CALAMIDADE EM MINAS

As engrenagens do desastre de Juiz de Fora

Chuva recorde, solo saturado, relevo vulnerável e um corredor de umidade incomum deram corpo à tragédia na cidade da Zona da Mata

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A sequência de temporais que deixou 65 mortos em Juiz de Fora, na Zona da Mata, é fruto de uma engrenagem complexa que envolve fatores climáticos e a estrutura de uma cidade que cresceu "encaixada" entre serras. Ainda que a administração municipal já tivesse um mapa de áreas de risco, que elencou 25% dos moradores da cidade residindo em pontos de alerta, especialistas ouvidos pelo Estado de Minas avaliam que não era possível prever a dimensão do desastre da última semana.

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Desde a madrugada da última terça-feira (24/2), encostas cederam, rios transbordaram e ruas desapareceram sob lama e escombros, em um mês que, historicamente, deveria marcar o "veranico", período de trégua das chuvas de verão. “Não é um mês em que costuma chover. Em qualquer parte de Minas, fevereiro é o mês com menos chuvas. Só que, desta vez, esse padrão foi rompido”, aponta o professor e pesquisador de Climatologia do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), Fulvio Cupolillo. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que o acumulado do mês, até a manhã da última quinta-feira (26/2), atingiu a marca de 733,6 milímetros em Juiz de Fora.


Para colocar em perspectiva, a média histórica para fevereiro na cidade é de 170,3mm, o que coloca as chuvas da última semana em um volume 331% superior ao esperado. Trata-se de um evento que rompe uma barreira de mais de meio século: apenas em 1961, quando foram registrados 589,6mm, a cidade viveu algo comparável. Desde o início do mês até o dia 24, já haviam sido registrados cerca de 560mm, um volume completamente fora do comportamento esperado.


A meteorologista Anete Fernandes, do Inmet, explica que o motor desta catástrofe foi um fenômeno chamado "cavado", uma área de baixa pressão alongada que estabeleceu um canal de umidade persistente desde a Amazônia, atravessando o Centro-Oeste e o Sudeste, até chegar ao litoral. "Diferente da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), onde o canal é mais direcionado, aqui temos uma convergência espalhada, alimentada por um oceano muito quente", explica Anete.


Esse corredor foi alimentado por dois fatores excepcionais: o aquecimento simultâneo do Oceano Atlântico e do Oceano Pacífico, este último sob influência do El Niño. Com mais calor disponível, há maior evaporação de água e mais energia na atmosfera, o que favorece tempestades intensas e persistentes. "Os dois oceanos estão quentes, o que intensifica a evaporação. Quando essa massa de umidade atinge o continente, que também está muito quente, é encontrada pela barreira física das montanhas da Zona da Mata", analisa Cupolillo.

O resultado foi uma tempestade que excedeu previsões meteorológicas, rompeu limites históricos de chuva e encontrou uma cidade vulnerável em vários de seus pontos mais sensíveis. Apenas nas primeiras horas do desastre, foram registrados 185 milímetros de chuva em um intervalo de quatro horas. Esse volume, caindo sobre um solo que já vinha recebendo chuvas persistentes desde o dia 18, não encontrou resistência. "O sedimento pesa. Quando o solo satura, ele perde a capacidade de ficar agregado à rocha. A partir daí, qualquer chuva adicional funciona como um gatilho para o deslizamento", reforça o professor do IFMG.


Níveis de risco


A dimensão do desastre, além do fator climático, também está diretamente associada às características geográficas e urbanas da cidade. Inserida em um relevo montanhoso, encaixada entre elevações da Serra da Mantiqueira, Juiz de Fora apresenta declividades acentuadas e cursos d’água que atravessam áreas densamente urbanizadas, o que torna o terreno propenso a enxurradas e deslizamentos, especialmente quando há chuvas prolongadas.

Equipes trabalham no Bairro Paineiras, uma das áreas mais atingidas pela série de deslizamentos e desmoronamentos PROVOCADOS PELAS CHUVAS DE FEVEREIRO
Equipes trabalham no Bairro Paineiras, uma das áreas mais atingidas pela série de deslizamentos e desmoronamentos PROVOCADOS PELAS CHUVAS DE FEVEREIRO Túlio Santos/EM/D.A Press

Em outubro do ano passado, a administração municipal publicou um Mapa de Áreas de Risco, documento técnico que já apontava que aproximadamente 25% dos moradores da cidade — cerca de 128.946 pessoas — viviam em áreas classificadas entre risco baixo e muito alto. O município figura como o terceiro de Minas Gerais com maior população exposta a riscos, atrás apenas da capital e de Ribeirão das Neves.


