BH vira o jogo e está no top 10 da educação pública
Rede municipal de ensino coloca a cidade no grupo das dez capitais com melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
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Para Belo Horizonte, chegar ao seleto grupo das dez capitais brasileiras com melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é o resultado mais visível de um processo que começou muito antes da divulgação das notas dos alunos.
Na verdade, a melhora dos indicadores da rede municipal ajuda a contar uma história mais ampla, com alguns pilares importantes: a tentativa de transformar a avaliação em instrumento de gestão, a partir da identificação mais rápida das dificuldades dos alunos; e fazer com que os resultados de aprendizagem deixassem de ser uma preocupação apenas no momento das grandes provas nacionais.
Os relatórios oficiais mostram que no Ideb de 2025 Belo Horizonte alcançou nota de 6,2 nos anos iniciais do ensino fundamental e 5,2 nos anos finais. Com isso, a rede municipal passou a ocupar a oitava posição entre as capitais nos anos iniciais e a sétima nos finais, figurando entre as dez melhores do país quando se consideram as duas etapas.
Os resultados ganham significado ainda mais especial quando vistos em perspectiva. Em 2023, as notas eram 5,8 e 4,7, respectivamente. Assim, em apenas dois anos, houve crescimento de 0,4 ponto nos primeiros anos do Ensino Fundamental e 0,5 nos finais. Nos anos iniciais, Belo Horizonte alcançou seu melhor resultado desde 2017.
Os números, entretanto, contam apenas a parte final da história. Como ocorreu em praticamente todas as grandes redes públicas brasileiras, a educação municipal sofreu os efeitos deixados pela pandemia, sobretudo sobre crianças e adolescentes que passaram períodos importantes de sua formação longe da rotina presencial da escola. Dificuldades de alfabetização, defasagens em português e matemática, problemas de frequência e diferenças de aprendizagem entre estudantes da mesma turma passaram a exigir respostas que não cabiam apenas no calendário tradicional.
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O desafio deixou de ser simplesmente ensinar o conteúdo previsto para determinado ano. Era necessário descobrir, também, o que cada estudante não havia aprendido no tempo perdido com a doença. É nesse ponto que se encontra uma das principais chaves para compreender a recuperação registrada agora pelo Ideb.
Saber onde está o problema
Estudos também oficiais alertam para o fato de que redes de ensino com milhares de estudantes, como é a de Belo Horizonte, não conseguem enfrentar defasagens a partir, apenas, da percepção de que os alunos precisam melhorar. É necessário identificar, com assertividade máxima, onde estão as dificuldades, em quais escolas, turmas, disciplinas e etapas de aprendizagem. Belo Horizonte passou a fortalecer justamente essa lógica da necessidade de diagnóstico e acompanhamento.
Em 2025, a prefeitura criou o Educa-BH, sistema municipal de avaliação para estudantes do 2º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Português e matemática passaram a ser acompanhados sistematicamente, enquanto escrita e fluência de leitura receberam atenção específica nos primeiros anos. À primeira vista, dizem os especialistas, parece apenas uma mudança técnica. Na verdade, foi uma grande mudança na lógica da gestão educacional.
Para isso, sistemas nacionais de acompanhamento, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), são fundamentais para comparar redes e acompanhar a evolução da educação brasileira. Aqui, o objetivo não é dizer a um professor, durante o ano letivo, quais alunos de sua turma precisam de uma intervenção imediata. O que se busca é produzir informação e conhecimento enquanto ainda há tempo para agir e corrigir as distorções.
Na prática, se uma turma apresenta dificuldades em determinada habilidade matemática, o problema é identificado. Se parte dos alunos ainda não atingiu o nível esperado de leitura, é possível direcionar atividades. Se uma escola apresenta desempenho muito diferente de outras que atendem estudantes de perfil semelhante, a gestão pode procurar entender o que está acontecendo. A avaliação, assim, deixa de funcionar apenas como medição do resultado final e passa a integrar o processo de ensino.
Recuperar o que ficou para trás
Esse diagnóstico está diretamente relacionado a outra frente adotada pela rede: a recomposição das aprendizagens. A expressão ganhou espaço na educação brasileira depois da pandemia, mas representa um problema bastante concreto. Um estudante que chega ao 6º ano sem dominar plenamente competências que deveriam ter sido consolidadas no 4º ou no 5º não deixa de carregar essa dificuldade simplesmente porque passou de ano.
Ao contrário. A tendência é de que a defasagem aumente. Uma dificuldade de leitura, por exemplo, interfere na compreensão de um problema de matemática. A deficiência na interpretação de textos repercute em outras disciplinas, como história, ciências e geografia. Um conceito matemático não assimilado torna mais difícil compreender os seguintes. Como se vê, recompor aprendizagem não significa apenas repetir conteúdos. Significa, antes, identificar quais conhecimentos são estruturantes e criar caminhos para que o estudante possa recuperá-los ao mesmo tempo em que continua avançando.
