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Ele viu, tudo era bom

Os projetos de vida não podem se reduzir aos âmbitos sociais e políticos que, embora importantes, não contemplam tudo o que é essencial ao ser humano

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“Deus viu que tudo era bom!” Este refrão é encontrado no relato da criação, no Livro do Gênesis, a primeira leitura da vigília pascal solene, iluminando o horizonte da noite santa. A compreensão antropológica do povo da antiga aliança abarcava o sentido de uma ordem querida por Deus-criador. Desmantelada essa ordem original, o Criador escancara as portas de sua paternidade e oferece o seu filho único, Jesus, que se imola no alto da cruz, morre e ressuscita. Cristo (re)estabelece, assim, a ordem definitiva e inigualável, a ser alcançada pela via do amor generoso, desapegado de tudo que desfigura a condição humana.

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Sabe-se que distanciar-se da ordem estabelecida por Jesus faz da convivência humana uma babel, com guerras, cenários de misérias e exclusões, incompetências diante do desafio de edificar uma sociedade justa e solidária. Prevalece a escassez de diálogos essenciais à reconciliação, multiplicam-se as disputas, as ações movidas pela mesquinhez de ressentimentos. Por isso, a alma humana precisa sempre recorrer à fecundidade do tempo pascal. Desse modo pode-se conquistar a envergadura moral indispensável ao exercício da cidadania e, principalmente, à condição honrosa de discípulo do mestre crucificado e ressuscitado.


À luz da interpelação da palavra de Deus, torna-se importante trilhar um itinerário espiritual vigoroso, como uma árvore carregada de folhagens, fazendo brotar frutos abundantes e saborosos. Isto significa evitar cair nas incoerências de um intelectualismo estéril, de humanistas desumanos, de religiosos sem alma, de políticos cegos e egoístas, de enriquecimentos a todo custo. Incoerências daqueles que se esquecem de que um dia morrerão, permanecendo indiferentes, enjaulados na mesquinhez da ganância.


O itinerário espiritual, no horizonte rico da fé cristã, pode ser configurado de muitos modos e com diferentes dinâmicas. Esse rico itinerário possibilita a todos chegar ao mais genuíno amor, que tem força edificante, de reconstrução. Importa reconhecer-se, humildemente, necessitado de um itinerário espiritual, demanda mais profunda da identidade humana.


Há de se vencer o medo que alimenta resistências à vivência da fé pela admissão incontestável que o caminho de Deus é uma cruz cotidiana, como testemunham os místicos em várias formas e em diferentes experiências. Como ideal, há de se buscar a perfeição final, o que significa plena manifestação de Cristo na vida dos seus discípulos. Particularmente, a partir da prática sincera da misericórdia, compreendendo que a vida é um dom a ser oferecido em favor dos semelhantes, especialmente dos pobres. Pois a misericórdia é a vivência de uma compaixão que forra o autêntico coração humano, fazendo valer fundamental princípio: quem tem mais, tem que ser mais generoso.


Quando o ser humano desconsidera a essencialidade do itinerário espiritual os cenários se complicam, até mesmo nas relações internacionais. Prevalece a rebeldia de querer fazer valer o próprio interesse em desrespeito a direitos invioláveis. Indispensável, pois, é abrir-se à ação da graça de Deus, capaz de transformar corações por meio de uma fé que dissipa inseguranças e nunca deixa a caridade morrer.


Os projetos de vida não podem se reduzir aos âmbitos sociais e políticos que, embora importantes, não contemplam tudo o que é essencial ao ser humano, com a sua vocação e missão. O ser humano deve exercitar a sua capacidade de crer sem esmorecimentos, aprendendo a buscar o que não se vê com os olhos do corpo, conseguindo fixar-se no que está para além das evidências e dos sonhos ilusórios alimentados a qualquer custo. Trata-se de um itinerário espiritual que deve contemplar a extraordinária arte da escuta, desafio gigantesco em um mundo extremamente barulhento, de egos inflados pela vaidade, sem contribuições relevantes para a vida do semelhante.


A escuta esmerada, atenta e amorosa, é indispensável para conservar a palavra de Deus, pão vivo, verdadeira comida e verdadeira bebida. Guardar a palavra de Deus é encontrar o caminho de uma alegria duradoura. Quem dela se alimenta, se farta e se rejubila, e não deixa ressecar o coração, começo do adoecimento crônico da alma. Quem guarda a palavra de Deus, ensinam os místicos, também será guardado por ela. Indispensável no itinerário espiritual é o cultivo da humildade, acolhendo o que diz Santo Agostinho, ao ensinar que a humildade de Jesus Cristo é o remédio para todo orgulho, convite para ser humilde. Jesus Cristo, lembra Santo Agostinho, se humilhou, promovendo a cura a partir do remédio da humildade.

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Os desvarios do mundo, os descompassos sociais e políticos, as crises de sentido que ameaçam o viver, apontam na direção da indispensável adoção de um itinerário espiritual: caminho que todo ser humano deve trilhar. O tempo pascal constitui oportunidade para seguir o caminho condizente com a ordem estabelecida por Deus, capaz de levar a humanidade à redenção, desenhando no horizonte aquilo que o próprio Deus viu na sua obra, e reconheceu que era bom.

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