Semana santa: atividades culturais movimentam cidades mineiras
Exposições, concertos e lançamento de livros têm espaço em BH e no interior
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Fé, cultura, patrimônio e tradições de Minas estão unidos, mais do que nunca, nas cerimônias da semana santa, que começa no domingo de ramos (29/3) e termina na Páscoa (5/3). Ao mesmo tempo em que participam de missas solenes e procissões, visitantes e moradores da capital e do interior têm à disposição uma série de atrativos, incluindo exposições, concertos, lançamento de livros, debates e oficinas.
Na sede do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, está em cartaz “Minas Santa no Iepha – Paixão Mineira no século XXI: Festa, Patrimônio e Cultura”.
O evento no Iepha reúne pesquisadores em torno de discussões sobre as formas contemporâneas de relação com o patrimônio cultural mineiro. Um dos destaques está na mostra de fotos e roupas usadas pelas “Madalenas”, de Oliveira, na Região Centro-Oeste. Nas procissões, moradoras da cidade participam das procissões encarnando a personagem bíblica Maria Madalena.
Em 120 anos, completados em 2025, a figura de Maria Madalena está sempre presente nos ritos da Paixão de Cristo. “O documento mais antigo que temos é de 1904, mas pode haver registro de muito antes, afinal, só a imagem do Senhor Morto, que saiu aqui na primeira procissão da Paixão de Cristo, é de 1802”, contou ao Estado de Minas o tesoureiro da Confraria das Dores e presidente do Conselho Municipal de Cultura de Oliveira, Antônio Carlos Barcelos.
Tradição entre jovens
“Maria Madalena era uma mulher rica e, após se encontrar com Jesus, mudou radicalmente de vida. Mas a tradição na cidade se mantém com a jovem vestindo roupas caras e joias. Antigamente, esse papel era das filhas dos coronéis e, com o tempo, foi ficando com as moças de famílias tradicionais de Oliveira”, explicou Antônio Carlos.
Na abertura do evento no Iepha, foi lançado o livro “A paixão pela memória: imagem, ritual e teatro em Ouro Preto” (Editora Papéis Selvagens), do antropólogo Edilson Pereira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A obra resulta de pesquisa etnográfica de longa duração sobre a celebração da semana santa, propondo, conforme os organizadores, “um novo olhar sobre a cidade, compreendida como palco de encenações rituais que produzem memória”.
Considerado o primeiro livro etnográfico sobre a festa na cidade, o trabalho inclui ensaio fotográfico do autor e articula dois planos de análise: a história moderna da celebração, mapeando sua repercussão midiática no século 20, e sua experiência contemporânea. Em 4 abril, o lançamento será na Livraria Outras Palavras, em Ouro Preto, na Região Central de Minas, com a presença do prefeito local, Angelo Oswaldo, e da historiadora Maria Agripina Neves.
Concerto em órgão histórico
Já em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, haverá concerto no órgão histórico Almeida e Silva/Lobo de Mesquita, na Igreja do Carmo. Está marcado para quinta-feira (2/4), às 15h – em abril, o programa se repete nos dias 10 (20h), 11 (11h), 24 (20h) e 25 (11h). Vendas de ingresso uma hora antes do concerto. Com 549 tubos, trata-se do único instrumento desse tipo construído integralmente no Brasil colônia.
Projeto inicial da Ordem Terceira do Carmo, a Igreja do Carmo acabou sendo construída pelo contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, um dos homens mais ricos e influentes do império português. Ele e a célebre Chica da Silva, escravizada alforriada, viveram juntos durante 15 anos, em Diamantina, e tiveram 13 filhos. Chica da Silva doou recursos para a construção do instrumento, conforme consta dos arquivos da igreja.
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Luzes do Patrimônio
Para imprimir mais beleza às celebrações de semana santa em Minas, há o projeto Luzes no Patrimônio – Caminho Religioso da Estrada Real, que leva iluminação cênica e cenografia a 12 igrejas tombadas do estado: Ouro Preto, Tiradentes, São João del-Rei, Congonhas, Catas Altas, Santa Bárbara, Caeté, Mariana, Barbacena, Sabará, Diamantina e Itabirito e o Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na Grande BH. Integrando o Minas Santa, o projeto propõe uma nova forma de vivenciar o patrimônio religioso, unindo tecnologia, arte e espiritualidade.
O Minas Santa está em sua quarta edição, sendo um programa do governo de Minas, coordenado pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), com o patrocínio da Cemig via Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. A iniciativa tem parceria com o Iepha-MG, Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) e Fundação Clóvis Salgado.
Ao longo do Caminho Religioso da Estrada Real, um dos principais roteiros de peregrinação do país, a iniciativa busca fortalecer a experiência de fiéis, turistas e comunidades locais, especialmente no período noturno, quando a visibilidade desses espaços históricos é reduzida. “Assim, a iluminação cênica valoriza a arquitetura e amplia a dimensão simbólica das igrejas, criando uma ambiência que potencializa a conexão entre fé, memória e paisagem”, conforme nota divulgada pelos órgãos e entidades envolvidos no projeto.
A iniciativa também incorpora intervenções artísticas que dialogam com a tradição cristã mineira, incluindo a criação de obras visuais inspiradas nos 12 apóstolos. E mais: performances cênicas integradas aos espaços iluminados reforçam o caráter imersivo da proposta, proporcionando ao público uma experiência sensorial e contemplativa.
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Segundo o diretor de Conservação e Restauração do Iepha-MG, Itallo Gabriel, o Luzes no Patrimônio revela que “a valorização dos bens culturais também passa pela forma como percebemos e experienciamos”. Ele diz que, ao iluminar igrejas e paisagens históricas, o projeto não apenas destaca a materialidade desses bens, como também potencializa aquilo que é invisível: a fé, a memória e os significados que habitam nesse espaço”.