Chama da gratidão
Santo Tomás ensina que a gratidão ultrapassa a lógica econômica da troca, pois alicerça-se na dinâmica da fraternidade, no horizonte largo do amor cristão
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A gradativa perda do sentido de delicadeza no cotidiano, entre outras consequências, leva à perda do nobre sentimento de gratidão. E a ausência da gratidão incide no tecido social, com repercussões no aumento da violência: a ingratidão expressa falta de respeito ao semelhante, não se reconhece o que se recebeu graças à ajuda do próximo. Um sinal de deficiência no sentimento de gratidão é a atitude de revolta ou a mágoa de quem já recebeu muito, mas não se conforma por não receber mais. Pessoas que se tornam incapazes, pela mágoa, de reconhecer o que já receberam.
A memória obscurecida, em razão de carências espirituais e humanísticas, embrutece corações e alarga o tecido do egoísmo, da indiferença. Elege-se o caminho da ingratidão, fermento para o ódio, para a revolta, que alimenta disputas insalubres. Lúcido é o ensinamento sempre atual de Santo Tomás de Aquino, sobre a centralidade da gratidão na arquitetura das virtudes morais e sociais. Ele ensina que a gratidão não é apenas uma atitude psicológica de reconhecimento, mas trata-se de uma exigência da justiça e da ordem moral inscrita na própria natureza humana.
Importa perceber que o déficit de gratidão afronta a natureza humana e escancara portas à violência de todo tipo, desde a destruição material até a perversidade da indiferença e a atitude defensiva da negação de tudo o que se recebeu. E a ingratidão gera um distanciamento entre o ingrato, movido pela revolta, e aquele que um dia lhe fez o bem. Constitui, pois, ameaça a vínculos fundamentais que sustentam a convivência humana, banindo da memória a lembrança do bem recebido.
A ingratidão pode se tornar vício, alimentar ódio e, consequentemente, gerar inimizades que alicerçam atitudes hostis, até mesmo o desejo de morte ou de fracasso do semelhante. Adverte Santo Tomás que a gratidão é virtude anexa à justiça e não mera emoção, cortesia ou etiqueta social. O ensinamento indica ser a gratidão uma obrigação moral, quando se recebe um benefício gratuitamente. Desconsiderar essa obrigação aponta para uma estreiteza humana e espiritual, inclusive daqueles que podem se valer de discursos e reflexões sobre justiça e humanismo, mas são incapazes de exercer a gratidão.
Sabe-se ser mais fácil discursar que, verdadeiramente e cotidianamente, cuidar do próprio agir para que seja revestido de nobreza e sentimento de gratidão. Santo Tomás advoga que todo benefício cria uma espécie de dívida moral. Não se trata de dívida matemática, jurídica ou contratual. Trata-se de uma dívida moral fundada na liberalidade do benfeitor. Ao receber um bem gratuitamente, o beneficiado contrai a obrigação moral de reconhecer interiormente o bem recebido, e, na medida do possível, praticar a retribuição: fundamentalmente cultivar respeito e atitudes coerentes com princípios de civilidade.
Santo Tomás ensina que a gratidão se configura em três atos fundamentais: reconhecimento do benefício recebido, agradecimento ao benfeitor e retribuição no momento oportuno. Esses três momentos mostram que o exercício da gratidão envolve a inteligência, a memória, a humildade, a afetividade e a ação concreta. O rompimento de uma dessas etapas provoca a ingratidão.
A perda da memória gera o ingrato que incorre em uma deformação moral. O ser humano, em vista do autêntico humanismo, precisa reconhecer que vive de dons: a vida, a educação, a amizade, a linguagem, a fé, a cultura e a graça divina. Assim, ser grato é oferecer este genuíno testemunho: ninguém é a causa de si mesmo.
Quando o indivíduo, ilusoriamente, ou por seus extremismos ideológicos que levam à perda da ternura, se torna rígido, inclemente e perverso pela ingratidão, torna-se perigoso, um verdadeiro “lobo em pele de carneiro”. O orgulho passa a ser o seu fermento, considerando que todo bem lhe é devido. Trata com indiferença e frieza aqueles que um dia lhe ajudaram. Assim, perde oportunidades de generosidade. Mesmo quando faz coisas boas, age distanciadamente da simplicidade, coberto de soberba, fermento para fracassos, perda de simpatia e credibilidade.
A gratidão a Deus, aos pais, à pátria, aos mestres e aos benfeitores nunca pode ser perdida. Virtude moral, a gratidão é atitude de fé ao se reconhecer que todo dom vem da providência divina. O amor é a razão da gratidão, pelo reconhecimento de que não se pode pagar o benefício recebido, mas se deve responder com benevolência, de modo afetivo, honrando o benfeitor, desejando-lhe o bem, conservando a memória do bem recebido. Santo Tomás também ensina que a gratidão ultrapassa a lógica econômica da troca, pois alicerça-se na dinâmica da fraternidade, no horizonte largo do amor cristão. Por isso, ser ingrato é pecado, contradiz a ordem moral que exige, de cada ser humano, a reciprocidade em relação à promoção do bem. O pecado da ingratidão faz com que o ser humano se perceba como origem e destino de todo bem, sem considerar o semelhante. A falta de expressão da gratidão constitui, assim, falha ética.
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Quem é grato cultiva a virtude da humildade por reconhecer sua dependência, não radicalizando a sua autonomia. Compreende-se que ser ingrato é atitude narcisista, fechada à alteridade. Ser grato é reconhecer que, em sua própria existência, o semelhante tem importância constitutiva. Um caminho, pois, imprescindível para debelar processos perigosos de inimizades e alimentação da violência. É preciso superar o obscurecimento da verdade, cultivar a humildade, a abertura à amizade e, especialmente, reconhecer que Deus é a fonte de todo dom para, assim, reavivar a chama da gratidão.