Tetos das igrejas de Minas: Santa Ceia da Matriz do Serro atrai gerações
Sem registro de autoria e em contraste com a exuberância do altar dedicado à padroeira da cidade, traços "ingênuos" da pintura mostram o poder da evangelização
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O Serro “mais parece um presépio” – com seu relevo, casario, ruas de pedra, igrejas construídas nos tempos coloniais. A comparação feita por um visitante, que sobe a escadaria da Igreja Santa Rita, soa bem aos ouvidos de um casal, ao lado, e paira sobre a cidade nascida no princípio do século 18 – tombada em 1941 “até onde a vista alcança”, na palavra de moradores, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mais do que um presépio, como diz o turista, o Serro se abre ao mundo como uma síntese do interior mineiro, unindo história, cultura, fé e um jeito todo próprio de viver.
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Na semana santa, todos os elementos, especialmente os artísticos associados à mão humana e ao fervor religioso, se harmonizam e comungam da natureza irrigada pelo Vale do Jequitinhonha. Nesta segunda matéria da série “O sagrado nas alturas”, sobre pinturas no forro de igrejas e capelas mineiras que remetem à Paixão de Cristo, o Estado de Minas mostra a Matriz Nossa Senhora da Conceição, templo em restauração e uma das joias do município de 22 mil habitantes.
Na capela-mor, se destaca a representação da Santa Ceia, adaptação da célebre obra de Leonardo da Vinci (1452-1519). Não há registro de autoria nem de data da obra. A Santa Ceia é o momento da instituição da eucaristia, a memória viva da última ceia de Jesus Cristo no Cenáculo de Jerusalém. Na quinta-feira santa, as igrejas fazem a encenação e também o lava-pés, muitas vezes ao ar livre.
Conforme o Inventário dos Bens Móveis e Integrados do Iphan (1996), a “pintura a óleo de caráter ingênuo” é “datável do século 19, de origem local”. Uma curiosidade é que “não tem o Judas na parte dianteira”. Os olhos de quem visita o templo podem ver o contraste entre a pintura da Santa Ceia e o magnífico altar dedicado à padroeira da cidade.
DEVOÇÃO E DESEJO DE VER A MATRIZ TODA RESTAURADA
A admiração atravessa gerações e se fortalece nesses dias de pura religiosidade. Quem conhece bem a Matriz Nossa Senhora da Conceição é a professora Honorina Lilhan Araújo Costa Nunes Mesquita, de 59 anos, nascida e criada no Serro. “Morei muitos anos ao lado do templo, que é nosso orgulho. Lembro dos meus tempos de criança, junto com a meninada, brincando de bola e rouba-bandeira no adro, com a presença do cônego Júlio Gomes de Oliveira”, conta Lilhan. “Esta restauração é muito importante, e estamos esperando o restante da obra”, ela diz.
Com o marido, Ennio Flávio Nunes, uma das vozes do coral masculino Unidos da Fé, a professora foi todas as noites à matriz para o Setenário das Dores, que antecede a semana santa com os sete dias de orações, recitação do terço e meditação sobre as sete dores de Maria Santíssima. “Agora, temos as missas, procissões e cerimônias da Paixão de Cristo. Olho para as pinturas do forro, Nossa Senhora e a Santa Ceia, e vejo muito mais do que decoração: é evangelização”, afirma Lilhan, lembrando que, em junho passado, o marido e a filha do casal, Maria Flávia Nunes Mesquita, foram imperadores da Festa do Divino. Na quinta-feira santa, o Unidos da Fé vai cantar na cerimônia do lava-pés.
Lilhan faz questão de destacar o trabalho do cônego Paulo Henrique Soares, que está deixando a cidade após sete anos como titular da Paróquia Nossa Senhora da Conceição. “Ele se empenhou na restauração e conservação de peças sacras, a exemplo de imagens, castiçais, os paramentos, num belo exemplo de fé e preservação das tradições. Deixa o legado de dedicação, amor pela Igreja e organização, que permanecerá na memória e no coração do nosso povo”, afirma. O padre será transferido para o município vizinho de Alvorada de Minas.
DE VOLTA À VIDA SERRANA PARA ALEGRIA DOS FIÉIS
Fechada em 2024, a Matriz Nossa Senhora da Conceição, vinculada à Arquidiocese de Diamantina, reabriu as portas no início do mês para as celebrações religiosas. Com investimento de R$ 6,3 milhões via Novo PAC, do governo federal, o templo recebeu obras na estrutura, restauração de elementos artísticos, sistemas elétricos, cobertura e conservação dos bens integrados. Da cerimônia, participaram autoridades e a centenária Banda Santíssimo Sacramento.
Para o arcebispo de Diamantina, dom Darci José Nicioli, a restauração da matriz “mantém vivo um espaço que ultrapassa a função estritamente litúrgica”. A cultura, acrescentou, é fundamental para a vida, “como alimento para o corpo, porque dá sentido ao nosso existir”.
Os fiéis não cabem de alegria com as obras na matriz, a exemplo de Maria das Dores Pires de Almeida. “Se não falar Dasdores Almeida, ninguém saberá quem é”, avisa a “católica apostólica romana” fervorosa, cujo nome está relacionado a Nossa Senhora das Dores. “Participei do Setenário das Sete Dores de Maria”, conta a integrante da Pastoral da Visitação sobre as cerimônias religiosas que antecedem a semana santa. Nascida em fazenda, onde estudou, e residente no Serro desde os 12 anos, Dasdores se mostra satisfeita com o restauro em curso da matriz. “Missas já são celebradas lá e isso é fundamental para a comunidade católica.”
