Apreço pela dignidade
O contexto atual pede uma multidão de homens e mulheres que prezem, acima de tudo, por sua honra. Gente capaz de qualificar a cidadania e efetivar hábitos com a força para mudar rumos
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Vai se tornando distante o tempo em que o ser humano considerava a sua própria dignidade como “o ouro” de sua vida. Lamentavelmente, cresce esse descaso em relação à dignidade: os avanços tecnológicos e comunicacionais contracenam com a perda do zelo pela própria honra. Consequentemente, ocorre uma banalização do mal, conforme constatam os filósofos. Um contexto que desvirtua a própria definição sobre o que é bom, restringindo-a às vantagens para se alcançar o bem-estar social. Esse desvirtuamento leva à perda de limites e a atitudes motivadas pela sedução por riquezas. Há, pois, carência de uma experiência sapiencial capaz de configurar parâmetros que qualifiquem o agir moral. Com isso, processos existenciais e sociais são contaminados por mentiras e manipulações, corroendo os alicerces de uma sociedade justa e solidária.
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Esquemas de “lavagem de dinheiro”, manipulações e aparelhamentos, em diferentes lugares, são sintomas da falta de uma experiência sapiencial. Não se busca sabedoria, ambiciona-se a esperteza. Aqueles que buscam construir a própria vida sobre os alicerces de lições sapienciais passam a ser percebidos com certa estranheza, pois torna-se cada vez cotidiana a opção pelas “facilidades” alcançadas via desonestidade. O núcleo mais recôndito da consciência é tomado por uma escuridão que sucumbe o sentido nobre dos valores éticos e dos princípios morais inegociáveis. O domínio do dinheiro destrói o apreço pela honestidade, desfigurando o ser humano, que passa a ser avaliado ou definido a partir de suas posses. A lógica que valoriza as posses, o poder e o dinheiro corrói a consciência moral.
O dinheiro seduz a tal ponto que se perde o bom senso, essencial para interromper os arquitetos de esquemas fraudulentos e aqueles que buscam manipular o semelhante, protegendo lisuras e a própria inteireza da dignidade humana. O viver humano, em seus muitos âmbitos, na política especialmente, mas também em outros campos, incluindo o religioso, está cada vez mais caracterizado por um relativismo que obscurece o sentido nobre e qualificado de cidadania. Esse cenário induz muitas pessoas a alcançarem uma conclusão desesperadora: a sociedade brasileira não teria saída para seus principais desafios, pela falta de seriedade na regência de processos, pela adoção de descaminhos, com pessoas que ferem mortalmente as instituições. Um contexto institucional desacreditado perde a capacidade para alargar horizontes, gestar novas respostas capazes de recompor o tecido social.
O acentuado relativismo faz com que o ser humano não valorize a própria dignidade, dificultando o surgimento de qualificados líderes. Cria-se um vácuo perigoso, propício ao surgimento de tiranos que, sem limites éticos, vidrados no poder, perpetram genocídios, regozijam-se com ataques e a destruição do semelhante. Passam por cima de leis internacionais e de compromissos com a paz. Por isso mesmo, há tantas guerras, complexas e de variadas formas, entrincheirando gente nos “fronts” de seus interesses, sem o mínimo compromisso com o bem comum. As portas se abrem a todo tipo de malevolência, vinganças e perversidades. Ao invés de lideranças confiáveis, dedicadas a qualificações sociais e políticas, convive-se com gente que se limita aos slogans fáceis, incapazes de ajudar na efetivação de esperadas conquistas pela sociedade. Um contexto que se agrava com a crise de credibilidade enfrentada pelos poderes que regem o Estado democrático de direito. A autoridade exercida de modo pouco altruísta perde a força essencial para inspirar transformações, levando instituições à derrocada e, consequentemente, o caos à sociedade. Para superar essa situação, os cidadãos devem reagir, mas jamais na via das radicalizações ou extremismos ideológicos.
A reação necessária é de ordem moral, cultivando o apreço pela própria dignidade, a exemplo do que faziam gerações antepassadas. Gera-se, assim, uma barreira que dificulta a proliferação do mal, debelando a sua força e abrindo alas para a vitória do bem. O contexto atual pede uma multidão de homens e mulheres que prezem, acima de tudo, por sua honra. Gente capaz de qualificar a cidadania e efetivar hábitos com a força para mudar rumos. Ecoem os preciosos ensinamentos do papa Leão XIV, que cria a oportunidade de nova reflexão sobre a Magnífica Humanidade, a partir de sua carta encíclica. Leão XIV lembra que a humanidade, criada por Deus, se encontra hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Pesa sobre os ombros da geração atual, frisa o papa, a tarefa de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.
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A tarefa e a responsabilidade envolvem todos, desafiando os cristãos a erguer os olhos para compreender e deixar-se interpelar pelo mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, que ilumina e dá sentido ao mistério da vida humana. O ponto de partida dessa grandiosa empreitada é o apreço pela própria honra. A decisão de ser honesto não custa fortunas, mas se configura como dinâmica revolucionária para produzir uma nova cultura. Essa decisão com força transformadora pede, pois, um gesto simples: o apreço pela própria dignidade.