mínimo, sim".
"O pastor Wilson e nenhum pastor que eu conheço são contra o voto feminino. Eles são contra o voto individualista", diz.
"A forma bíblica é que o marido, o pai, seja o cabeça. Faltando isso, então a mãe vai ser a cabeça da família. Então existe, sim, autoridade, submissão, mas usar a palavra repressão é muito forte."
O pastor, que mora e vota nos EUA, explicou que, em caso de divergência, ele determinaria o voto da esposa em uma eleição.
"Se houvesse algum... isso nunca surgiu, mas se tivesse havido alguma discordância, sim, a decisão final seria minha. E, sim, se a minha mulher, se houvesse essa discordância, porque isso nunca surgiu, a minha mulher votaria comigo."
Poucos meses depois do post de Hegseth com as ideias de Douglas Wilson, o influencer de direita americano Nick Fuentes, com 1,3 milhão de seguidores no X, disse em um podcast que "eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos. Das mulheres, com certeza".
Fuentes é um apoiador de Trump e já foi recebido pelo presidente americano em um jantar.
Nos EUA, como no Brasil, o debate inclui também mulheres influencers, algumas delas declarando que abririam mão de votar se o resultado fosse ter um país "mais conservador".
Para a professora Tatiana Vargas-Maia, esse discurso de supressão do voto feminino não está perto, pelo menos agora, de se tornar realidade, mas traz um risco silencioso.
"Me parece que é muito perigoso que a gente esteja naturalizando e falando cada vez mais que talvez a nossa sociedade não deveria ser horizontal em termos de processo decisivo", diz ela.
'Democracia familiar'
Uma proposta de voto familiar aparece em uma série de seis fascículos do chamado Livro Amarelo, que reúne as ideias do Missão, partido de Renan Santos e Ana Hering.
No sexto volume da cartilha, é dito que a democracia familiar restaura "a família como célula política" e, em outro momento, há crítica sobre o direito universal ao voto: "Ao restaurar a família como célula política, não se pretende reviver o patriarcado arcaico, mas refundar o sujeito sobre uma base concreta de responsabilidade mútua, memória e herança".
A assessoria de Renan Santos e o partido Missão foram contatados quatro vezes para saber se os seis fascículos representam o plano de governo do candidato e se ele apoia a ideia de democracia familiar, mas não houve resposta até a publicação deste texto. A BBC News Brasil vai registrar, se houver manifestação futura de Santos ou do seu partido.
A reportagem comprou, no site do Missão, o sexto fascículo do Livro Amarelo e recebeu o exemplar no dia 21 de julho. A menção à proposta sobre a democracia familiar aparece entre as páginas 127 e 135.
Em julho, ao jornal O Estado de S.Paulo, o partido Missão disse que o primeiro e o sexto fascículos do Livro Amarelo são textos ensaísticos, com caráter de manifesto, e que não constituem uma proposta programática do partido. Afirma que são exercícios de imaginação política e provocações deliberadas.
Em uma entrevista recente à CNN Brasil, ao ser questionado sobre a ideia de democracia familiar no Livro Amarelo, Renan disse que a proposta não é citada em seu programa.
"Não há nenhuma menção ao voto familiar, o que há é, numa discussão prévia, em outros livros publicados, discussões temáticas que acontecem através de 200 pesquisadores de modelos democráticos no mundo todo. Não apenas não é uma defesa como não está no meu programa."
Um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria Geral da República para apurar se a proposta no Livro Amarelo e as falas de Paulo Figueiredo constituem uma tentativa de intimidar as mulheres e deslegitimar sua participação nas eleições.
Cármen Lúcia: 'Há um medo covarde de alguns'
Em uma tarde de julho, a ministra Cármen Lúcia conversou com a BBC News Brasil na sede do Supremo Tribunal Federal sobre os ataques ao direito ao voto das mulheres no Brasil.
A ministra pontuou que há dois artigos na Constituição que impedem a discussão de se retirar um direito fundamental. O gesto de propor uma lei dessa natureza já seria vetado. "Não se pode extinguir porque esbarra no impedimento constitucional óbvio, específico, expresso", afirma a ministra.
Para extinguir o voto feminino, "a Constituição tinha que ser rasgada. E, ao que me consta, isso também não é possível".
Para ela, sempre haverá tentativas de diminuir direitos fundamentais. "A gente tem que permanentemente estar em vigilância para a manutenção dos direitos conquistados. Há sempre alguém que quer o retrocesso", afirmou.
A ministra vê nesses ataques ao voto feminino "um medo exagerado, um medo um pouco covarde de alguns que não têm capacidade de convencer eleitores".
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Cármen Lúcia diz que "a ausência da mulher na possibilidade de também decidir" seria "um ônus enorme para toda a sociedade, para meninos e meninas". "Um povo é composto de mulheres e de homens, e os homens podem estar juntos para que a gente construa essa sociedade como está no preâmbulo da Constituição brasileira. Uma sociedade fraterna, justa e pluralista."