Diarista dopou e furtou outra família cinco dias antes das mortes
Nutricionista relata que ela e o marido foram vítimas da mesma mulher investigada pela morte de um casal de idosos
compartilhe
SIGA
Cinco dias antes do latrocínio do casal de idosos no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, a nutricionista Rafaella Parreiras, de 28 anos, afirma ter sido dopada e furtada pela mesma diarista investigada pela Polícia Civil (PCMG). O caso aconteceu em 25 de junho, no Bairro Buritis, na Região Oeste da capital.
Nessa segunda-feira (13/7), com a conclusão do inquérito sobre as mortes de Cláudio Atala, de 75 anos e Maria Clotilde Atala Inácio, de 76, a corporação informou que a assassina confessa, Paola Stéfany Neto Cirino, de 30 anos, fez pelo menos outras quatro vítimas agindo da mesma maneira.
Uma delas foi Raphaella Parreiras. Ela conta que precisou contratar uma diarista freelancer porque a profissional que costuma trabalhar na casa dela teve um problema pessoal. "Eu tinha um compromisso pessoal na mesma semana e precisava que uma pessoa me auxilia-se. Aí peguei essa indicação no grupo do Bairro Buritis, que é um grupo muito grande que sempre pego algumas indicações", contou.
Ao analisar as sugestões, o nome da diarista chamou a atenção de Rafaella por ter diferentes indicações ao longo dos últimos anos. "Eram depoimentos falando que ela já estava trabalhando na casa das pessoas há um ano e que ela fazia um bom serviço. Aí entrei em contato com ela."
Leia Mais
Depois de negociar o serviço pelo WhatsApp, a diarista chegou ao apartamento na manhã do dia 25 de junho. Raphaella conta que estava com o marido em casa quando Paola foi trabalhar. "Assim que ela chegou eu a orientei como seria feita a limpeza da casa e ela me questionou sobre alguns produtos de limpeza e solicitou a compra de alguns itens. Como eu trabalharia somente na parte da tarde eu saí com o meu marido para comprar."
Minutos depois de sair da residência, ela conta que começou a sentir uma sonolência intensa. "Eu acabei dormindo dentro do carro, no estacionamento do supermercado. Meu marido percebeu que eu não estava me sentindo bem e ficamos no carro por cerca de uma hora", relembra.
Ao retornar para casa, a nutricionista ainda se sentia sonolenta. Mesmo assim, saiu para trabalhar durante a tarde. O marido continuou no apartamento, mas também passou mal e acabou dormindo.
Foi justamente nesse período, segundo a vítima, que os furtos ocorreram. Imagens de câmeras de segurança mostram a diarista deixando o prédio carregando diversos objetos.
Ela afirma que foram levadas roupas, presentes recebidos no chá de lingerie, caixas organizadoras com produtos pessoais e joias. Parte dos bens foi recuperada pela Polícia Civil durante as investigações na casa da suspeita em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH. Porém, as joias não foram encontradas.
Raphaella conta que só percebeu o furto dias depois. "Um dia após a faxina, meu marido precisou passar por uma cirurgia que já estava programada e nós ficamos dois dias no hospital. Então só dei falta das joias quando voltamos para casa na segunda-feira. Como a gente tinha acabado de chegar de lua de mel eu fui ver as minhas malas para conferir se as joias estavam ali e comecei a perceber que os itens tinham sido furtados. Aí entrei em contato com ela e o número já não tinha mais foto."
Inicialmente, a nutricionista acreditava ter sido apenas vítima de um furto. A situação mudou quando decidiu conferir o nome vinculado ao Pix utilizado para pagar a diarista. "Eu não estava acompanhando as notícias porque estava envolvida com a cirurgia do meu marido. Quando peguei o nome no Pix e pesquisei, vi que era a mesma pessoa que aparecia na televisão fazendo a reconstituição do caso dos idosos. Foi muito assustador", afirma.
Segundo Raphaella, durante todo o período em que esteve no apartamento, a diarista demonstrou interesse incomum pelos objetos da casa e chegou a sugerir também arrumar o closet da família.
"Em dado momento ela me sugeriu um curso de organização que ela fez para organizar o meu closet. No mesmo momento eu neguei e falei que não havia necessidade, que seria um serviço somente freelancer e que eu precisava só da faxina."
Hoje, ela acredita que a intenção de furtar os bens existia desde a chegada da suspeita ao imóvel. "Pela forma como ela conduziu toda a situação, acredito que ela já entrou na minha casa com esse objetivo", diz.
A nutricionista também acredita que a vulnerabilidade das vítimas pode ter influenciado a escolha dos alvos. "Se meu marido tivesse acordado enquanto ela mexia nas coisas, eu não sei o que poderia ter acontecido. Acho que ela percebeu que ele era jovem e não tão vulnerável quanto os idosos."
Depois do ocorrido, Raphaella tentou alertar moradores do Buritis por meio do mesmo grupo onde encontrou a indicação da diarista, mas afirma que a publicação não foi aprovada pelos administradores. Também tentou contato com pessoas que haviam recomendado a profissional, mas não teve resposta.
Ao conversar com o delegado Gustavo Barletta, responsável pela investigação, Raphaella conta que a principal suspeita é de que a diarista tenha colocado clonazepam em sua garrafa de água enquanto ela fazia atendimentos on-line na parte da manhã. "Eu não comi nada em casa, somente tomei essa água", afirmou.
O episódio mudou a forma como ela encara a contratação de prestadores de serviço. "A gente fica com medo. Não sei quando vou conseguir confiar novamente para colocar outra pessoa dentro da minha casa. Acho importante que tanto quem contrata quanto quem presta o serviço compartilhe informações e documentos para trazer mais segurança para os dois lados", conclui.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima