Minas apresenta números preocupantes na educação básica
Estudo revela que o estado tem bom índice de alfabetização na rede pública, mas com médias de aprendizado e conclusão baixas
compartilhe
SIGA
Minas Gerais ocupa o quinto lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nos anos iniciais, com nota 6,1, mas cai para a 11ª colocação nos anos finais e no ensino médio, com notas 4,7 e 4, respectivamente. Os dados foram revelados no Encontro Anual Educação Já!, realizado na terça-feira (14/4), em São Paulo, pela ONG Todos Pela Educação, e que teve como tema principal a “Iniciativa Educação Já nas eleições 2026”. Durante o evento, foi apresentado um panorama da situação do ensino em cada estado brasileiro por meio da divulgação do 12º Anuário Brasileiro da Educação Básica.
Minas está acima da média nacional na alfabetização: enquanto o Brasil chega a 66% da rede pública alfabetizada, o estado alcança 74%. Nas disciplinas de língua portuguesa e matemática, os estudantes mineiros dos primeiros anos registraram média de aprendizado de 42% e esse índice, que já é baixo, despenca para 6% entre os alunos do ensino médio. Além disso, enquanto a taxa de conclusão dos primeiros anos da educação básica é de 94%, o do ensino médio cai para 74%.
Leia Mais
Minas Gerais atendeu a 3.644.360 alunos de escolas públicas em 2025, sendo que 47% estão na rede estadual. Ao todo, são 13.233 escolas espalhadas por todo o estado, mas apenas 3.897 são estaduais, o que corresponde a 32%.
Diante desse cenário, Francisco Soares, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-presidente do Inep, afirma que o estado está muito longe do que seria considerado ideal. “Minas Gerais teve uma evolução da educação muito forte, mas perdeu. Se a gente olhar os resultados do estado hoje, principalmente no período pós-pandemia, é muito preocupante. Há pouco tempo eu tive acesso aos resultados do oitavo ano (do PNE) e o dado dizia que temos 80% dos alunos abaixo do nível considerado adequado. Minas precisa tomar iniciativas para mudar isso”, afirma.
Soares ainda avalia que a garantia de acesso à educação para todos só veio com a Constituição de 1988, o que é relativamente recente para o desenvolvimento do país. “Nós tínhamos uma dívida social muito grande. Embora a gente esteja aplicando mais recursos, recentemente com o Fundeb, por exemplo, acho importante registrar que há uma exclusão histórica. Precisamos fazer um melhor uso do recurso”, opina.
DISTANTE DO IDEAL
O ano de 2026 é de grandes expectativas para a educação no Brasil, isso porque o início do novo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado na tarde de terça-feira (14/4) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Brasília, coincide com ano eleitoral.
“O filme da educação básica nos últimos 20 anos tem muitos pontos positivos, como o avanço nos indicadores de acesso e de conclusão na idade certa. Ao pensar nos próximos 10 anos, a gente não está partindo do zero. Mas apesar dos avanços, estamos muito distantes do que a gente precisa ter, são pouquíssimos alunos nos índices acima do básico”, avalia Olavo Nogueira Filho, diretor executivo da Todos Pela Educação.
O Encontro Anual Educação Já! reuniu lideranças políticas, gestores públicos, parlamentares, especialistas e representantes da sociedade civil para analisar o caminho percorrido pela educação brasileira nos últimos anos e discutir o próximo ciclo de políticas públicas (2027–2030).
NOVO PNE
O novo PNE, que guiará o planejamento da educação brasileira entre 2026 e 2036, foi sancionado pelo presidente Lula ao lado do ministro da Educação, Leonardo Barchini, com metas e objetivos desde a educação infantil à pós-graduação. O Plano foi elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2024 e aprovado pelo Congresso Nacional em 2026.
O plano tem como pilares principais o acesso à educação, a qualidade no ensino e a equidade de oportunidades para os estudantes. Ao todo, são 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias. O documento prevê que as metas sejam acompanhadas a cada dois anos e a integração de diferentes bases de dados nacionais, o que permite ajustes ao longo da vigência do PNE.
Uma das novidades do novo plano é o objetivo de alfabetizar 100% das crianças até o 2º ano do ensino fundamental e garantir que 95% dos alunos concluam o ensino médio na idade adequada. Outro grande objetivo é erradicar o analfebetismo na população com 15 anos ou mais.
“É absolutamente fundamental que os jovens terminem o ensino médio porque isso vai determinar as oportunidades que eles têm. Nós estamos em 74%, não é absurdo a gente chegar nos 90%. Mas na medida que você cresce, vai ficando cada vez mais difícil. A permanência do estudante é uma meta que acho que vamos atingir, mas a aprendizagem é mais difícil, então crescer de 8% para 90% não vai acontecer. Estamos mantendo o jovem na escola, mas ele não está aprendendo, essa vai ser a discussão dos próximos anos”, analisa Francisco Soares.
Também estão listados como objetivos a garantia de acesso, oferta e aprendizagem aos alunos da educação especial e bilíngue de surdos, e a ampliação da formação de mestres e doutores com foco na solução dos problemas da sociedade. O PNE ainda propõe aumentar o tempo de permanência na escola, por meio da educação integral, assim como garantir atividades que complementam o desenvolvimento dos estudantes com atividades complementares como artes, línguas e esporte.
Para oferecer um ensino de qualidade, Soares defende a escola em tempo integral para os alunos, uma melhor formação dos professores e a valorização da classe. Para ele, a criação de vínculos entre estudantes e educadores é de suma importância para o aprendizado. “Quando sai o resultado do vestibular, todo mundo fala de um aluno que veio de uma situação vulnerável e conseguiu. Eu quero que isso se torne o padrão, mas estamos longe de ter isso”, declara.
ANALISANDO O PASSADO
PARA CONSTRUIR O FUTURO
O documento “Dois movimentos, uma só agenda”, lançado durante o evento, aponta que os primeiros anos do século 21 registraram avanços relevantes na proficiência, especialmente no Ensino Fundamental. Entretanto, os últimos anos registraram estagnação ou progressos muito tímidos na aprendizagem, cenário que foi potencializado pela pandemia da COVID-19.
A ONG Todos Pela Educação propõe cinco recomendações de caminhos para que os objetivos do novo PNE sejam alcançados, como a estruturação de uma agenda sistêmica para todo o Brasil, o fortalecimento de políticas públicas já existentes e uma melhor gestão de recursos.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Diante de um PNE que atravessará várias eleições até completar seus 10 anos, Olavo Nogueira defende que as decisões devem ser baseadas em evidências e que o plano deve estar acima da polarização política. “Diante da natureza e do tamanho do desafio da educação, a gente precisa trazer todo mundo para a mesa. E precisamos de pessoas que pensem diferente, o Brasil é heterogêneo. A gente não está interessado se a ideia é de direita ou de esquerda, mas que seja eficiente. A gente tem que blindar a educação de disputa puramente político-partidária”, diz. n