O mapeamento identificou encostas suscetíveis a deslizamentos e regiões sujeitas a inundações, especialmente nas margens do Rio Paraibuna e de seus afluentes. As áreas foram classificadas em quatro níveis de risco, de R1 (baixo) a R4 (muito alto). Bairros como Ponte Preta e Morro do Sabão, no Milho Branco, que estão entre os mais afetados pelas chuvas dos últimos dias, já constavam como prioridade máxima (R4).


Parte das mortes ocorreu justamente em locais previamente classificados como áreas de alto risco. Uma vítima morreu na Rua Natalino José de Paula, no Bairro Costa Carvalho, região classificada como R4 para escorregamento de solo. Outra morte foi registrada na Rua Orville Derby Dutra, em área classificada como R3. O Bairro Vila Ideal, onde houve três mortes, também apresenta setores classificados como de risco muito alto, especialmente em áreas próximas a encostas. O mapa aponta dois trechos com risco máximo de deslizamento, além de outras áreas classificadas como de risco alto e moderado.


Apesar disso, os efeitos do desastre não se limitaram a regiões historicamente associadas à vulnerabilidade social. Enchentes e deslizamentos atingiram bairros com diferentes perfis socioeconômicos, evidenciando que a exposição ao risco, nesse caso, esteve fortemente relacionada à localização geográfica e à dinâmica hidrológica, sobrecarregada pelas chuvas, independentemente da renda dos moradores.


A reportagem procurou a Prefeitura de Juiz de Fora para comentar os dados do mapeamento e as críticas sobre o ordenamento urbano, mas até o fechamento desta edição, não houve manifestação oficial.


Juiz de Fora é uma das cidades brasileiras que mais recebem alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão federal responsável pelo monitoramento de desastres naturais. A frequência desses alertas, conforme o próprio órgão, reflete a combinação de relevo acidentado, clima úmido e urbanização intensa.

O município mantém um sistema de monitoramento que inclui câmeras, pluviômetros e vistorias técnicas, além de protocolos que preveem evacuação e abrigamento temporário em situações críticas. O Plano de Contingência Municipal 2025–2026 estabelece diretrizes para resposta a eventos extremos. Especialistas ressaltam, contudo, que esses instrumentos têm como objetivo reduzir danos e orientar ações emergenciais, não sendo capazes de prever com precisão a magnitude de eventos extremos como o da última semana.


Ocupação do solo


A questão levantada pelos especialistas gira em torno da distância entre o diagnóstico técnico e a capacidade de intervenção. O geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), propõe uma leitura social do mapa. Para ele, o poder público perdeu o controle do solo para o capital imobiliário. "O mercado define o valor do imóvel e, consequentemente, quem mora onde. A população mais pobre é empurrada para as áreas de menor valor econômico, que são exatamente as de maior risco geológico", afirma.


Essa "expulsão" cria bairros com menor capacidade de resiliência. Enquanto bairros de classe média também foram atingidos, como o Alto dos Passos e São Mateus, a capacidade dessas famílias de se reconstruírem é superior à dos moradores das "margens e morros". Felippe é enfático: "O discurso de que as pessoas não devem ocupar áreas de risco despreza que é o capital imobiliário que define a geografia da exclusão", critica.


Cupolillo chama atenção também para outro fator: a impermeabilização do solo. O asfalto, o concreto e a canalização de cursos d’água reduzem a capacidade natural do terreno de absorver água. “Quando o solo não consegue infiltrar a chuva, ela escoa rapidamente, aumentando o nível dos rios e a pressão sobre encostas”, aponta. Essa dinâmica é agravada quando o sedimento fica encharcado. A água aumenta o peso da terra e diminui sua coesão, facilitando deslizamentos. “O solo saturado perde estabilidade. O sedimento fica mais pesado e não consegue permanecer agregado à rocha”, explica o pesquisador.


O especialista sugere que o planejamento urbano e o Plano Diretor devem ser os principais instrumentos de defesa civil. “Quando a sociedade tem planejamento, uma chuva forte pode parecer fraca. Quando não tem, até uma chuva moderada pode causar grandes danos”, avalia. Ele afirma que o país possui tecnologia e conhecimento para monitorar riscos, mas que é necessário integrar essas informações às políticas públicas e ao planejamento das cidades.

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A própria natureza dinâmica do clima torna impossível eliminar completamente o risco. Eventos extremos já ocorreram no passado, como em 1961, quando deslizamentos no Morro do Cristo provocaram destruição significativa. O que mudou foi a intensidade com que esses fenômenos passaram a ocorrer e a quantidade de pessoas expostas a eles. “Não é possível prever com exatidão quanto vai chover. Os modelos indicam tendência e intensidade, mas não conseguem determinar o volume preciso. O que sabemos é que eventos extremos estão se tornando mais frequentes e mais impactantes”, conclui Cupolillo. 

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