Imigração para os EUA em tempos de Trump: o sonho americano virou pesadelo
Em 2025, 32 pessoas morreram sob custódia do ICE — o ano mais letal para a agência em duas décadas
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O retorno de Donald Trump à presidência trouxe a promessa de uma das maiores operações de deportação da história dos Estados Unidos. O que se viu, porém, nos primeiros dias de 2026, foi um cenário de tensão extrema, marcado por operações ostensivas do ICE (Immigration and Customs Enforcement), uso indiscriminado de força e, tragicamente, a morte de cidadãos americanos durante ações federais.
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O caso mais chocante ocorreu na quarta-feira (7/1), em Minneapolis: Renee Nicole Good, uma cidadã americana de 37 anos, mãe de três filhos, poeta premiada e observadora legal de atividades do ICE, foi fatalmente baleada por um agente federal durante uma operação de imigração na cidade. Good estava em seu carro, em uma rua residencial, quando agentes se aproximaram. Vídeos analisados por veículos como ABC News, The Guardian e outros mostram momentos de tensão, com ordens conflitantes e uma sequência rápida de tiros — em menos de 400 milissegundos entre os primeiros disparos.
A versão oficial do Departamento de Segurança Interna (DHS) alega que Good tentou atropelar os agentes, caracterizando o episódio como "autodefesa" e até "terrorismo doméstico". No entanto, autoridades locais — incluindo o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o governador de Minnesota, Tim Walz — contestaram veementemente essa narrativa, afirmando que as imagens não sustentam a acusação e exigindo a saída imediata do ICE da cidade. Frey chegou a declarar publicamente: "To ICE, get the f*** out of Minneapolis" ( Saiam daqui, seus filhos da p***).
O incidente não é isolado. Desde setembro de 2025, agentes do ICE abriram fogo em pelo menos nove ocasiões, resultando em múltiplas mortes. Em 2025, 32 pessoas morreram sob custódia do ICE — o ano mais letal para a agência em duas décadas. A operação em Minneapolis, que mobilizou até 2.000 agentes federais, foi desencadeada em meio a alegações (amplamente questionadas) de fraudes em programas sociais envolvendo a comunidade somali, a maioria cidadãos americanos.
Paralisia social
Esse clima de medo não se restringe a imigrantes indocumentados. Ele paralisa comunidades inteiras: cidadãos e residentes legais evitam renovar documentos, registrar boletins de ocorrência, procurar atendimento médico ou até levar filhos à escola, temendo abordagens e exposição desnecessária. O resultado é uma "paralisia social" que erode confiança nas instituições e compromete a segurança pública.
Diante desse contexto, a advogada de imigração Larissa Salvador, CEO da Salvador Law e especialista em casos de brasileiros nos EUA, oferece uma análise cautelosa, mas realista. Nascida no Rio de Janeiro e com experiência pessoal de mais de uma década em situação irregular nos EUA, Salvador enfatiza a distinção entre a política de endurecimento (inegável no governo Trump) e sua execução prática, muitas vezes marcada por excessos.
Para ela, “ainda vale a pena tentar imigrar para os EUA— mas apenas com um planejamento rigoroso e caminhos legais sólidos”. Os Estados Unidos mantêm uma economia forte, oportunidades em diversos setores e um sistema jurídico que, apesar das tensões políticas, oferece direitos e possibilidades reais de regularização.
Três pilares essenciais para quem considera a mudança:
1. Caminho legal viável — opções como vistos de trabalho, estudo, reunião familiar, investimento ou categorias para habilidades extraordinárias, avaliadas caso a caso.
2. Gestão de riscos — compreender cenários adversos e preparar um plano B, incluindo prazos, histórico e documentação completa.
3. Consistência e rastreabilidade — tudo deve ser documentado, sem improvisos, "jeitinhos" ou dependência de promessas de terceiros.
O cenário está mais duro, e erros agora custam caro — emocionalmente, financeiramente e legalmente. Para alguns perfis qualificados e bem preparados, o momento pode ser oportuno; para outros, é melhor fortalecer currículo, inglês e documentação antes de avançar.
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A questão central não é mais apenas imigrar: é fazê-lo com maturidade, informação e orientação profissional, sem ceder ao desespero ou ao medo. Como alerta Salvador, "quando a previsibilidade diminui, decisões impulsivas podem transformar o sonho americano em um pesadelo irreversível".
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Em um país que historicamente se orgulhou de ser terra de oportunidades, o governo Trump expõe uma face mais sombria: a de um aparato repressivo que, em nome da lei, gera terror e questiona até a segurança de seus próprios cidadãos. Para quem sonha com os EUA em 2026, a mensagem é clara — o caminho existe, mas exige mais cuidado, estratégia e realismo do que nunca.