ESFORÇOS AO LONGO DO TEMPO PARA PRESERVAR ESPAÇO DE FÉ
Antigo Serro do Frio, nome traduzido do indígena “Ivituruí”, depois batizado Vila do Príncipe, em 1714, uma das sete vilas do ouro de Minas, o município do Vale do Jequitinhonha tem na Matriz Nossa Senhora da Conceição uma das principais referências do seu patrimônio. Conforme o Inventário dos Bens Móveis e Integrados do Iphan, responsável pelo tombamento, em 1941, da Matriz Nossa Senhora da Conceição –, o templo começou a ser construído posteriormente a 1776, “ano em que o vigário Simão Pacheco deixa em testamento tudo o que lhe era devido em côngruas (pensão que se concedia aos párocos) para se fazer uma matriz nova”.
Em 1796, a igreja já mostrava sinais de desgaste e deterioração pois, em 14 de julho daquele ano, a Irmandade do Santíssimo Sacramento apontava a necessidade de reedificação da capela-mor e da nave. Registros efetuados no livro de receita da irmandade atestam que, entre 1796 e 1799, materiais foram adquiridos com pagamentos a Manoel Fernandes Leão para trabalhos não especificados.
Paralelamente à construção do templo, ocorria o serviço de decoração interna, indica documento do Iphan. “Em 16 de dezembro de 1792, foi ajustado com Bartolomeu Pereira Diniz a confecção do retábulo da capela-mor, o qual não estava concluído em dezembro de 1795. De 1799 a 1800, foram efetuados diversos pagamentos a Joaquim Gonçalves de Aguiar por ‘tornear as colunas para o retábulo novo da igreja matriz’, aos entalhadores Bento André Pires e Francisco Pereira Diniz e ao pintor e dourador Manuel Fernandes Leão que, entre 1807 e 1808, seria encarregado da pintura do ‘cofre de exposição do Senhor do Trono’ e do ‘Sudário e Verônica”, bem como do risco para modelos da porta da igreja.
Em 1802, a matriz se encontrava em condições de servir ao culto – naquele ano, foi para ali trasladado o Santíssimo Sacramento depositado provisoriamente na hoje demolida Igreja da Purificação. Mas havia ainda muito por fazer, de acordo com o relato de dom rei José da Santíssima Trindade, bispo de Mariana, nos registros que fez em seu livro de visitas pastorais (1821/1826).
Ele informa que “apesar de grande e com cinco altares”, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Vila do Príncipe se encontrava “desprovida de tudo”, com todos os retábulos por terminar e apenas uma imagem, a da padroeira, no trono do altar-mor, sendo que os demais altares tinham as imagens dos santos pintadas em tábuas lisas (informação datada de 27 de agosto de 1821). Quatro anos depois, segundo consta do livro, já se trabalhava na conclusão dos retábulos, embora o corpo da igreja ainda estivesse “por forrar”, o assoalho e as campas se apresentando em condições precárias, enquanto o arranjo do entorno (adro e cemitério), por fazer.
Mais tarde, em 1843, pelo termo de concordata, foi contratado o empreiteiro Severo Sebastião de Gouveia que, seguindo o plano e risco do arquiteto Jorge Mayer, se encarregou da restauração da fachada principal e das torres. Sete anos depois, o presidente da província, José Ricardo de Sá Rego, considera em seu relatório que a matriz estava sob ameaça de grande ruína, necessitando de reparos urgentes. Duas placas de bronze fixadas em cada lado da porta principal da matriz trazem escritos os anos de 1872 e 1877 que, provavelmente, se referem à época de obras ali executadas. Diversas intervenções de conservação ocorreram na segunda metade do século 19 e ao longo do 20, já agora sob orientação do Iphan.
PROGRAMAÇÃO DE HOJE
Serro, no Vale do Jequitinhonha
19hMissa na Capela São Miguel, seguida da Procissão do Depósito com a imagem de Nossa Senhora das Dores até a Igreja do Rosário
Congonhas, na Região Central
19h: Missa na Matriz Nossa Senhora da Conceição e procissão com a imagem do Cristo Flagelado para o sermão do Pretório diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Na sequência, encenação de “O Palácio de Herodes”, novidade na programação que amplia a narrativa bíblica e conduz o público a mergulhar mais profundamente nos acontecimentos que antecedem a crucificação de Jesus
Mariana, na Região Central
19h: Missa na Catedral Basílica seguida da Procissão do Depósito da imagem do Senhor dos Passos para a Igreja Nossa Senhora do Rosário
Sabará, na Grande BH
19hMissa na Matriz Nossa Senhora da Conceição, com o Sermão do Pretório. Em seguida (20h30), Procissão do Depósito com a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz Nossa Senhora do Rosário
Santa Luzia, na Grande BH
19h30: Missa com Sermão do Pretório, seguida de Procissão do Depósito da imagem de Nosso Senhor dos Passos até a Capela Nossa Senhora do Carmo. Às 22h, desse templo, haverá a Procissão da Encomendação das Almas em direção ao Santuário Arquidiocesano Santa Luzia
Caeté, Grande BH
6h: Celebração Eucarística Penitencial com a Bênção do Perfume, na Comunidade São Geraldo. À noite (19h), missa na Igreja Matriz seguida de Procissão do Depósito da imagem da Bem-Aventurada Virgem Maria das Dores para a Capela Santa Fructuosa.
São João del-Rei
no Campo das Vertentes
7h e 19h: Missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo
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19h30: Via-sacra solene, na Igreja Nossa Senhora do Carmo