Tudo começa com
a alfabetização
É importante registrar que o trabalho realizado em Belo Horizonte considera a visão do longo de longo prazo. Em fevereiro deste ano, a rede municipal da capital mineira recebeu do Ministério da Educação o Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização 2025, na categoria ouro. Belo Horizonte alcançou 133 pontos na avaliação dos critérios do programa e registrou 68,58% no Indicador Criança Alfabetizada, acima da meta de 64,91% estabelecida para o município. O dado é importante porque alfabetização e desempenho futuro não são questões independentes.
Quanto mais cedo uma rede consegue assegurar leitura, escrita e raciocínio matemático básicos, menor tende a ser a necessidade de corrigir grandes defasagens nos anos seguintes. Nesse sentido, a recuperação do Ideb não pode ser analisada apenas olhando para os alunos que fizeram a avaliação em 2025. O desafio é criar uma sequência de aprendizagem que acompanhe a criança desde seus primeiros anos na escola. É uma corrida de longo prazo.
O resultado aparece nas escolas
Os resultados de algumas unidades mostram como essa estratégia se materializa de maneiras diferentes dentro de uma mesma rede. Na Escola Municipal Professor Edgar da Matta Machado, o Ideb dos anos iniciais passou de 3,8 para 5,78, enquanto nos anos finais avançou de 4,10 para 5,25. Na Escola Municipal Sebastião Guilherme de Oliveira, o indicador dos anos iniciais saltou de 5,4 para 7,0. Já na Escola Municipal Presidente João Pessoa chegou a 7,6, depois de registrar 5,8 anteriormente. Essas diferenças são importantes porque médias gerais podem esconder movimentos internos.
Na prática, são várias as possibilidades. Uma rede pode elevar ligeiramente seu resultado com muitas escolas avançando pouco. Outra pode também melhorar porque determinadas unidades tiveram saltos excepcionais – ou pode experimentar um movimento mais disseminado de crescimento.
Assim, a homenagem feita pela prefeitura aos gestores das 79 escolas que alcançaram resultados de destaque oferece uma pista sobre o que ocorreu em Belo Horizonte, onde 59 unidades receberam certificado ouro e outras 20, prata. Esse fato mostra que é na unidade escolar que as políticas públicas deixam de ser diretrizes e funcionam de fato. Afinal, é o diretor quem acompanha frequência, professores, famílias, conflitos e desempenho. A coordenação pedagógica transforma indicadores em planejamento. E o professor precisa converter esse planejamento em aprendizagem dentro de uma sala composta por estudantes com histórias de vida diferentes.
Reconhecer a importância da ponta, portanto, não é apenas premiar quem obteve uma boa nota. É reconhecer que uma rede extensa depende de capacidade de gestão distribuída por suas unidades.
Família e frequência
também entram na equação
Outro componente menos visível nos rankings, embora elementar e ao mesmo tempo fundamental: o aluno precisa estar na escola. A recuperação da aprendizagem depende da frequência e, consequentemente, da relação entre a escola, o aluno e a família. Um estudante com faltas recorrentes tende a acumular dificuldades de aprendizagem, mesmo quando existem programas pedagógicos bem estruturados. Por isso, o vínculo com as famílias passou a ocupar espaço relevante nas estratégias das escolas que apresentaram evolução. Acompanhamento da frequência, comunicação com responsáveis e mobilização da comunidade escolar deixam de ser questões periféricas quando o objetivo é melhorar aprendizagem.
Educação, nesse sentido, é um sistema de peças interdependentes. Avaliar sem intervir produz apenas estatística. Intervir sem acompanhar dificulta saber se a estratégia funcionou. Ensinar sem assegurar frequência reduz o alcance do trabalho pedagógico. E cobrar resultados da escola sem fornecer instrumentos de gestão transfere o problema sem necessariamente solucioná-lo.
Professor continua no centro
Todas essas ações são importantes, mas, com certeza, nenhuma delas substitui o professor. Avaliações, plataformas e indicadores ajudam a localizar dificuldades, mas a transformação dessa informação em conhecimento e aprendizagem continua ocorrendo na relação entre o professor e o auno.
A própria recomposição dos quadros profissionais da rede municipal de educação passou a orientar os esforços da prefeitura. Entre 2025 e os primeiros meses de 2026, foram nomeados 1.886 servidores para a educação municipal, incluindo professores e profissionais administrativos.
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Somente no início do ano letivo de 2026, 651 docentes convocados em concurso começaram a ser incorporados às escolas, dos quais 251 destinados ao primeiro e segundo ciclos do Ensino Fundamental e 400 à Educação Infantil.