Extremos do clima impõem dupla emergência ao semiárido
Ainda às voltas com danos provocados pela seca, cidades do Norte do estado, Mucuri e Jequitinhonha enfrentam agora os temporais
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Prejuízos com a seca. Perdas elevadas com o excesso de chuvas. Esta é a realidade do duplo castigo imposto às cidades do semiárido mineiro pelos extremos do clima. Vinte e um municípios, situados nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri e no Norte de Minas, se encontram em situação de emergência por causa da seca e do excesso de chuvas, ao mesmo tempo. São cidades que, por cerca de até oito meses de 2025 sofreram as agruras da seca impiedosa, com milhares de famílias sendo abastecidas por caminhões-pipa. Agora, encontram-se em quadro calamitoso devido aos temporais.
Em 12 de novembro de 2025, o governo do estado publicou decreto reconhecendo situação de emergência decorrente da seca em 126 municípios nas três regiões mineiras, válido por seis meses – ou seja, até 12 de maio próximo. Do final do ano passado para cá, foram assinados decretos de situação de emergência relacionada a danos das chuvas em pelo menos 115 municípios do estado, conforme levantamento da reportagem junto aos boletins diários divulgados pela Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec).
O levantamento do EM aponta que 21 municípios com os dois decretos de emergência – por danos da estiagem e das chuvas ao tempo – se distribuem pelas regiões Norte de Minas (10), Vale do Jequitinhonha (6) e Vale do Mucuri (5). Entre ele, estão Espinosa e Porteirinha, que sempre enfrentaram a seca e que ganharam destaque no noticiário nos últimos dias, quando os temporais provocaram danos, incluindo inundações, na primeira, e o rompimento parcial de uma barragem, na segunda. Ocorreram enchentes e inundação de ruas e casas em outros municípios da região que estão em quadro emergencial por causa da seca, como Montes Claros, Mato Verde, Francisco Dumont, Bocaiuva, Juramento e Claro dos Poções (veja mapa).
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em Espinosa, cidade de 30,43 mil habitantes no extremo Norte do estado, na divisa com a Bahia, entre as noites de sexta-feira e a manhã de ontem, foram registrados 156, 6 milímetros de chuva, o que colocou a cidade debaixo d água, com muitos prejuízos.
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A inundação chegou forte na madrugada de domingo. Os bairros mais atingidos foram JK, Santa Tereza, Centro, São Domingos, Bela Vista, Araponga, Santa Cláudia, Soledade e o Centro. Conforme números divulgados pela prefeitura na tarde de segunda-feira, os temporais deixaram 1.600 pessoas desalojadas e 60 moradores desabrigados. Eles foram levados para uma escola municipal e para o Centro Paroquial da cidade. Ao todo, 10 mil pessoas foram atingidas diretamente e indiretamente pela chuvarada em Espinosa. Segundo a Defesa Civil Municipal, 405 residências foram invadidas pela água. Também foram inundadas três comunidades rurais: Capivara de Baixo, Rio Grande e Tabuleiro.
Ontem 2/3), o prefeito de Espinosa, Nilson Faber Sepúlveda, assinou novo decreto de emergência, agora por causa dos danos das chuvas. A secretária municipal de Agricultura de Espinosa, Daniela Cangussu Tolentino, afirmou que na maior parte de 2025, o município enfrentou as perdas provocadas pela estiagem prolongada. “Houve uma seca drástica, com muitos pedidos de água (…). Ainda temos 3 mil pessoas sendo abastecidas por caminhões-pipa”, contou.
“As chuvas chegaram em novembro, mas só se intensificaram mesmo no final de janeiro e em fevereiro. E agora veio uma chuva mal distribuída e muito forte, que causou toda essa tragédia aqui em Espinosa”, disse a secretária. A prefeitura da cidade busca apoio do governo do estado e de lideranças políticas para reparar os danos. Ontem, o deputado estadual Arlen Santiago (Avante) sobrevoou a cidade e prometeu buscar recursos.
ROMPIMENTO EM PORTEIRINHA
Porteirinha, cidade de 37,4 mil habitantes também no Norte de Minas e distante 110 quilômetros de Espinosa, já se encontrava em emergência por causa da seca e enfrenta apreensão desde a manhã de domingo, quando a barragem do Rio da Lajes se rompeu parcialmente devido às fortes chuvas na região. A cidade decreto estado de emergência, já reconhecido pelo governo federal no “Diário Oficial da União” (DOU).
A prefeitura da cidade, o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil (Municipal e Estadual) e a Polícia Militar de Meio Ambiente fizeram uma grande mobilização para socorrer os atingidos pelo rompimento e prevenir outros danos, já que a estrutura permanece em risco. Para o local também se deslocou uma equipe de engenharia da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), com o apoio de engenheiros de uma empresa de mineração da região, para avaliar as condições do barramento e os riscos para as comunidades atingidas.
Conforme balanço divulgado pelo Corpo de Bombeiros e pela Prefeitura de Porteirinha, foram retiradas 114 pessoas das áreas de riscos abaixo da barragem das Lajes. A maioria (101) foi levada para casas de parentes e de terceiros em locais seguros e 13 foram encaminhadas para um abrigo disponibilizado pela prefeitura no distrito de Tanque.
