ARTIGO

Nosso março é infinito

Nosso março nos alerta a todo instante que precisamos olhar para trás para ter a certeza de que o futuro que queremos se faz presente agora nas lutas cotidianas

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Alessandra Roscoe

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Jornalista e escritora

Sim, temos um mês, um dia para que todos se lembrem do que já passamos e do que ainda enfrentamos. E justo no Mês da Mulher, quando as pautas dos direitos das brasileiras ganham holofotes, nos vemos outra vez mais perto de andar para trás. Tivemos alguns avanços importantes em relação ao passado, isso é inegável, mas ainda insuficientes, principalmente se levarmos em conta os retrocessos que a normalização dos valores de uma extrema direita patriarcal, machista e misógina em ascensão nos impõe todos os dias e em níveis globais. Retrocessos que insistem em nos colocar de volta no mesmo lugar de antes: o da submissão, o da inferioridade, que nunca nos definiu. Nossos direitos adquiridos contradizem o próprio nome, pois estão sempre passíveis de serem negociados, revistos, anulados.

E mesmo as mudanças necessárias prescindem de lutas hercúleas. Chega a parecer ficção que um projeto para punir o ódio contra mulheres não seja defendido por unanimidade. As críticas absurdas que a aprovação no Senado da criminalização da misoginia tem recebido e em nome de uma falsa liberdade de expressão é só um exemplo do tamanho do desafio que nós mulheres enfrentamos em cada luta. Mesmo com o aumento exponencial dos índices de feminicídio e de violência contra meninas e mulheres, do crescimento de comunidades que disseminam o ódio às mulheres, criminalizar misoginia é algo que precisa vencer resistências muitas.


A violência crescente estampa as manchetes, gera protestos inflamados, ocupa as redes sociais e na contramão do que deveria ser o rumo certo a se tomar, os avanços nas políticas públicas de proteção são freados pelo conservadorismo dos nossos legisladores, quase todos homens. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou um recorde histórico de feminicídios em 2025, ano em que 1568 mulheres foram assassinadas. Esse número representa um aumento de 47% em relação a 2024 e segue em ascensão assustadora agora em 2026. Se no ano passado quatro mulheres perderam a vida por dia assassinadas por questões de gênero e 12 aproximadamente foram vítimas de algum tipo de violência, só em janeiro deste ano a justiça já recebeu 947 novos processos de casos de feminicídio, número 3,49% maior que o registrado no mesmo período de 2025. O número de estupros também bate recordes a cada ano. Até o início de março de 2026 já foram registradas 3.573 denúncias, a maioria das vítimas, cerca de 70%, são crianças e adolescentes. Em 2025, foram mais de 83 mil casos, um estupro a cada 6 minutos. Desde a tipificação da lei do feminicídio em março de 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres.

Ser mulher no mundo contemporâneo vai além da questão de gênero. Já fomos escravizadas, caladas à força, nossos corpos arderam em fogueiras, fomos obrigadas a aceitar uma condição inferior, que sempre soubemos não ser real. Queimamos sutiãs em praça pública, ganhamos vez, voz e voto em muitas sociedades. Em outras, ainda somos vítimas de visões distorcidas, de crenças absolutistas, de regras que amordaçam, envergonham, martirizam, simplesmente por sermos mulheres. E ser mulher traz em si uma diversidade intrínseca, uma força que descobrimos até quando nos achamos fragilizadas. Ser mulher é ter a capacidade de na soma, multiplicar, dividir. Subtrair dos próprios amores, outros desejos que não apenas os nossos. Gerar, gestar, compartilhar nas entranhas, carregar vidas e aprender a olhar também com os olhos do outro. Ser mulher é trilhar com a mesma competência os caminhos profissionais e familiares. É saber que somos destinadas a mais, muito mais. Já percorremos uma longa caminhada rumo à equidade e são inúmeros os desafios que ainda não foram vencidos. A igualdade está no discurso e não na prática.

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As leis existem, as políticas públicas buscam se fortalecer no sentido de garantir cidadania e campo de ação para todas, todos e todes, mas o preconceito vem enraizado de outros tempos. Como ignorar que a mitologia e a religião nos colocaram sempre como inconsequentes e como seres desprovidos de capacidade racional? É a uma mulher que se credita, “por ser de sua natureza”, tudo de ruim no mundo. Pandora, que destampa o cofre onde se guardavam os males todos. Eva que nos expulsa do paraíso! A religião ainda fortalece a imagem feminina da submissão com a obediência da Virgem Maria e, apesar de todos os estereótipos, seguimos, lutamos, chegamos onde não se podia prever. Nas artes, na política, na filosofia, na economia, na medicina, em todas as áreas e sempre com os menores salários que os pagos nos mesmos cargos aos homens. No dia a dia, somos o que sempre soubemos ser e agora sabemos exigir, nos fazemos ouvir e queremos ser devidamente respeitadas. Um dia, um mês não são apenas para não esquecermos das vitórias, mas para lembrarmos de tudo o que ainda não conquistamos e seguirmos sem esmorecer. Nosso março é infinito e nos alerta a todo instante que precisamos olhar para trás para ter a certeza de que o futuro que queremos se faz presente agora nas lutas cotidianas, mas que precisam ser de todos nós, homens e mulheres.

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