SEGURANÇA PÚBLICA

Fuga de presos põe estrutura do Ceresp outra vez em xeque

Episódio registrado na madrugada dessa segunda-feira (27/7) reexibe fragilidades que levaram a Justiça a pedir intervenção na unidade prisional em março

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A segurança e a gestão no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) Gameleira, localizado na Região Oeste de Belo Horizonte, voltaram a ser alvo de preocupação do poder público e da sociedade. Na madrugada de ontem, sete detentos fugiram da unidade por um buraco que abriram na parede da cela em que estavam abrigados e conseguiram ultrapassar o muro do complexo. Até o fechamento desta edição, quatro foram recapturados, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública e Justiça de Minas Gerais (Sejusp). De acordo com o órgão, foi instaurado um procedimento interno para apurar as circunstâncias da fuga e verificar como os presos obtiveram meios de deixar o estabelecimento prisional.

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O episódio coloca em evidência a vulnerabilidade da estrutura penitenciária, marcada por superlotação, atritos operacionais e uma sequência de irregularidades apuradas pelo Ministério Público (MPMG) e Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) nos últimos meses. Segundo o Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG) e a Sejusp-MG, as forças de segurança iniciaram buscas intensas logo após a constatação da fuga. Quatro detentos foram recapturados até o fechamento desta edição: João Vitor da Silva Machado, de 21 anos; Nezio Fernandes Vieira, de 18; Ytalo Henrique Costa Macedo, de 19; e Leonardo da Silva, de 24.


Outros três detentos continuavam sendo procurados pelas forças policiais. Todos deram entrada neste ano no presídio. São eles: Luiz Fernando Freitas Pereira, de 20 anos, conhecido como "Bolotinha", admitido em 3 de julho, com quatro passagens; Saymon Patric Gomes Silva, de 23, o "LB", no local desde 22 de abril, com duas passagens; e Bruno Gustavo Gomes da Paixão, de 33, também admitido em 22 de abril, com seis passagens. Bruno já tinha histórico de fuga. Em 2018, ele escapou da penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na Grande BH, considerada de segurança máxima. Informações sobre o paradeiro deles podem ser repassadas, de forma anônima, pelo Disque Denúncia Unificado 181 ou via DDU Web.


A facilidade com que os detentos conseguiram perfurar a parede demonstra fragilidades já observadas em ocorrências anteriores na própria unidade. Em 20 de dezembro de 2025, o Ceresp Gameleira vivenciou outra fuga ousada, mas arquitetada por meios tecnológicos e com falsificação documental. Na época, quatro presos escaparam após a apresentação de alvarás de soltura fraudulentos, inseridos indevidamente nos sistemas do Poder Judiciário.

Naquela ocasião, deixaram o presídio os detentos Ricardo Lopes de Araújo, o "Dom", Wanderson Henrique Lucena Salomão, Nikolas Henrique de Paiva Silva e Júnio Cezar Souza Silva. Ricardo, apontado como integrante de uma organização criminosa voltada para fraudes eletrônicas contra os sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), havia sido detido dias antes, em 10 de dezembro, durante a Operação Veredicto Sombrio, deflagrada pela Polícia Civil.

Intervenção e colapso

O quadro recorrente de fugas no Ceresp Gameleira reflete uma crise de infraestrutura e gestão. Em março deste ano, a Justiça atendeu a requerimentos do MPMG e da DPMG e ordenou que o governo estadual apresentasse um plano de intervenção para a unidade no prazo de 15 dias. A ordem foi emitida durante audiência conduzida pelo juiz Daniel Dourado Pacheco, diante do diagnóstico de degradação do presídio.


Relatórios de inspeções feitas pelo MPMG e pela DPMG revelaram que, em janeiro, a unidade abrigava 1.928 detentos, embora sua capacidade projetada fosse de apenas 789 vagas – 144% a mais do limite. A ocupação vinha acompanhada do número reduzido de policiais penais e de condições insalubres nas celas. Promotores e defensores constataram alagamentos internos, acúmulo de sujeira, proliferação de insetos, racionamento e atraso no fornecimento de refeições, interrupção de banhos de sol, escassez de medicamentos e ausência de assistência odontológica, além de um odor insuportável relatado por servidores e detentos.


Diante da gravidade, a decisão judicial de março impôs a solução imediata de gargalos básicos em até 48 horas, como a desocupação de celas alagadas, higienização das instalações e o fornecimento regular de água, alimentos, colchões e remédios.


O cenário era de alerta. Quatro mortes foram constatadas no Ceresp Gameleira em um intervalo inferior a 20 dias, em fevereiro. Em 2025, o Ceresp Gameleira somou 15 mortes de acautelados, sete por causas naturais, seis provocadas por outros detentos, uma por autoextermínio e uma ainda sob investigação. Nos primeiros dois meses e meio de 2026, a unidade já acumulava sete mortes, sendo cinco por causas naturais e dois homicídios praticados por outros presos. (Colaborou Alexandre Carneiro) 

Falta grave

De acordo com Paulo Crosara, especialista em Ciências Penais e conselheiro do Conselho Penitenciário (Copen) pela Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB/MG), a fuga de presídios por si só não é considerada crime. Porém, a prática é considerada criminosa quando há violência ou grave ameaça. O advogado explica, porém, que há consequências internas, como a interrupção da prescrição dos crimes cometidos anteriormente pelo detento, além de ser considerada falta grave. Eventual facilitação para a fuga por parte dos agentes penitenciários configura-se crime. Ainda de acordo com Crosara, não é responsabilidade do Estado caso o fugitivo cometa algum crime após a fuga. Nesses casos, um novo processo criminal é aberto, e o Ministério Público fará a condenação da mesma forma, mas cabe ao juiz responsável pelo caso aumentar, ou não, a pena. Por outro lado, a fuga é considerada falta grave e pode interferir em situações dentro do próprio sistema prisional. Um detento recuperado não costuma conseguir estudar ou trabalhar dentro do presídio.

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- 20/12/25 – Fuga de quatro presos via alvarás de soltura falsificados, entre eles um dos detidos na operação do dia 10
- Jan a Fev/26 – Inspeções do MPMG e DPMG revelam superlotação (1.928 presos), problemas com esgoto, falta de remédios e insalubridade
- 26/2 /26 a 14/3/26 – Sequência de quatro mortes em menos de 20 dias
- 13/3/26 – Justiça impõe prazo de 15 dias para Estado apresentar Plano de Intervenção e 48 horas para medidas emergenciais
- 27/7/26 – Sete detentos cavam buraco na cela e fogem na madrugada

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