Em entrevista ao Estado de Minas na tarde de ontem, o prefeito de Porteirinha, Silvanei Batista, disse que, após apreensão com o rompimento parcial da barragem, a situação do município era “tranquila”. Segundo ele, durante o período da seca, a prefeitura “tomou todas as medidas preventivas” para evitar problemas com as chuvas, fazendo, entre outras ações, o desassoreamento do Rio Mosquito, que corta a área urbana.
“Mas a questão da barragem foi que ocorreram muitas chuvas nas nascentes e também nas proximidades da estrutura. Pela primeira vez na história a água não deu conta de passar no vertedouro e passou por cima (do barramento), rompendo a parte da estrutura e colocando em risco a possibilidade de ruptura geral dessa barragem”, disse o chefe do Executivo de Porteirinha.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
O duplo sofrimento dos municípios que têm que lidar com os danos das chuvas antes mesmo de se recuperarem dos prejuízos provocados pela seca “é uma consequência direta das mudanças climáticas e dos extremos do clima que atingem todo o planeta”, avalia o meteorologista Ruibran dos Reis, do Climatempo.
O meteorologista salienta que as chuvas concentradas e em excesso no semiárido mineiro logo após a seca rigorosa não resultam de nenhum fenômeno específico, com El Niño ou La Niña, sendo reflexos das mudanças climáticas. “Quando tem seca, é seca extrema, quando tem chuva, é muito intensa. Isso tudo devido às mudanças climáticas’, diz Ruibran. E completa: “Esses extremos são esperados em todo o planeta.
Nós tivemos agora nos últimos dias, inclusive, uma nevasca muito forte nos Estados Unidos e também em alguns países da Europa. E no Brasil, esses grandes temporais, principalmente aqui em Minas Gerais, e também no litoral de São Paulo e Rio de Janeiro. Agora, esses extremos estão chegando ao Norte e ao Vale do Jequitinhonha.”
A meteorologista Anete Fernandes, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), salienta que o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha são regiões que, no decorrer do ano, têm um regime de chuva mais escasso e retardamento da chegada da temporada das águas. “O que a gente observa é que, normalmente, nessas regiões, a estação chuvosa começa um pouco depois do que no restante do estado. Então, por exemplo, se aqui (em Belo Horizonte) começa a chover em meados ou final de outubro, no Norte de Minas e no Jequitinhonha, as chuvas vão começar no início de novembro. Então, tem um atraso aí de uns 15 dias para o início da estação chuvosa”, descreve Anete.
A especialista lembra que a região do semiárido mineiro também enfrenta uma maior irregularidade das chuvas. Ela ressalta que, em fevereiro, o Norte de Minas e o Jequitinhonha – e às vezes, também os vales do Rio Doce e do Mucuri – enfrentam um “veranico” (falta de chuvas) por causa de “um sistema dos altos níveis da atmosfera que inibe a chuva”. Essa situação, no entanto, não ocorreu neste ano. “Tivemos baixa pressão (atmosférica), o que provocou muita chuva em grande parte do estado, inclusive na Zona da Mata”, explica a meteorologista.
Entre as cidades do Norte de Minas que tiveram grandes volume de chuvas em curto espaço de tempo nos últimos dias, segundo os registros do Inmet, Anete cita Montes Claros, com 94,4 milímetros entre sexta-feira e a manhã de ontem, Espinosa, 156,6mm no mesmo período, e Pirapora, com 80mm entre sábado e domingo
DESPESAS MULTIPLICADAS
O presidente da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (Amams), Ronaldo Soares Mota Dias, frisa que as prefeituras do Norte de Minas, combalidas pela constante falta de recursos, têm despesas duplicadas em decorrência das perdas provocadas pela seca pelas chuvas.
“Esta questão do Norte de Minas é até contraditória. Primeiro, a gente precisa fazer uma mobilização e decretar estado de emergência em busca de recursos por causa da seca. Agora, vem a questão da chuva”, comenta Mota Dias.
O presidente da Amams salienta que, ao mesmo tempo que amenizam o drama da falta da água e trazem esperança de recuperação das lavouras prejudicadas pelo sol forte, as chuvas pesam mais para os pequenos municípios com a destruição de estradas rurais.
Ontem (2/3), a Amams fez uma reunião com lideranças políticas e representantes de outras entidades para discutir os estragos das chuvas na região e os pleitos a serem encaminhados aos governos Estadual e Federal para a reparação dos danos nos municípios. A reconstrução das estradas vicinais foi uma das prioridades elencadas.
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“Os nossos municípios têm uma imensa extensão rural. Praticamente a metade da população da região mora na zona rural e depende do transporte escolar. Então, quando falamos da necessidade de manutenção das estradas rurais, não estamos nos referindo somente ao escoamento da produção, mas também do transporte escolar, que é um direito assegurado pela Constituição. Cem por cento dos municípios enfrentam essa dificuldade”, disse Mota Dias.